sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Ano Novo, velho...




                                                                          Olinda



Ano Novo, velho...

Onde está o menino que queria mudar o mundo com sua poesia e com suas tintas, como se o mundo fora uma tela virgem? Vestiram-no com uma roupa, cada vez mais apertada, de cinqüenta anos, que muitas vezes o sufoca e o imobiliza. Roupa de convenções, recepções, missas fúnebres e solenidades.
A roupa, como o esqueleto externo dos crustáceos, torna os passos lentos e doloridos, turva a visão, restringe a mobilidade do menino que colhia estrelas nas noites de verão e ia beber da fonte clara da lua, em horas e mais horas alegres e incansáveis.
Sobre a veste colocaram os escombros de um sonho socialista, corroído nas suas ferragens íntimas, pela corrupção. Não satisfeita, a roupa se revestiu com armaduras eletrônicas e vidros blindados e muros altos e grades elétricas numa vã tentativa de fugir da violência.
O que antes se celebrava, a libertação em comunidades de fé, hoje se restringe ao rito, às obrigações e à prisão da culpa, do pecado e da intolerância.
Está na hora de romper a roupa e suas armaduras e deixar livre o menino para que não entreve o homem, para que lhe devolva a visão e a poesia, que retome seus passos ágeis e sua crença num mundo que vale a pena.
Está na hora do menino ensinar ao adulto a empunhar novamente as bandeiras das utopias rotas, está mais que na hora de se tentar reconstruir o ideário de uma sociedade mais justa e fraterna, e voltar a acreditar que o lucro não é Deus nem o mercado sua igreja, nem o neoliberalismo sua religião.
O homem tenta dominar o tempo colocando sobre ele roupagens e etiquetas de horas, minutos, dias e meses, anos e séculos e milênios, pura tentativa! Quanto mais tenta, mais prisioneiro fica e quem veste estas roupas é o próprio homem, e angustiado vê o tempo passando, imobilizado na sua própria armadilha, cada vez mais rápido e mais precoce. O menino, ao contrário, brinca com o tempo, como se eterno fosse, e no seu brincar liberta sonhos, música, poesia, dança e harmonia, com isso ele equilibra o mundo interior e o mundo ao seu redor, conseguindo a tão almejada paz. Da harmonia das necessidades satisfeitas nasce a paz, que é filha da justiça.
Apesar da beleza fugaz dos brilhos das festas de cada ano findo, devemos nos encantar muito mais na procura da criança interior, que jamais morre e jamais envelhece, e quando o tempo desbotar nossa roupa, ao final da nossa tarde, devemos estar de corações atentos para escutar a fala sutil de uma eterna criança: é ano novo, velho é apenas o mundo inventado.
É hora, que é apenas uma etiqueta do tempo, de voltar a pensar nas coisas da eternidade e não deixar que elas passem por nós sem que as percebamos, é hora de nos deixar inebriar pela doce fragrância da amizade verdadeira, pela força de uma religião comprometida com a justiça e a fraternidade, pela segurança da honradez, da honestidade, da sinceridade, pela emoção do por do sol, que é um poema escrito a cada fim de tarde pelo Criador, enfim, é hora de deixar se guiar pela criança do seu coração.
Um tempo sempre novo para todos os que partilham seu tempo lendo as palavras que escrevo, de coração.

Assuero Gomes




quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Natal, Epifania, Quaresma, Cinzas, Páscoa...

                                                 Milagre dos Pães e Peixes (téc. mista sobre eucatex)
                                                      Exposição de orquídeas Jardim Botânico Rio
                                                     Mural Tributo a Gaudí (SIMEPE)


Natal, Epifania, Quaresma, Cinzas, Páscoa...


O tempo da Igreja é diferente do tempo civil. Antes do Natal nos preparamos para ele através do tempo do Advento (5 semanas) que se iniciaram após a Festa de Cristo Rei (último dia do ano litúrgico, coroação de toda caminhada do povo cristão católico). Após o Natal teremos a festa de Reis (Epifania, manifestação para os povos, de Jesus). Caminhamos então 40 dias até a Páscoa (tempo da Quaresma). O 40 é um número simbólico muito forte, denota travessia, passagem, etc..São os anos que o Povo de Deus passou vagando no deserto até a Terra Prometida, são os 40 dias que Jesus jejuou no deserto se preparando para sua missão, etc.. A Páscoa é o grande momento da fé de todo povo Cristão onde se celebra a passagem de Cristo da morte para a vida. Acontece no 14 dia do mês hebraico de Nisan (mês de calendário lunar, por isso a data é variável). O carnaval tem a ver com a entrada no periodo quaresmal, onde se despediam das festas, comilanças e bebedeiras para se preparar para um período de reflexão. Tem a ver também com as saturnais dos romanos.
 
Assuero

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

As Princesas





As Princesas

Todas as meninas são princesas. Mesmo quando a vida e a sociedade lhes sugam a seiva da infância, mesmo quando as lágrimas já não choram nos seus olhos, e as suas bonecas foram perdidas no mundo dos adultos, as meninas são princesas. Quando não houve pai nem tio nem irmão, nenhum padrasto sequer, mesmo quando seus corpos estão desfigurados pela fome, ou maltrapilhos e rotos vestidos lhe cobrem pouco o corpo magro, mesmo assim são princesas.
Ao fugirem de casa, espancadas, perseguidas, adulteradas, mulheres prematuras tornadas por uma insana e cruel realidade, são princesas. Não daquelas princesas louras, eternas adormecidas à espera de alguém cavalheiresco de fala rebuscada, não daquelas princesas de sonhos de cinema, de cristal, em redomas furtivas à luz da lua, nem daquelas presentes em sortilégios de amor idealizadas pelos irremediáveis românticos. São princesas de carne e espírito. Reais.
Serão eternas princesas mesmo que a vida lhes apague da memória um dia, uma tarde talvez, em que sonharam com o amado, ou com um vestido novo, ou com a luz de uma vitrine inacessível. Um relance, um fio de lembrança que cerziu de cor uma vida rasgada e desbotada, neste momento, perdido talvez para sempre, no qual ela sonhou com o carinho de um pai que lhe carregou no colo, ou lhe ninou, chamando-a de minha princesinha, ou no dia em que lhe trouxe doce presente, ou o beijo diário de boa noite, ou uma bênção sussurrada no seu ouvido sonolento.
Os anos poderão passar, o corpo já não tão ágil, as alegrias fugidias mais escassas. A filhas com suas filhas em visitas esporádicas. A vida resolvida bem ou mal. As avós são princesas também, pois a menina que foram está dentro delas, incólumes, guardadas, como relíquias no altar da infância. Todas as mulheres são princesas. De carne e osso, de carne e sonho. De flor e flor.
São princesas agrestes aquelas do sertão cujo olhar sonha com o horizonte do mar, são princesas também, aquelas que catam siris e caranguejos no mangue e na lama sonhando com uma casa com água na torneira, um chocolate e uma cama limpa. São princesas aquelas nas quais a vida de sobrevivência as fez engavetar, mesmo em gavetas róseas de esperança, os projetos de profissões glamourosas; são princesas sutis e tristes aquelas de amores perdidos no passado, e que na solidão deserta do coração, vivem de lembranças e lembranças.
Serão princesas eternas nos corações cansados dos velhos pais, mesmo que elas se esqueçam deles algum dia.
Todas as meninas são princesas porque existe um Pai, que é o pai de todos os pais, que a tudo vê, a tudo ama ao infinito, e que tem um carinho especial pelas filhas mais frágeis. Um Pai que é como um rei que envia uma primavera para cada flor colhida antes do tempo. Todas as meninas são, portanto, filhas diletas do Rei, são princesas e o serão para sempre.

Assuero Gomes

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

As Cinco Pessoas Que Você Encontra no Céu (The Five People You Meet in Heaven)

As Cinco Pessoas Que Você Encontra no Céu (The Five People You Meet in HeavenAs Cinco Pessoas Que Você Encontra no Céu (The Five People You Meet in Heaven)



  • Eddie era um jovem que cresceu em meio a guerras, trabalho árduo e uma educação rígida. No dia em que completa 83 anos, ele sofre um acidente no parque de diversões onde trabalhou a vida inteira. Quando ele se dá por si, tudo o que ele sente é que passou uma vida sem propósito, sem rumo....E o que se sucede é uma revisitação de sua vida por 5 pessoas, umas que ele conhece, outras que ele não tinha a menor idéia de quem eram, mas cujas vidas estavam de alguma forma ligadas à dele. Cada uma dessas pessoas revê com Eddie uma passagem de sua vida, resolvendo antigos mistérios, dissolvendo antigas mágoas, revivendo antigos amores. A cada experiência fica mais claro a grande importância de Eddie na vida de milhares de pessoas sem que ele se desse conta, provando que cada vida está ligada a outra de formas que muitas vezes não entendemos.

  • Um excelente filme que aborda de maneira sutil a real perspectiva da vida que viveremos após esta vida aqui na Terra. Teologicamente é a abordagem mais correta que já vi em filme, sem nenhuma relação direta com qualquer religião. vale a pena ser visto, mais de uma vez e se possível em grupo para uma posterior discursão.
  • terça-feira, 20 de dezembro de 2011

    Os ossos do santo ofício...




    Os ossos do santo ofício...

    Essa frase muda totalmente de sentido ao dançar de uma simples vírgula. Seria: Os ossos do santo, ofício...ou ainda: Os ossos, santo ofício. Acrescentássemos alguma outra pontuação e mudássemos a ordem das palavras: Os ossos santos do ofício, ou Os santos dos ossos do ofício.
    Mas malabarismos lusófonos à parte, uma figura que nunca morreu, embora agora provavelmente nessa nossa dimensão, só nos restem os ossos, e que emerge mais vivo do que nunca das sombras de uma Igreja de catacumbas, retoma seu lugar nos sempre vivos que nunca morrem dentre os sempre mortos que nunca vivem.
    D. Helder, o Concílio Vaticano II, a trasladação do seu corpo, a Igreja de Olinda e Recife, o Vaticano, a beatificação do Dom, tantos assuntos interligados pela fé e pela institucionalização dela, que intrincados estão de tal maneira que não se pode abordar um sem tocar no outro.
    D. Helder continua vivo, pairando e inspirando ainda muitas pessoas e algumas instituições (?). Sua figura franzina se agiganta de tempos em tempos, ora é o centenário de seu nascimento, ora é o lançamento de um livro sobre sua pessoa ou seus pensamentos, ora até gente “psicografando” (o que me parece um acinte à sua memória e crença cristã), às vezes alguma ONG no exterior, milhares de artigos e textos diversos, ora é alguma instituição que ele fundou ou apoiou que aniversaria, e nestes tempos atuais se prepara o cinquentenário do Concílio Vaticano II. D. Helder vive agora participando do kairós (tempo da graça de Deus), eflúvio da eternidade sobre nosso tempo (kronos).
    É inegável a importância e a amplitude que a atuação do Dom na elaboração e no acontecimento Conciliar teve. Um articulador exímio, com uma visão de extrema sensibilidade humana e uma fé quase infantil, soube como um pescoço sutil virar a cabeça coroada (de Pedro, não de Cristo, pois essa já é voltada para o pobre) da Igreja para o olhar dos miseráveis.
    Passados 50 longos anos, o que nos teria deixado o Concílio vaticano II além da saudade? Talvez a sensação do que poderíamos ter sido e não fomos. Sabemos que a graça de Deus nos envolve, sua inspiração também, porém não nos invade, sabemos que os homens e as mulheres se movem construindo sua própria história, sabemos que suas instituições, mesmos as inspiradas, estão impregnadas com o bem e o mal inerentes à própria condição humana. Sabemos também que Cristo é o senhor da história, mas que respeita nosso tempo.
    Sabendo de tudo isso não conseguimos, no entanto, em pouco mais de uma década, manter vivos os ideais de uma pessoa que tanto amamos e admiramos. Onde está o ânimo de atualizar uma Igreja envelhecida tornando-a pobre e servidora? Onde estão os pobres de D. Helder, agora órfãos?
    Está chegando o momento de transferir-se o túmulo de D. Helder, que está no chão da Sé de Olinda. Talvez seus ossos sejam relíquias, talvez no futuro atraiam romarias peregrinas, talvez homens e mulheres gastem muito do tempo (kronos) e dinheiro para tentar uma beatificação romana, talvez se esqueçam para sempre do profeta sacerdote e suas idéias e seu coração imenso voltados para os prediletos de Deus, os paupérrimos filhos deserdados de Adão.
    Um olhar sobre a arquidiocese de Olinda e Recife, a qual ele doou seus mais gloriosos anos, gloriosos como serviço incansável e dedicação extrema, onde imolou sua saúde, seu tempo, sua vida, vemos o esforço de um bispo pastor, mas rodeado por movimentos, quase seitas, com que saídos dos calabouços do Santo Ofício: são acorrentados, quase escravizados, são devotos de línguas mortas, são fantasiados templários, são visionários de anjos e arcanjos, como se as crianças de rua que morrem à míngua não bastassem como anjos, são devotos com pedras na cabeça em estranhas romarias, são franciscos e claras medievais fantasiados de Francisco e Clara, são devotos de Maria rainha de um reino de coroas e cetros, são vozes proféticas mudas e indiferentes... às vezes sinto uma imensa compaixão por essa arquidiocese e seu arcebispo, como deverão às vezes sentir-se tão sozinhos, ou seria eu que projeto a saudade dentro de mim e me embota a inspiração?
    Onde estás, profeta, pastor e poeta, como já se não ouve mais?

    Assuero Gomes
    Médico e escritor


    domingo, 18 de dezembro de 2011

    A doce flor da Juventude

                                                                                 Bromélia


    A doce flor da Juventude

    O trigo antes de ser pão é um grão e o grão antes de ser trigo é uma flor. É a juventude do pão. O mesmo ocorre com o vinho, que antes de ser vinho foi uva, que foi flor da videira, que é a juventude do vinho.
    Para o encontro se prepara a mesa e a amada a cobre com carinho e toalhas de renda e dispõe os pratos e os copos com esmero e verifica com devoção se estão limpos, e prepara os lugares um juntinho do outro, e os guardanapos quase se entrelaçam como as mãos se entrelaçarão mais tarde.
    O amado, por sua vez, escolhe a melhor roupa, se prepara ao espelho, escuta o próprio coração pulsar, e alegre colhe uma flor que enfeitará a mesa do encontro. E as horas demorarão a passar, até o momento do encontro e os minutos correrão como eternos.
    É a juventude do amor.
    E se ele não gostar do vestido? E se ela achar o perfume muito forte? E se ele demorar-se muito? E se ela ainda não estiver pronta? E os pés do amado voam ao encontro da amada, e seus corações pulsam numa harmonia de ansiedade e alegria.
    Imaginem se ele estivesse perdido e dado como morto, desaparecido, e ela sem esperança de encontrá-lo com vida.... qual não seria a felicidade deste encontro após a notícia de que fora encontrado em plena saúde! Esta é a doce flor da juventude da vida, onde a descoberta do outro começa, onde o encontro se faz eterno como um verso precioso.
    Qual saboroso o vinho deste encontro, qual delicioso este pão partilhado entre pessoas que se amam ao infinito! É a juventude da celebração do amor.
    Quem não deixaria tudo para trás para viver um só instante deste momento de encontro?
    A refeição completa se inicia já na espera silenciosa do encontro. A música na sala, terna melodia que recorda os momentos vividos juntos e os que hão de vir. A campanhinha toca na porta, que a amada corre a abrir, e então abraça e beija o amado. E trocam encantos e palavras. E se olham e se afagam. E já não há defeitos nem falhas entre os dois, já não há o que perdoar, pois tudo é amor.
    Vão planejar o futuro, vão dar novo sentido às suas vidas. E verão na imaginação e no coração os filhos e as filhas correndo livres como o vento matinal, e brilhando como a aurora boreal no firmamento dos dois.
    É a juventude do futuro, a doce flor da juventude do futuro. Nessa visão vêem seus filhos brincando com os filhos dos amigos, num jardim onde não há ricos nem pobres, nem muros nem arames, nem mesmo espinhos nos roseirais.
    Nesta refeição se amarão. E serão poesia pura um para o outro.
    E não haverá vinho nem pão mais saboroso em todas as suas vidas, nem momento mais feliz que se almeje, como esta refeição.



    Assuero Gomes







    sábado, 17 de dezembro de 2011

    Fala sobre a infância brasileira

                                                  Lançamento do livro Infância Cidadã - Compromisso com a Esperança
                                                                                          Parque D. Lindu - Recife  em 13 de dezembro 2011


    Fala durante lançamento do livro....

    quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

    Transformando pedras em pães



    Transformando pedras em pães

    E o Senhor foi levado pelo Espírito para o deserto para ser tentado pelo diabo. Por quarenta dias e quarenta noites esteve jejuando. Depois teve fome. Então aproximando-se o tentador, disse-lhe “se és verdadeiramente o Filho de Deus, mande a estas pedras que se transformem em pães”. Mas Jesus respondeu: “Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.” (Mt 4, 1-4).
    A primeira fraqueza de qualquer ser humano vem através da fome. Por ela se subjuga, se oprime, se domina. É um direito fundamental de todo ser vivo, se alimentar, especialmente dos filhos e filhas de Deus, no entanto ainda há tanta fome entre nós!
    Pedras no caminho dos pobres há muitas, pontiagudas, íngremes, cortantes, perfurantes, enormes, intransponíveis. Há pessoas, que como demônios, as colocam mais e mais, como se fossem poucas. Outras há, no entanto, que procuram transformar o caminho dos pobres, fazendo florescer das pedras, pães.
    Por três anos Jesus andou aqui nesta terra fazendo sua missão. Hoje eu gostaria lembrar dos três anos de existência de um grupo de cristãos, que tem o dom de transformar pedras em pães e fazer a partilha multiplicando (dividindo) pães e dignidade.
    Foram nestes três anos, 196.790 refeições, algo em torno 174.069 Kg de alimentos,mais de 1360 ovos e 954 litros de leite.
    Milagres podem acontecer e acontecem, quando há o amor tecendo comunidade. Pode-se celebrar a eucaristia em gestos concretos e transformar as pedras em pães, e transformar os corações de pedra em corações de carne, vermelhos de misericórdia.
     Foram mais de 12 toneladas de feijão, mais de 10 toneladas de arroz, mais de 6 toneladas de macarrão. E farinha? Mais de 6 toneladas. Carnes de boi, galinha, charque, peixe, mais de 36 toneladas. Verduras? Mais de 19 toneladas.
    Que são números, senão uma pequena parte da realidade apresentada aos olhos do mundo? Por trás deles há uma realidade quase invisível aos olhos do mundo, é a realidade de Deus.
    Na realidade divina, o pobre tem prioridade. O sofredor tem prioridade. O doente, o preso, o sedento, o despido, o faminto, estes são a prioridade de Deus. Hoje percebemos esta realidade como se fosse num espelho ou num reflexo numa água turva ou mesmo como o avesso de um bordado. Chegará o dia em que a veremos com nossos próprios olhos, e a ouviremos com nossos próprios ouvidos, e então estaremos despidos, assim como viemos ao mundo, frente a frente ao nosso criador, nos perguntando, onde foi que o vimos com fome e não lhe demos de comer (cf. Mt 25).
    Pedras pesam. Com elas constróem-se catedrais, palácios e mansões. Pães são leves, macios, saborosos. Quem tem pão no coração dá pão. Quem tem pedra, nada dá, acumula e pesa-lhe cada vez mais.
    Agradeçamos a Deus por tantas pessoas que têm pão no coração e transformam os caminhos do pobre em melhores caminhos, e transformam sombras em luzes e afastam suas vidas do deserto.
    Pronunciar palavra que sai da boca de Deus é pronunciar toda palavra que restitui vida e dignidade aos seres humanos. Pronunciar palavra de Deus é gerar e cuidar de Vida.
    Obrigado a todos e a todas que continuam nos ajudando nesta caminhada.

    Assuero Gomes



    quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

    Infância Cidadã - Compromisso com a Esperança

    Pediatras lançam livro sobre direitos da criança

    A defesa da cidadania das crianças como perspectiva de um país menos violento e desigual no futuro. Esse é o tema do livro Infância Cidadã – compromisso com a esperança, que  lançado nesta terça-feira, às 19h, no Parque Dona Lindu, em Boa Viagem. A obra reúne artigos que tratam dos direitos das crianças e dos deveres dos pais, utilizando exemplos do cotidiano em uma linguagem simples. A iniciativa é dos médicos pediatras Assuero Gomes, 58, e Aníbal Gaudêncio, 56. No lançamento foi possível trocar 1 kg de alimento não perecível pelo livro.
    Segundo Assuero Gomes, a obra é direcionada a pais, educadores e profissionais de saúde e da Justiça. Assuntos como drogas, bullying e consciência ambiental são apresentados de maneira simples, tendo como foco a criança. “A proposta é que esse material seja discutido em comunidades, em igrejas e dentro de casa. Queremos que a sociedade se aproprie destes temas, ajudando a garantir que nossas crianças sejam no futuro verdadeiras cidadãs”, afirmou.
    A obra conta com o apoio do Sindicato dos Médicos de Pernambuco, do Conselho Regional de Medicina de Pernambuco, do Ministério Público de Pernambuco, do Juizado da Infância e da Unimed Recife, que foi responsável pela impressão dos 10 mil exemplares. Os livros serão disponibilizados gratuitamente. “É um material que queremos que seja multiplicado e que chegue a crianças e adultos das mais diversas realidades”, disse Aníbal Gaudêncio.
    Os médicos esperam que em 2012 o livro seja publicado e distribuído não só no Brasil, mas em todos os países de língua portuguesa. Os interessados em adquirir exemplares da obra poderão solicitar pelos telefones 3198-2607 e 3198-2608.
    Fonte:  Diario de Pernambuco

    segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

    Infância Cidadã - Compromisso com a Esperança

                                               Concerto de Natal da Orquestra Criança Cidadã
                                                                                Parque D. Lindu, 19h - dia 13 de dezembro
                                                    Lançamento do Livro "Infância Cidadã - Compromisso com a Esperança"


    Terça feira, dia 13 de dezembro, no Parque D. Lindu, em Boa Viagem, Recife, a Unimed Recife (Dra. Maria de LourdesC. Araújo) tem a alegria de lançar o livro "Infância Cidadã - Compromisso com a Esperança", organizado pelos pediatras, Aníbal Gaudêncio e Assuero Gomes (mais de 30 anos dedicados à pediatria).
    O livro é de distribuição gratuita, não pode ser vendido e é o trabalho de 3 anos de organização. Nele trabalhararam mais de 15 autores, dentre pediatras, juízes, promotores, odontólogos, professores, enfermeiras, psicólogos, educadores físicos, etc..
    Uma abordagem única no Brasil, onde a visão é completamente preventiva. Procura abordar tudo da criança e do adolescente, desde a gravidez até os 19 anos.
    É dedicado à Dra. Zilda Arns, que dispensa comentários.
    Nessa celebração, além do lançamento do livro, serão homenageados 12 personalidades com o troféu Zilda Arns-Unimed Recife, as quais se destacaram no serviço em prol das crianças e adolescentes do país. E ainda um belíssimo Concerto de Natal com músicas eruditas especialmente ensaiadas para a ocasião, em homenagem aos 40 anos da Unimed Recife.
    Entrada gratuita até a lotação do teatro, pedimos que tragam 1kg de alimento, que será permutado por um livro.
    Espero vocês lá.
    É nosso sonho que cada professor, pediatra, promotor e outros profissionais que se dedicam à causa da infância, tenha um livro desses na mão.

    Assuero

    domingo, 11 de dezembro de 2011

    Trilha original do filme Verão de 42

                                               Belíssima...

    Filmes que você deve assistir antes de morrer...Verão de 42





    Verão de 42

    (Summer of ´42)

    EUA - 1971
                                                                              com a belíssima Jennifer ONeill

    Aos quinze anos de idade, Hermie (Gary Grimes) vai passar as férias na praia. Durante esta viagem, ele procura respostas para suas dúvidas sobre a vida, a guerra, o amor e o sexo. Com a cabeça repleta de interrogações e sonhos, Hermie conhece uma mulher mais velha (Jennifer O´Neill) e fica apaixonado. Começa assim, uma intensa relação onde Hermie busca aprofundar seu conhecimento sobre o mundo. E ela, por sua vez, busca no jovem adolescente, o amor ausente de seu marido que partiu para a Guerra. Sobre este tema, o diretor Robert Mulligan faz uma belíssima poesia cinematográfica, relatando com sensibilidade o despertar de um jovem para o amor. A inesquecível trilha sonora, ganhadora do Oscar, composta por Michel Legrand e a bela fotografia fazem deste filme uma obra que retrata com perfeição o clima daquela época. Dentro de uma atmosfera romântica e sensível, Verão de 42 se transforma numa apaixonante história de amor, onde desejos, sonhos e descobertas se misturam em um verão mágico e inesquecível.
    Todo homem deveria assistir esse filme pelo menos duas vezes na vida: aos 16 anos e aos 40.

    sábado, 10 de dezembro de 2011

    O Mar dentro de nós

                                                                                                                         vista de João Pessoa


    O Mar dentro de nós

    A vida veio do mar, aprendemos. Na aridez dos meus olhos não percebi durante muito tempo uma verdade, que me apareceu clara e límpida como o mar pernambucano numa manhã de verão.
    Saímos, seres vivos todos que somos, do mar. Do mar primordial, onde pululavam aminoácidos no caldeirão em ebulição, junto com a água e relâmpagos cósmicos, no amanhecer da mãe terra. Tão quente sopa nutritiva, vinda do útero da Pancha Mama deu origem à vida, como partícipe do sopro (pneuma) divino.
    Saímos do mar, filhos de peixes e anfíbios, mamamos nas ancestrais matriarcas já em terra firme, porém viemos do mar. A aridez dos meus olhos não me deixou perceber, até que meu coração os abrisse em lágrimas, que na verdade nós nunca deixamos o mar. Nós o carregamos dentro de nós.
    Percebi que somos compartimentos de líquidos marinhos banhando nossos tecidos, que nada mais são que pedaços de um continente perdido, como uma Atlântida celeste, da qual a terra faz parte, já que ela é um pingo de líquido leite de luz, da Via Láctea. Aprendi com os pequenos pacientes desidratados pelas doenças sociais que os afligem que, quando o nosso mar interior se esvai, desequilibra-se nossa vida. Aprendi que lágrima é mar, suor é mar. O nosso mar verte em lágrimas, ou suor, ou saliva, ou em tantos outros fluidos corpóreos, nos grandes e pequenos momentos, alegres ou tristes, prazerosos ao extremo ou simplesmente dolorosos, nas perdas e nos ganhos, no cais de chegada e partida.
    Navegar é preciso como dizem o poeta e os navegadores, pois navegar é viver. Aprendi que podemos navegar no nosso mar, mesmo no deserto. Aprendi que é preciso carinho e cuidado com o nosso mar interior, como num desafio ecológico constante, pois dele nunca nos apartaremos totalmente, mesmo desidratados de solidão. Temos que conhecer o íntimo de nossas marés, para prevenidos, evitarmos as tempestades e podermos admirar as fases da lua, no nosso horizonte, belas e provisórias como as próprias marés, os ventos e as correntes, as estrelas, ou o nascer e o por do sol, que surgem novos a cada dia dentro e fora de nós.
    Sobreviver é preciso no mar revolto. Pescar em águas profundas a cada crise e a cada desalento. Naufragando, sobreviver. Procurar os pedaços de ilhas, unindo-as em fraternidades interiores, para que se recomponha o continente perdido.
    Carregamos o mar dentro de nós.
    Um dia a mãe terra, como toda mãe ciumenta, recolherá seus filhos ao seu útero, pensando ela nos conter e nos guardar. Não sabe, porém, que mesmo ela, pertence ao enorme oceano que é o universo. Na medida em que nos guarda, navega errante sem porto onde atracar. Carregamos o mar dentro de nós e o mar nos carrega.
    Certa vez, na adolescência, ouvi um pensamento hindu que dizia: “estando entre nós o oceano, senti tuas mãos nas minhas, e agora, tendo tuas mãos nas minhas, sinto entre nós o oceano”. Não deixemos que o nosso oceano nos afogue, nem afogue ao outro. Não deixemos nos atolar em pântanos e charcos, nem nos amedrontar com os monstros marinhos adormecidos nas nossas profundezas abissais, mas livres marujos, destemidos, olhando as estrelas e as profundezas, caminhemos por sobre as ondas, lembrando sempre, que apesar de nossa fragilidade, somos filhos e filhas do Criador dos mares todos, interiores, exteriores e celestiais. Navegantes somos, mas temos um imenso porto, tão maior que o maior dos oceanos, e nele deitaremos nossa âncora definitiva: o coração de Deus.


    Assuero Gomes







    sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

    quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

    Filmes que você não pode deixar de assistir antes de morrer:







    Filmes que você não pode deixar de assistir antes de morrer:


    1-      Casablanca
    (Casablanca, 1942)


    » Direção: Michael Curtiz
    » Roteiro: Murray Burnett, Joan Alison, Julius J. Epstein, Philip G. Epstein, Howard Koch
    » Gênero: Drama/Romance
    » Origem: Estados Unidos
    » Duração: 102 minutos

    Rick é dono de um famoso bar localizado em Casablanca, no Marrocos Francês, durante a Segunda Guerra Mundial. A cidade é rota de fuga para quem deseja evitar os nazistas, onde passes livres são vendidos por um salgado preço no mercado negro. Neste caótico ambiente, Rick encontra Ilsa, com quem tivera um amor interrompido inesperadamente há algum tempo, em Paris. Vencedor do Oscar de Melhor Filme, Diretor e Roteiro, possui ainda uma das mais belas canções já compostas para um filme, "As Time Goes By".

    Algumas coisas foram feitas com a intenção de se tentar captar a eternidade, são grandiosas e grandiloquentes, outras são repetitivas para se criar memória como nos ritos cerimoniais.
    Raríssimas alcançam a eternidade quando captam momentos efêmeros.
    Casablanca é um desses acontecimentos preciosos por sua raridade, que atingem a eternidade através de uma simples olhar apaixonado entre um homem e uma mulher e uma músiva inolvidável.
    Perceba a plenitude do eterno contida num olhar e numa melodia.

    Notar especialmente a cena do encontro de Rickk e Ilsa.


    terça-feira, 6 de dezembro de 2011

    Uma Balada para Narayama



    Fim do século XIX, em meio à pobreza e miséria que causavam guerras e emigração para terras estrangeiras, em algumas regiões do Japão, numa luta dura pela sobrevivência, instituí-se uma tradição amarga : Ao completar 70 anos de idade, os moradores dos humildes vilarejos deveriam subir ao topo da montanha local, uma região sagrada e, como elefantes velhos, deveriam esperar pela hora da própria morte, sozinhos. A partir destes elementos de extrema beleza humana, o mestre Shohei Imamura criou uma obra-prima de valor universal e foi laureada , por unanimidade, com a Palma de Ouro do Festival de Cannes


    Filme atualíssimo para uma reflexão sobre a condição dos miseráveis irmãos brasileiros que ainda comem lixo e têm seus idosos abandonados.

    Uma Balada para Narayama

    segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

    Casa de Areia




                                                                     Casa de Areia

    Construímos a casa de nossa vida sobre uma rocha sólida, ou nem tanto, sobre argila cozida ou mesmo madeira que não seja de lei. Ela está ali conosco. Pensamos que habitamos nela como uma ostra ou um caracol, mas é ela que habita em nós.
    Vem o vento, não uma tempestade, mas um vento sutil de brisa matutina e vai virando nossa casa em uma desconstrução desconcertante, mais fluída que castelos infantis na praia de nossa infância.
    Repentinamente nos damos conta que nós morávamos numa casa de areia. Areia fina que a peneira do tempo filtrou. O que era sólido volatilizou-se na penumbra de uma tarde escondida, o que era certeza nem dúvida deixou. Fosse nossa casa um barco, um barco de areia, certamente náufragos derretidos nos encontraríamos.
    Acordamos um belo dia, talvez não tão belo assim, e nosso passado tornou-se frágil, nosso chão desliza e afunda e troca de lugar como num sonho desconexo. Procuramos algo ou alguém que tenha invertido nosso espelho ou consumido nossas linhas das mãos, ou que tenha deixado nosso trem partir antes que a estação estivesse pronta...mas não há ninguém, apenas o vento. Um sopro suave, como um alento de fim de tarde, ou uma luz singela de um crepúsculo banal.
    Nossas construções se esvaem sem nos pedir licença. Nossas teias estão rompidas. Nossas redes rotas. Corremos desconcertados em busca dos grãos da terra que foram soprados, com desvario, mas não conseguimos alcançá-los, pois dispersos foram, por lábios invisíveis no seu sopro silencioso.
    Nossa casa de areia está desfeita, nossa capela vazia, nosso apelo surdo vagueia a ermo sem escuta. Onde pisar? Por onde caminhar?
    O vento que desarruma é o mesmo que reconstrói, é o mesmo que faz novas todas as coisas. O mesmo que transmuta a incerteza da escuridão em dia de sol. Na nossa limitada e poente visão não vemos o vento, muitas vezes nem o percebemos, encantados quedamos com nossas paredes sólidas, nossos cadeados de aço, nossos alicerces de sabão, nossa casca de ostra e o vento passa despercebido entre nossos cabelos e entre as artérias e veias do nosso coração.
    Misterioso vento, que é hálito de Deus e que vivifica, prenúncio de água e de florescer. Quando abrirmos as nossas janelas e nossos porões forem arejados por ele, então veremos que nossa casa de areia era na verdade uma pequena jaula, mesmo ornada, mas era uma jaula, que foi dissipada. Nossos projetos, nossas certezas, nossos hábitos contidos, serão grãos, apenas grãos, minúsculos grãos na ampulheta da vida maior.
    Resta esperarmos, vendo o doloroso desmonte de nossa casa, silenciosos, a direção para onde o vento sopra, e tentar nos alegrar, simplesmente pelo vento. Consolarmo-nos em saber que não somos donos do vento, nem da casa, nem da areia, nem do mar, nem da luz. Somos feitos deles, mas não somos seus senhores. Sobra-nos confiar que o vento nos levará para o novo, para o insondável, o incomensurável.
    Acompanhar atentos a edificação de uma nova morada, e torcer para que nela caibam todos os seres humanos, fraternos, únicos e belos na sua pluralidade e completude, imutáveis na sua dignidade de filhos e filhas de Deus, pois na casa dele há muitas moradas e todos são bem-vindos.

    Assuero Gomes



    domingo, 4 de dezembro de 2011

    A Infantilização do Pediatra






    A Infantilização do Pediatra

    Antes de falar, escutei. Antes de escrever ouvi. Partilho com vocês. Pois somos um.
    A sociedade a partir do século XIX construiu simbolicamente um mundo ideal no qual colocou a criança. Neste mundo não há dor, nem violência. A criança perdia então sua condição de adulto em miniatura e ganhava atenção especial. Neste mundo idílico, não havia trabalho infantil, nem exploração sexual, nem crianças que matavam. Não havia fome nem necessidade. Um mundo assim como num conto de fadas, com castelos e princesas, onde a bruxa seria sempre derrotada e a floresta perigosa desbaratada. Eram as crianças como anjos.
    Para proteger nossas crianças, criamos um mundo assim, e lá as colocamos. Mesmo com a desconstrução desse mundo virtual a partir do olhar da psicanálise e da sociologia moderna, a partir do século XX, temos guardado seus ideais no nosso coração e temos saudades dele. O problema que gostaria de refletir é outro, embora ligado visceralmente, como siameses, a esse: além de colocarmos nossas crianças (filhos e pacientes) nesse mundo encantado, nos colocaram lá, também, como pediatras.
    A idealização do(a) pediatra pela sociedade e por nós mesmos, enquanto sujeitos sociais, é daquele(a) indivíduo que está acima das necessidades de sobrevivência, aquele(a) que está sempre disponível, aquele(a) que é o(a) bonzinho da classe médica, que nada reclama, que a tudo suporta, que deve se contentar em ser sempre o último da equipe. Interessante que a sociedade em geral e a dos colegas médicos nos vêem como se fôssemos nossos clientes. É patognomônico, por exemplo, como os representantes da indústria farmacêutica nos tratam, desde a linguagem (quase sempre usando as formas diminutivas) até a questão de brindes, como pirulitos, balas, abaixadores de língua, balões... Nas festas da nossa especialidade, desde a decoração até os presentes, muitos são infantis, como num jardim de infância. Nas decisões em nível de grupos ou sociedades ou entidades médicas, os(a) pediatras são relegados a um último plano. Embora sejamos maioria.
    Estranho mundo este que nos enredamos.
    Nosso comportamento é também, muitas vezes infantil.
    Dividimo-nos em pequenos grupos rivais, cada um querendo mostrar um melhor desempenho ou qualificação, como filhos mimados que querem atrair a atenção do pai, numa disputa entre irmãos. Não conseguimos nos unir até mesmo para lutarmos sobre coisas comuns a todos nós, como remuneração e condições de trabalho.
    Para nós, basta um jantar em algum restaurante de luxo e alguns afagos públicos, tais como medalhas, placas e elogios. Dói ver e ouvir o discurso de alguns colegas de outras áreas ou mesmo estranhos à classe médica que estão na posição de “patrões” (notem que a raiz da palavra patrão é a mesma de pai), quando dizem estarem “sensibilizados com a pediatria, que se sentem emocionados com tudo que diz respeito à pediatria, que são o melhor grupo dentro de todo sistema, pois nunca causam problemas”, e assim por diante, lembrando aquele velho político que no dia dos professores chega às lágrimas ao lembrar com gratidão sua professorinha das primeiras letras. No entanto esse mesmo político nunca fez o menor gesto concreto para melhorar as condições de salário, de ensino, enfim da vida dos professores. Dói mais ainda ver os(a) colegas felizes, satisfeitos e conformados com seus bonequinhos de plástico na lapela da bata, agraciados com os elogios e sem questionar porque as  suas reivindicações não são atendidas.
    A tal ponto chega o nosso alheamento quando se trata de nós mesmos, que em serviços de excelência médica, tanto de ensino como de atendimento ao público, achamos normal um professor, com mestrado e doutorado e dedicação quase exclusiva, receber em torno de 2 mil reais, enquanto que, qualquer executivo em início de carreira sem ao menos um décimo da nossa responsabilidade, ganha em torno de dez mil reais. Que parâmetros são esses que usamos em nós mesmos? Nós estamos nos vendo em espelhos de crianças, como se crianças fôssemos.
    Algumas atitudes que tomamos também que são típicas do mundo infantil, é quando, por exemplo, nos rebelamos por pagar impostos oficiais, sendo nossa primeira ação a de querer sair intempestivamente das nossas sociedades ou corporações ou das cooperativas, no entanto, quando alguma instituição camufla estes impostos e mais algumas outras taxas em desconto da nossa produção, aceitamos passivamente. Uma atitude positiva e adulta seria procurar nos inteirar mais profundamente do problema e em assembléia decidirmos o melhor caminho. Lembremos sempre, que somos maioria esmagadora e portanto decisória.
    Repito, antes de falar escutei, antes de escrever li. Tudo isso acontece com todos nós em maior ou em menor grau. Somos um.
    Há, no entanto, como crescer e nos desvencilhar desse mundo fictício e cruel, porque camufla a realidade e tolhe o crescimento e o desenvolvimento. Logo a nós, que somos mestres no crescimento e desenvolvimento do ser humano.
    Reconhecer,Acolher, Organizar.
    São os três caminhos básicos para caminharmos no amadurecimento.
    O primeiro grande passo é reconhecer a situação; talvez o mais difícil, pois o olhar no espelho com espírito crítico, nos mostra muitas vezes o que não queremos ver. Desconstruir nossa imagem é um processo doloroso, embora que o reconstruir nos fortaleça de maneira gratificante. Não há ganho sem perda, especialmente no processo de crescimento. Assim como navegar é preciso, navegar em terra, que é caminhar, é preciso.
    Creio que o reconhecimento da nossa situação, apesar de doloroso e difícil, não é tão complicado, pois é tão gritante, que diria como um dos profetas: “Se eu calar, essas pedras gritarão”.
    O segundo passo, mais profundo e mais denso que o primeiro, é o acolher.
    Fomos formados no sentido de sentirmo-nos como autônomos, senhores da vida e da morte, cuja palavra é a última. Ilhas de conhecimento e sabedoria. Como que filhos(a) únicos. Cada um de nós ou cada serviço a que pertencemos, ou mesmo grupo de trabalho ou pesquisa ou ensino, se sente como ilhas de excelência. Precisamos deixar de pensar como ilhas, segundo o texto que se segue:
    Fôssemos ilhas mergulhadas no imenso oceano da vida, por mais belas e vivas que fôssemos, seríamos ilhas apenas. Em nossa porção de terra nascessem as mais raras flores de perfumes inigualáveis, e as beijassem as borboletas e os pássaros, seríamos ainda assim, pequenas ilhas.
    Conseguíssemos galgar com o nosso trabalho, os mais altos postos, como nas montanhas dessa ilha, ou mesmo construir palácios e templos com nosso esforço individual, ou mesmo decifrar as letras de antigos documentos, ou penetrar no conhecimento de todas as matérias, com o nosso estudo solitário, mesmo assim seríamos como ilhas.
    Existisse um meio de, isolando-nos do mundo, elevar nossa capacidade de trabalho a perto do infinito, ou mesmo nosso estudo nos tornasse cultos ao extremo, seríamos apenas ilhas, perdidas no imenso oceano, que é a vida.
    Fôssemos poços ou lagos profundos onde habitasse quase toda espécie de vida, jamais seríamos fonte, jamais nos encantaria o mar. No entanto, unidos, seremos rios, correntes, cascatas, cachoeiras, continentes, seremos mar, veremos a Deus, porque, na verdade última das coisas do universo, todos dependem de todos.
    Acolher cada pediatra como a um irmão ou irmã querida, que estava ausente e que agora retorna à casa. Precisamos nos acolher e nos cuidar um do outro.
    Chegássemos nós a essa etapa da estrada, nosso percurso estaria quase findo. O horizonte estaria ali à nossa mão, como um fruto maduro à espera da colheita. Restaria apenas o organizar.
    Organizar é ter o dom de se tornar um, na riqueza da pluralidade. Cada qual com seus milhares de dons e suas fraquezas, sua liberdade, sua voz, seu sentir, respeitados fraternalmente, buscando o bem comum. Aí então teríamos nos tornado adultos(a), sem perder a ternura das crianças.
    Gostaria de terminar, se é que se termina algum dia, com a lembrança de uma parábola chinesa que li certa vez transcrita no livro de um  amigo, Frei Carlos Mesters:
    Levado o peregrino a conhecer o inferno, ele viu um enorme monte de arroz, cozido, branquinho, saboroso, e ao redor dele muitas pessoas famintas sentadas tentando comer com os palitinhos que os orientais usam para comer (hashi) e não conseguiam, pois eles eram muito compridos e ao tentarem levar o arroz à boca ele caía. Logo em seguida o mesmo peregrino foi levado ao paraíso.
    No paraíso havia também o monte de arroz, com uma multidão sentada, se alimentando tranqüilamente, com os mesmos hashi. A diferença era que um levava a comida à boca do outro.

    Assuero Gomes.
       

     


    sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

    Hipócrates maltrapilho, e amordaçado



    Hipócrates maltrapilho, e amordaçado

    A situação dos médicos está insustentável. Salvo as exceções dos super-especialistas que se dedicam à tecnologia de ponta, a imensa maioria sobrevive à custa de míseros salários públicos, com uma sobrecarga desumana, recebendo sobre si injustamente toda a revolta da população usuária de um sistema único de saúde falido, e aqueles colegas que se aventuram a manter um consultório que tem o nome fantasia de “particular” sofrem uma terrível carga tributária, além de onerosas taxas e impostos e contribuições obrigatórias para o exercício da profissão, para receber consultas defasadas a preços irrisórios de planos de saúde, quase sempre meses depois de terem sido realizadas, e ainda com as famigeradas glosas.
    O maior sintoma desta situação é a falta de médicos em algumas especialidades vitais, tais como a pediatria. A situação está tão ruim que muitos profissionais que ingressam em serviço público através de concurso, desistem do emprego. Faltam também profissionais para plantões até na rede privada.
    Agravando tudo isso, se inaugura uma nova faculdade de medicina em cada esquina, e ainda se quer abrir este combalido mercado de trabalho a médicos cubanos sem a devida validação de seus diplomas de origem.
    Basta!
    Houve um tempo, não muito distante, em que os discípulos de Hipócrates faziam ouvir sua voz, gerando respeito e produzindo dignidade para a classe. Além da nossa proletarização, temos que ter cuidado com uma nova ordem (desordem) de advogados de porta de cadeia (digo de hospitais), a serviço do lucro sobre a desgraça alheia, que como abutres sobrevoam as feridas do sistema, para abocanhar dinheiro dos infortúnios de uma situação insustentável. Repito, a sobrecarga de trabalho desumana, fazendo com que colegas trabalhem em vários plantões na semana ou atendam em vários serviços, sem descanso nem tempo para estudar continuamente, fatalmente gerará situações de risco para o paciente e para o médico.
    Basta!
    Expostos à mídia diariamente, colegas há que se dedicam a minorar o sofrimento dos pacientes, chegando ao cúmulo de atenderem mais de cem pessoas por dia em locais sem condições nenhuma. Pacientes internados recebendo medicação venosa em cadeiras por falta de leitos. Hospitais fechando. Planos de saúde se expandindo à custa do nosso sacrifício e de uma propaganda enganosa junto a uma população carente (se não assassinasse nossa amada língua pátria, ousaria dizer “carentíssima”) que procura desesperada uma assistência médica digna da condição humana.
    Basta!
    Vejo o médico, a médica, como Hipócrates. Atualmente não como um Hipócrates que tinha todo o tempo do mundo para ouvir e escutar seus pacientes, um Hipócrates que não se necessitava se preocupar como se sustentar nem a seus filhos, nem com as contas a pagar no final do mês. Vejo-nos hoje como um Hipócrates que se tornou um Lázaro. Os dois Lázaros, o da parábola, maltrapilho, que chegava a pedir as migalhas do rico para comer embaixo de sua mesa e o outro, amigo particular de Jesus, que estava enfaixado e amordaçado, no túmulo em Betânia, morto, ao qual o Senhor disse: “Vem!”. Retirem suas faixas para que se levante e ande com as próprias pernas.
    Está na hora de nos levantar. Está na hora de sairmos do túmulo que o sistema nos preparou e nos colocou. Acordem as lideranças! Façam ouvir a voz de uma das classes mais dignas deste país, cujo reconhecimento da população é nosso maior aval. Basta de exploração do trabalho médico e de um sistema de saúde inacessível à população. Basta de palavras e discursos, que por mais belos que sejam, já saturam nossa paciência e esmorecem nossa esperança.

    Assuero Gomes



    quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

    Quem cuidará de Pedrinho?


    Quem cuidará de Pedrinho?

    Dia 27 de julho, comemoramos o dia do pediatra, a cada ano. Uma reflexão sobre o mundo deste profissional, suas crianças e os pais delas, antes que elas naveguem para sempre no mundo dos adultos, antes que as famílias, como as concebemos, se dissolvam no torvelinho da vida moderna, antes que se forem os avós e já não existam mais avós.
    Com os casais se separando prematuramente, se é que se há tempo maduro para se separar, os filhos estão sendo criados pelos avós. Os casais, que sem vocação alguma para o matrimônio, geram filhos e os colocam no mundo, numa visão egocêntrica, nada mais suportam, nada mais relevam em favor do bem comum da vida do casal, nada mais perdoam um do outro, sempre, sempre estão se separando para tentarem novas aventuras, com novos parceiros, e seus filhos deixam aos cuidados dos avós, que depois de toda uma vida dedicada a cuidar dos filhos, passam a cuidar dos netos. Essa geração ainda tem avós. Temo o que será para os filhos desses filhos, que terão as suas referências familiares mais fragmentadas ainda. Não mais sentarão às mesas aos domingos junto às suas famílias, primos e tios serão estranhos, e os avós que terão as suas partidas precoces como pais de duas gerações. Quem cuidará de Pedrinho?
    Um dos grandes referenciais para as crianças, além de seus pais e avós, somos nós, seus pediatras. Arredios no início, desenvolvem conosco um relacionamento de confiança e admiração, chegando a pedir, ao menor contratempo ou arranhão, que os levem até nós. Não é à toa que a grande aspiração profissional das crianças, durante uma das fases de sua vida, é ser médico e ser pediatra, igual “ao tio”.
    Um fenômeno triste e também desagregador para as referências pessoais formativas das crianças, é a falta de interesse dos jovens médicos por esta especialidade e muito menos em manter um consultório privado. As causas são óbvias e cruéis.
    Dentre as especialidades médicas, a de menor remuneração é sem dúvida alguma a pediatria. Acresce-se a isso, a infame carga tributária para se manter um consultório, as enormes despesas com aluguel, energia, telefone, funcionários, obrigações sociais, condomínio. Os convênios com seu mísero valor de consulta, e ainda a ANS exigindo mudança de formulários, papéis e mais papéis, burocracia sem fim, onerando mais ainda nossa atividade. Querem taxar nossas balanças de pesar crianças como se de mercadoria de supermercado ou feira livre fossem. Exigem agora que compremos computador, com softwares caros, impressoras e demais acessórios além de termos de qualificar em informática nossas funcionárias, tudo para se obter um opressivo controle sobre nós e nossos pacientes, e para facilitar a vida das operadoras de saúde e do fisco.
    A maioria dos colegas está fechando seus consultórios, muitos indo trabalhar em ambulatórios no serviço público e outros em plantões de hospitais. Está chegando ao fim o pediatra que acompanhava Pedrinho desde seus primeiros dias neste mundo de Deus, na sala de parto, seu primeiro choro, suas primeiras quedas, suas primeiras lágrimas, seu primeiro sorriso, a preparação para seu primeiro dia de aula, suas gripes e peculiaridades, seus primeiros dentes, o início de sua puberdade, que o aconselhava, que o tinha como a um filho. Hoje ele é atendido por “estranhos” de plantão em plantão.
    Pedrinho está sem referências. Seus pais já não se falam. O pai está noutro estado com uma nova mulher e outros filhos. Sua mãe trabalhando em dois empregos e fazendo um curso à noite. Pedrinho passa o dia na escola, à noite, sonolento o levam para casa onde uma babá o espera para pô-lo na cama. Seu pediatra fechou o consultório. Quem cuidará de Pedrinho?

    Assuero Gomes

    quarta-feira, 30 de novembro de 2011

    Dois filmes que você deve assistir antes de morrer...





    O Nascimento de uma Nação (em inglês: The Birth of a Nation) é um filme mudo estadunidense de 1915 co-escrito, co-produzido e dirigido por D. W. Griffith, baseado no romance e na peça The Clansman, ambas de Thomas Dixon, Jr. Lançado em 8 de fevereiro de 1915, o filme era originalmente apresentado em duas partes, separadas por um intervalo.
    O filme relata as vidas de duas famílias durante a Guerra de Secessão e a subsequente Reconstrução dos Estados Unidos – os Stonemans, nortistas pró-União e os Camerons, sulistas pró-Confederação. O assassinato de Abraham Lincoln por John Wilkes Booth é dramatizado no filme.
    O filme foi um enorme sucesso comercial, mas foi altamente criticado por retratar os afro-americanos (interpretados por atores brancos com as caras pintadas de negro) como ininteligentes e sexualmente agressivos em relação às mulheres brancas, e também por apresentar a Ku Klux Klan (cuja fundação original é dramatizada) como uma força heróica.[1][2] Os protestos contra O Nascimento de uma Nação foram generalizados[3] e o filme acabou sendo banido de várias cidades. A queixa de que se tratava de um filme racista foi tão grande que inspirou D. W. Griffith a produzir Intolerância no ano seguinte.[4]
    O filme é creditado como um dos eventos responsáveis pelo ressurgimento da Ku Klux Klan em Stone Mountain, Geórgia no mesmo ano em que foi lançado. O Nascimento de uma Nação foi usado pela Ku Klux Klan como ferramenta de recrutamento até meados da década de 1970.[5]
    O Nascimento de uma Nação foi o primeiro filme a ser exibido na Casa Branca. O presidente Woodrow Wilson teria dito que o filme é "a história escrita em relâmpagos. E meu único lamento é que é tudo tão terrivelmente verdade". A veracidade da afirmação é, no entanto, contestada.
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    Dogville


    Sinopse
    Anos 30, Dogville, um lugarejo nas Montanhas Rochosas. Grace (Nicole Kidman), uma bela desconhecida, aparece no lugar ao tentar fugir de gângsters. Com o apoio de Tom Edison (Paul Bettany), o auto-designado porta-voz da pequena comunidade, Grace é escondida pela pequena cidade e, em troca, trabalhará para eles. Fica acertado que após duas semanas ocorrerá uma votação para decidir se ela fica. Após este "período de testes" Grace é aprovada por unanimidade, mas quando a procura por ela se intensifica os moradores exigem algo mais em troca do risco de escondê-la. É quando ela descobre de modo duro que nesta cidade a bondade é algo bem relativo, pois Dogville começa a mostrar seus dentes. No entanto Grace carrega um segredo, que pode ser muito perigoso para a cidade.
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    Comentário: Esses dois filmes são o retrato, a psicoanálise, a tomografia, a endoscopia e a retossigmoidoscopia da alma americana. O primeiro tem uma cena de eugenia explícita quando um médico (cena real) deixa um recém-nascido morrer porque nasce com alguma deficiência e o segundo, Dogville, deve ser assistido antes de Manderley (do mesmo autor) que o completa.

    Assuero