quinta-feira, 5 de outubro de 2017

MÃE, o filme






MÃE, o filme de Darren Aronofsky


Resultado de imagem para mãe filme



MÃE, o filme de Darren Aronofsky

Peço a quem não assistiu ainda ao mais novo filme de Darren Aronofsky , ‘ Mother’ Mãe em cartaz nos nossos cinemas,  que não leia ainda essa pequena crônica.
É o tipo de filme que surge de década em década. Precisei assisti-lo duas vezes para poder captar muitas das mensagens que são transmitidas visualmente e verbalmente.
Extremamente complexo, ele faz uma análise teológica e sociológica do ser humano em sua relação com a natureza (à qual pertence) e com o divino.
Jennifer Lawrence faz o papel de ‘Mãe’. Javier Barden de ‘Ele’. Michelle Pfeiffer de ‘Mulher’. Ed Haris de ‘Homem’ e Domhnall Gleeson de ‘Filho mais velho’.
              Inicia-se o filme com a imagem de uma mulher toda queimada, dentro do fogo, numa região destruída pelo fogo, numa casa em ruínas, pelo incêndio.
Em seguida aparece a mãos de um homem colocando um cristal róseo que contém eletricidade dentro, numa espécie de pedestal, em forma de tripé, de pequeno tamanho, então a partir daí a casa vai retomando sua forma e se renovando e a propriedade ao redor se recompondo.
A cena seguinte é Jennifer despertando e procurando alguém a seu lado na cama, que não está. Ela se levanta e sai andando pela casa (de 3 andares) até abrir a porta da frente onde se descortina uma vista da propriedade (no campo) verde, com relva e árvores, no meio do nada, isolada.
Ela cuida da casa enquanto Javier, ‘Ele’ é poeta e se mostra apaixonado por ela, parece não se incomodar muito com a casa. Um relacionamento tranquilo embora ele se sinta angustiado por não estar com inspiração para escrever seu poema.
Repentinamente chega um visitante, Ed Haris o Homem, tossindo, bebendo, e como um intruso, vai se instalando na casa. O poeta o recebe e o acolhe, cuida dele, e ele vai desarrumando a casa, e fumando contra a vontade da ‘Mãe’. Ela por sua vez fica indignada por que o Poeta acolhe o estranho e lhe dá guarida.
Toda casa ele tem acesso, apenas o terceiro andar, onde o Poeta usa com uma espécie de escritório é vedado, pois lá está a pedra de cristal róseo e ninguém deve tocá-la, mesmo assim o Homem tenta.
Há uma cena quando ele está vomitando pela embriaguez e doença, o dono da casa está com ele para que vomite no sanitário, ela entra e vê uma cicatriz no lado direito, que logo é encoberta pelo Poeta.
No dia seguinte entra a mulher do Homem, Michelle (magistralmente a interpreta) veio também sem avisar e se acomoda na casa, passando a desafiar a Mãe. Bebe, tem uma cupidez e sensualidade que perturba a Mãe e o ambiente, insinua a dona da casa para ter relações com o Poeta e ter filhos.
O ambiente é de uma certa maneira hostil aos dois visitantes, bem como a Mãe, enquanto o Poeta é mais acolhedor e compreensivo.
Aqui já dá para se fazer uma reflexão sobre o simbolismo do filme. O Poeta é Deus, pois numa das cenas perto do final, a Mãe pergunta a ele, ’quem é você? ‘ ele responde “Eu sou o que Sou”, isto em linguagem bíblica é Javé, o nome de Deus.
A Mãe, a princípio pensei na figura de Maria ou Eva, mas não é. Ela me parece ser a figura da Natureza, que propicia à Criação. Ela tenta ajeitar e arrumar a casa (a Terra, o Universo), mas o Homem e a Mulher perturbam e danificam a casa, no início desarrumando depois quebrando alguns objetos e fumando e bebendo. É o início do Caos entrando no Paraíso.
Quando a Mãe se perturba, sente náuseas, fraqueza, desânimo e questiona o Poeta (Deus) porque permite os intrusos e que eles baguncem a casa. Ele apenas os acolhe e responde: “não têm para onde ir”. Quando ela se sente assim, vai até o banheiro e prepara um medicamento, num frasco bem antigo, onde dissolve um pó amarelo da cor de ouro, num pouco d’água, esse pó se torna como uma energia dourada (a energia do Sol?) e ela se restaura.
A Mãe reboca as paredes e experimenta pigmentos na massa (como se colocasse barro nas cinzas) e ela tem o dom de sentir a Casa pondo as mãos nas paredes, percebendo como que a pulsação da casa, como um coração batendo, inicialmente bem vivo e vermelho e aos poucos quando o caos vai se instalando, vai ficando enegrecido, doente, isquêmico...
Repentinamente chegam os dois filhos do casal, também sem serem convidados (ninguém é convidado, são sempre intrusos), a brigar por causa de uma herança. O filho mais velho com o testamento na mão, briga com o pai e com a mãe e parte para cima do irmão mais novo, questionando a preferência do pai pelo mais novo e pela herança. Na briga o mais velho mata o mais novo com uma pedra na cabeça (o Poeta tenta apartar e a Mãe-natureza fica apavorada). É sem dúvida Caim e Abel, Adão e Eva (Michelle). O sangue do irmão mais novo mancha a casa no chão, e a Mãe tenta a todo custo apagar aquela mancha indelével.
Saem todos para o hospital, o assassino foge.
A casa já está escancarada.
Enquanto ela está limpando o chão aparece o assassino com uma marca de sangue na testa, igual a que está no chão.
A tensão do filme aumenta. Ele foge definitivamente e já chega à noite o Poeta, Adão, Eva, chorando com roupa de enterro, outras pessoas para o velório, Adão inconsolável, Eva olhares de raiva para a Mãe, sentam e pedem que o Poeta diga palavras de consolo.
Ele diz que ‘está tirando as palavras de dentro deles, para se consolarem’ o que acontece. A Mãe não entende nada as pessoas continuam chegando e invadindo tudo. Deixam torneiras abertas, lixo espalhado no chão e nas mesas, quebram encanamento (a questão do desperdício e da poluição). Quebram louça.
Quando Adão e Eva sobem no 3º.andar e quebram a pedra de cristal é a única vez que o Poeta mostra ira. Expulsa-os daquele recinto, recolhe cada pedaço e os espreme nas mãos que ficam sangrando. Quer ficar só.
Depois disso tranca a porta e a veda com tábuas. Observei também o conceito ‘geográfico’ clássico ( Dante) de céu, purgatório e inferno. O ‘céu’ mais alto é o terceiro andar onde o Poeta tem o escritório, vai descendo para os quartos, depois o térreo onde há a sala, cozinha, copa, terraço, no mesmo nível do campo ao redor, e por último o porão onde fica uma espécie de túmulo vedado (lembra o sepulcro) e um forno.
As próximas cenas mostram pessoas chegando, mais e mais, são como conhecidos de Adão e Eva, comensais a princípio e depois vãos ‘destruindo’ a casa aos poucos. Encanamento, reboco, louças. Há um foco no balcão que a todo momento sentam em cima para conversar, namorar, etc... e a Mãe reclama que não está pronto ainda, que vai cair (não entendi essa metáfora) o que acontece perto do final. Invadem também o quarto do casal.
As pessoas veem para falar com o Poeta (há uma conotação de que ele é vaidoso e se sente bem com o assédio). Todos vêm por causa da palavra e por ele mesmo.
A Mãe já está extremamente angustiada. Tenta expulsar a todos o tempo todo. O Poeta reclama que não consegue se inspirar para escrever um novo poema. Chega uma pessoa que parece a editora com outros que parecem sacerdotes.
Subindo a escada no segundo andar (o dos quartos) Ele finalmente beija a Mãe e uma luz intensa invade o rosto dela.
Já aparece ela dizendo a ele, pela manhã que está grávida. A casa se ilumina. Ele se levanta da cama, nu, e parte para escrever. A inspiração voltou com a notícia.
Ela procura ele depois e ele está na porta que dá para o campo, nu, com uma espécie de pergaminho na mão. Mostra a ela o novo poema e ela chora de emoção. Está lindo. Comenta.
Parece-me aqui que se trata do Evangelho.
Há uma cena quando ela entra e ele pergunta para onde ela vai. Ela responde ‘vou escrever o apocalipse’.
A próxima cena mostra ela toda pronta, bem vestida preparando uma ceia para os dois. Rapidamente dá para notar elementos da Pessach (Ceia Pascoal).
Uma multidão começa a chegar, fãs, jornalistas, pessoas como que com lanternas (alusão às peregrinações e procissões religiosas). Ela reclama, chama para a ceia mas ele atende a todos. “Eles estão vindo por causa da palavra”, gostaram muito diz ele.
O clímax do filme vai se acentuando. Chega gente de toda parte. Pessoas de roupa escura marcam a testa de outras dizendo ‘a palavra do poeta agora vai ficar dentro de você para sempre’ e marcam a testa com uma marca escura (ritual da quarta-feira de cinzas). Outras pregam o retrato do Poeta em uma parede (lembra os ex-votos), e começam a retirar pedaços da casa para levar como memória (relíquias). Entram mendigos, moradores de rua, migrantes e vão tomando conta de tudo. Ela reclama e tenta expulsá-los mas eles dizem ‘o Poeta disse que é para dividir com todos’ ‘tudo é de todos’. Ela se angustia. “Saiam da minha casa, essa casa é minha” ao que um dos invasores responde com desdém ‘essa casa é sua?’.
Na angustia a casa começa a sangrar justamente na mancha de sangue de Abel e vai furando a madeira (cruz de Cristo?), e o sangue começa a pingar para o porão e delineia o sepulcro. O forno do porão se acende sozinho.
Ela entra em trabalho de parto. A angustia aumenta. A casa já está toda tomada. O Poeta no meio dos invasores procurando acalmar e consolar as pessoas (parece alienado à situação da Mãe e do seu filho). Ela por sua vez toca na parede da casa e o pulso da casa já está esmorecendo. O coração está mais enegrecido. Isquêmico.
Há briga, tiros, confusão, pessoas fugindo de guerra, bombas, policiais agredindo, refugiados, pessoas presas, um caos. O Caos instalado na Casa.
Ela em trabalho de parto avançado gemendo e gritando de dor e pavor. Ele aparece e timidamente tenta ajudar ela e levar a um lugar onde possa dar a luz em segurança (lembra o princípio do Apocalipse). No meio do caos aparece uma médica, negra, que recorda um pouco uma policial ou bombeira ou ainda uma médica Sem Fronteira, que tenta ajudá-la, mas leva um tiro de fuzil bem na cabeça.
Finalmente ele a leva para o quarto e fica com ela até ela dar à luz o seu filho. Lá fora todos querem invadir o quarto. Ela implora para que ele não deixe. Está extenuada. Senta no chão. Quando o menino nasce o ruído lá fora silencia. O Poeta vai abrir a porta, ela apavorada pede que não. Ele diz que querem apenas deixar alguns presentes para ela e o menino. Ela não quer aceitar, mas trazem roupas limpas e comida (um cesto com frutas). Lembra as ofertas dos Reis Magos.
Ele pede então o menino. Ela nega. Ele puxa uma poltrona e fica em frente a ela, que está no chão. É uma posição majestática em relação a ela, porém não a força. Espera. Até passado algum tempo, ela extenuada dorme. Quando abre os olhos o filho está com o Poeta no meio da multidão, que ovaciona (aqui a cena mais forte, o clímax do filme) o menino e ele o entrega para a multidão.
Quando a Mãe vê grita e vai ao encontro gritando, desesperada, irada, ”meu filho, me deem meu filho” Por que você fez isso? Ele diz ‘Eles querem apenas vê-lo’ então começam em silêncio a comer um pedaço de carne sanguinolenta. Ela sai atrás do filho, mas encontra sobre uma espécie de altar os restos de uma criança que foi devorada (aqui não precisa explicação).
Ela grita e esmurra o chão, que se fende. As pessoas batem nela enfurecidas, chamando-a de vadia, prostituta, etc.. Rachaduras em toda a estrutura. O Poeta grita com ela “não faça isso” e com os outros para não baterem nela (uma atitude um pouco passiva) Ela desce as escadas e vai ao porão. A essa altura o sepulcro já tinha se aberto e o fogo da pequena fornalha aceso.
No sepulcro há um tonel cheio de óleo. Ela fura e espalha por toda a casa e arredores. O povo quer mata-la. O Poeta grita para ela não tocar fogo. Ela incendeia toda a casa e os campos. Tudo. Referência ao Apocalipse.
Ao final com tudo e todos destruídos pelo incêndio, ela ainda respira. Ele a pega nos braços e pergunta a ele; “Quem realmente você é?” Ele responde “Eu sou o que Sou” (esse é o nome de Deus, Javé. ‘Você ainda  me ama?’ Ela responde “Você sabe que eu lhe amo. Eu já lhe dei tudo, que você ainda há de querer?” “Você sabe que ainda falta uma coisa” Ela concorda e fecha os olhos. Ela está calcinada.
Ele enfia as duas mãos no tórax dela, retira o coração e dentro do coração a pedra rósea com energia dentro. Então a coloca no pequeno tripé do início do filme e a casa e os campos vão retomando a vida. (Um Deus que está sempre criando).O filme acaba com a mesma cena inicial uma jovem na cama perguntando por Ele.

Assuero Gomes






quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Caminhos da Andaluzia, para Maimonides, para Gaudí...




Caminhos da Andaluzia, para Maimonides, para Gaudí...




Numa terra devastada como a nossa, pela corrução e violência, injustiça social e falta de esperança, um pouco de arte e beleza faz nos recordar que somos humanos:



















































sábado, 23 de setembro de 2017

60 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 60


60


                            Padre Caetano em celebração


60 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 60



Agora vejo a Igreja de Olinda e Recife apaziguada, apenas com seus problemas triviais, condizentes com a própria natureza humana, nada estrutural, apenas conjunturas momentâneas.
Na minha mente vem a lembrança de pessoas queridas que já foram e outras que partiram para longe.
Vejo Pe. Oswaldo, Pe. Arnaldo, D. Helder, D. Lamartine, D Marcelo Carvalheira, D. Francisco Austregésilo, D. José Maria Pires, D. Paulo Evaristo cardeal Arns, D. Mauro Morelli, D. Pedro Casaldáliga, o próprio Pe. João Pubben que está na sua terra natal, Pe. Luiz antonio que vive sua fé em terras da Paraíba.
Lembro os amigos que caminharam até certo ponto da estrada comigo, agora separados como Paulo e Barnabé. Louvo a Deus por ter me mantido fiel na fé e na pertença à Igreja, sem nunca a ter traído ou vacilado, e pelos momentos mais íntimos que tive de sua presença (além da Eucaristia) que, embora raros são especiais e deixam um sinal indelével no coração e me alimenta nos momentos de Elias antes de subir ao monte.
Em maio de 2016 fui pela segunda vez a Assis. Fui procurando encontrar algo, mas recebi um algo muito, muito maior.
Agradeço a Deus ao meu irmão de primeira hora Fernando que persevera sem vacilar nessa caminhada difícil mas gratificante pela graça, esse dileto filho de Maria, assim como Paulo em Roma ele está como Lucas, sempre ao meu lado. Agradeço pelo outro Fernando, irmão de segunda hora, com uma fé ainda em véus mas que certamente se descortinará.
Revejo essa caminhada e dou graças, agora descanso sob um pé de zimbro.
Ficam registradas essas memórias.