segunda-feira, 31 de outubro de 2011

...sobre a verdadeira oração, agradável a Deus.



 
Reflexão para jovens, sobre a verdadeira oração, agradável a Deus.


A Verdadeira oração


30 Jesus respondeu: "Um homem ia descendo de Jerusalém
para Jericó, e caiu nas mãos de assaltantes, que lhe arrancaram
tudo, e o espancaram. Depois foram embora, e o deixaram quase
morto.  31 Por acaso um sacerdote estava descendo por aquele
caminho; quando viu o homem, passou adiante, pelo outro lado.
32 O mesmo aconteceu com um levita: chegou ao lugar, viu, e
passou adiante, pelo outro lado.  33 Mas um samaritano, que
estava viajando, chegou perto dele, viu, e teve compaixão.
34 Aproximou-se dele e fez curativos, derramando óleo e
vinho nas feridas. Depois colocou o homem em seu próprio
animal, e o levou a uma pensão, onde cuidou dele.  35 No dia
seguinte, pegou duas moedas de prata, e as entregou ao dono da
pensão, recomendando: 'Tome conta dele. Quando eu voltar, vou
pagar o que ele tiver gasto a mais'." E Jesus perguntou:  36 "Na sua
opinião, qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos
dos assaltantes?"  37 O especialista em leis respondeu: "Aquele
que praticou misericórdia para com ele." Então Jesus lhe disse:
"Vá, e faça a mesma coisa."

                                                                                                                     Lc 10, 30-37
    











A oração em Jesus é sempre seguida de uma ação concreta para uma mudança radical na vida do outro e da sociedade. Jamais Jesus orou para que a situação continuasse a mesma. Jamais orou de maneira que chamasse a atenção para si ou, de maneira com que os outros o admirassem pela sua capacidade de orar.
Foi sempre discreto e costumava retirar-se para um lugar tranqüilo. Preferia a oração solitária. Ensinou a seus seguidores, que se dois deles estivessem de acordo sobre um pedido, este pedido seria atendido, e se três deles estivessem falando sobre Jesus, o próprio Jesus estaria entre eles. É a síntese da oração comunitária.
Jesus nos ensina a pedir para a comunidade, em comunidade. Ensina também a sermos perseverantes na oração, e quando aparentemente não conseguimos ter nosso pedido atendido, devemos buscar na nossa consciência se o que estamos pedindo é o melhor para nós ou para nossa comunidade.
Os amigos seguidores de Jesus pediram para que ele os ensinasse a orar. Então Jesus falou assim: Pai nosso que estás nos céus (Deus é Pai e é infinitamente maior que tudo e todos, no entanto ele se preocupa até com os lírios que nascem no campo ou mesmo com o que os pardais vão comer), e continua: santificado seja o vosso nome (santificar o nome de alguém é fazer com que sua presença seja amada e respeitada por todos e todas. O nome representa a própria pessoa. O nome do Pai é santificado quando os filhos e as filhas estão felizes, com saúde, saciados, se desenvolvendo em plenitude); venha a nós o vosso Reino ( o reino do Pai é aquele onde nãodiscriminação de ninguém, todos são tratados igualmente, as diferenças são respeitadas, todos têm tudo e têm em abundância), seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu ( a vontade de Deus é clara, há mais de 5000 anos Ele vem manifestando sua vontade através do Povo de Deus, dos profetas e finalmente através do próprio filho Jesus e de seus amigos seguidores. Jesus pede que a vontade do pai seja feita aqui na terra assim como ela é feita no céu); o pão nosso de cada dia nos dai hoje          ( neste pedido Jesus nos ensina a repartir o pão e não acumular os bens. (O pão de cada dia deve ser repartido para que não haja famintos nem necessitados entre nós); perdoai nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido (é a reciprocidade. Você pode dar aquilo que tem. Você pode receber daquilo que dá. O perdão deve ser celebrado quando os dois se perdoarem mutuamente e quiserem ser perdoados. Assim o pai perdoa). Não nos deixeis cair em tentação (a tentação de ceder aos projetos do mundo, que são o contrário do projeto do pai. No mundo nós somos tentados a consumir, a acumular, a se auto glorificar, a disputar, a competir, a se isolar) mas livrai-nos do mal ( o maligno é todo aquele que quer implantar o reino do mundo em detrimento ao Reino do pai. Porém nãoninguém mais poderoso que o próprio Jesus. Sua ação no mundo levará com certeza a implantação definitiva do reino, que começou há 2000 anos e depende de nós para sua conclusão).
Por tudo isso e muito mais, Jesus é o modelo de perfeito de oração. Ele não se apresenta como um monge asceta que se retira do convívio social para se isolar e viver em contemplação, também não impões regras difíceis de oração nem fórmulas complicadas, nem teorias secretas, nem impõe ritos nem templos especiais. Jesus é um homem simples que come e bebe com pecadores, entra na casa de qualquer um, não faz distinção de pessoas, e valoriza o sentimento que está no seu coração e a ação concreta que você faz pelo mais necessitado. Esta é a verdadeira oração. É a oração de Jesus.
    













Jesus respondeu: "Um homem ia descendo de Jerusalém
para Jericó, e caiu nas mãos de assaltantes, que lhe arrancaram
tudo, e o espancaram. Depois foram embora, e o deixaram quase
morto.
A violência é uma realidade ontem e hoje. Ela é o fruto da desigualdade social. Ninguém está seguro. haverá paz quando todos tiverem alimentação, saúde e educação. No futuro não haverá mais violência se nós conseguirmos implantar definitivamente a justiça.
 31 Por acaso um sacerdote estava descendo por aquele
caminho; quando viu o homem, passou adiante, pelo outro lado.
O sacerdote vem de Jerusalém. Jerusalém é a cidade do templo. Do magnífico templo. O sacerdote faz suas orações diárias . Certamente ele acabara de falar com Deus.
32 O mesmo aconteceu com um levita: chegou ao lugar, viu, e
passou adiante, pelo outro lado. 
O levita é um doutor da lei. Ele estuda a palavra de Deus diariamente. Ele é um teólogo. Ele também faz parte da religião oficial. Ele também vem de Jerusalém, a cidade do templo.
33 Mas um samaritano, que
estava viajando, chegou perto dele, viu, e teve compaixão.
O samaritano é tido como um sujeito inferior, pois ele não pertence à religião oficial. Ele não tem um templo. Ele é um excluído da vida social de Jerusalém. Ele não faz as orações obrigatórias nem faz os rituais sagrados que os sacerdotes mandam nem participa das festas religiosas.
No entanto o samaritano teve compaixão, isto é, sentiu como seu, o sofrimento do outro.
34 Aproximou-se dele e fez curativos, derramando óleo e
vinho nas feridas. Depois colocou o homem em seu próprio
animal, e o levou a uma pensão, onde cuidou dele.
O samaritano cuidou do homem caído. Não ficou apenas sentindo , nem sequer fez uma oração por ele. O samaritano agiu. Fez um gesto concreto em favor da vida. Dispôs de seus bens para atender um estranho que estava à beira do caminho.
 35 No dia seguinte, pegou duas moedas de prata, e as entregou ao dono da
pensão, recomendando: 'Tome conta dele. Quando eu voltar, vou
pagar o que ele tiver gasto a mais'."
O samaritano partilhou o seu dinheiro, o seu tempo e a sua atenção para salvar a vida. Comprometeu-se com o próximo. Criou laços de amizade. Responsabilizou-se por aquele desconhecido que nada podia oferecer em troca.
E Jesus perguntou:  36 "Na sua
opinião, qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos
dos assaltantes?" 
Jesus nos pergunta: e você?
37 O especialista em leis respondeu: "Aquele que praticou misericórdia para com ele."
 Jesus nos envia!
Então Jesus lhe disse:
"Vá, e faça a mesma coisa."


Seres humanos


Seres humanos são tratados de maneira pior que cavalos e cachorros de estimação. Num país pobre da África? Não, na oitava economia do mundo. Num país ateu? Não, no maior país cristão do mundo. E o cinto de segurança? Ou seria Sinto seguranaça?

sábado, 29 de outubro de 2011

Discurso feito pelo Chefe Seattle ao Presidente Franklin Pierce em 1854

Esta obra prima de sensibilidade e de profetismo ambiental merece ser sempre lida, refletida e divulgada por todas as gerações.








Discurso feito pelo Chefe Seattle ao Presidente Franklin Pierce em 1854
(depois do Governo Americano ter dado a entender que desejava adquirir o Território da Tribo).

O grande chefe de Washington mandou dizer que desejava comprar a nossa terra, o grande chefe assegurou-nos também de sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não precisa de nossa amizade.
Vamos, porém, pensar em sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará nossa terra. O grande chefe de Washington pode confiar no que o Chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na alteração das estações do ano.
Minha palavra é como as estrelas - elas não empalidecem.
Como podes comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia nos é estranha. Se não somos donos da pureza do ar ou do resplendor da água, como então podes comprá-los? Cada torrão desta terra é sagrado para meu povo, cada folha reluzente de pinheiro, cada praia arenosa, cada véu de neblina na floresta escura, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados nas tradições e na consciência do meu povo. A seiva que circula nas árvores carrega consigo as recordações do homem vermelho.
O homem branco esquece a sua terra natal, quando - depois de morto - vai vagar por entre as estrelas. Os nossos mortos nunca esquecem esta formosa terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia - são nossos irmãos. As cristas rochosas, os sumos da campina, o calor que emana do corpo de um mustang, e o homem - todos pertecem à mesma família.
Portanto, quando o grande chefe de Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, ele exige muito de nós. O grande chefe manda dizer que irá reservar para nós um lugar em que possamos viver confortavelmente. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto, vamos considerar a tua oferta de comprar nossa terra. Mas não vai ser fácil, porque esta terra é para nós sagrada.
Esta água brilhante que corre nos rios e regatos não é apenas água, mas sim o sangue de nossos ancestrais. Se te vendermos a terra, terás de te lembrar que ela é sagrada e terás de ensinar a teus filhos que é sagrada e que cada reflexo espectral na água límpida dos lagos conta os eventos e as recordações da vida de meu povo. O rumorejar d'água é a voz do pai de meu pai. Os riois são nossos irmãos, eles apagam nossa sede. Os rios transportam nossas canoas e alimentam nossos filhos. Se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar e ensinar a teus filhos que os rios são irmãos nossos e teus, e terás de dispensar aos rios a afabilidade que darias a um irmão.Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um lote de terra é igual a outro, porque ele é um forasteiro que chega na calada da noite e tira da terra tudo o que necessita. A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga, e depois de a conquistar, ele vai embora, deixa para trás os túmulos de seus antepassados, e nem se importa. Arrebata a terra das mãos de seus filhos e não se importa. Ficam esquecidos a sepultura de seu pai e o direito de seus filhos à herança. Ele trata sua mãe - a terra - e seu irmão - o céu - como coisas que podem ser compradas, saqueadas, vendidas como ovelha ou miçanga cintilante. Sua voracidade arruinará a terra, deixando para trás apenas um deserto.
Não sei. Nossos modos diferem dos teus. A vista de tuas cidades causa tormento aos olhos do homem vermelho. Mas talvez isto seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que de nada entende.
Não há sequer um lugar calmo nas cidades do homem branco. Não há lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o tinir das assa de um inseto. Mas talvez assim seja por ser eu um selvagem que nada compreende; o barulho parece apenas insultar os ouvidos. E que vida é aquela se um homem não pode ouvir a voz solitária do curiango ou, de noite, a conversa dos sapos em volta de um brejo? Sou um homem vermelho e nada compreendo. O índio prefere o suave sussurro do vento a sobrevoar a superfície de uma lagoa e o cheiro do próprio vento, purificado por uma chuva do meio-dia, ou rescendendo a pinheiro.
O ar é precioso para o homem vermelho, porque todas as criaturas respiram em comum - os animais, as árvores, o homem.
O homem branco parece não perceber o ar que respira. Como um moribundo em prolongada agonia, ele é insensivel ao ar fétido. Mas se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar reparte seu espírito com toda a vida que ele sustenta. O vento que deu ao nosso bisavô o seu primeiro sopro de vida, também recebe o seu último suspiro. E se te vendermos nossa terra, deverás mantê-la reservada, feita santuário, como um lugar em que o próprio homem branco possa ir saborear o vento, adoçado com a fragância das flores campestres.
Assim pois, vamos considerar tua oferta para comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, farei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como se fossem seus irmãos.
Sou um selvagem e desconheço que possa ser de outro jeito. Tenho visto milhares de bisões apodrecendo na pradaria, abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem em movimento. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais importante do que o bisão que (nós - os índios ) matamos apenas para o sustento de nossa vida.
O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Porque tudo quanto acontece aos animais, logo acontece ao homem. Tudo está relacionado entre si.
Deves ensinar a teus filhos que o chão debaixo de seus pés são as cinzas de nossos antepassados; para que tenham respeito ao país, conta a teus filhos que a riqueza da terra são as vidas da parentela nossa. Ensina a teus filhos o que temos ensinado aos nossos: que a terra é nossa mãe. Tudo quanto fere a terra - fere os filhos da terra. Se os homens cospem no chão, cospem sobre eles próprios.
De uma coisa sabemos. A terra não pertence, ao homem: é o homem que pertence à terra, disso temos certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto agride a terra, agride os filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio fará.
Os nossos filhos viram seus pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio, envenenando seu corpo com alimentos adoçicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias - eles não são muitos. Mais algumas horas, mesmos uns invernos, e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nesta terra ou que têm vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar, sobre os túmulos um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.
Nem o homem branco, cujo Deus com ele passeia e conversa como amigo para amigo, pode ser isento do destino comum. Poderíamos ser irmãos, apesar de tudo. Vamos ver, de uma coisa sabemos que o homem branco venha, talvez, um dia descobrir: nosso Deus é o mesmo Deus. Talvez julgues, agora, que o podes possuir do mesmo jeito como desejas possuir nossa terra; mas não podes. Ele é Deus da humanidade inteira e é igual sua piedade para com o homem vermelho e o homem branco. Esta terra é querida por ele, e causar dano à terra é cumular de desprezo o seu criador. Os brancos também vão acabar; talvez mais cedo do que todas as outras raças. Continuas poluindo a tua cama e hás de morrer uma noite, sufocado em teus próprios desejos.
Porém, ao perecerem, vocês brilharão com fulgor, abrasados, pela força de Deus que os trouxe a este país e, por algum desígnio especial, lhes deu o domínio sobre esta terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é para nós um mistério, pois não podemos imaginar como será, quando todos os bisões forem massacrados, os cavalos bravios domados, as brenhas das florestas carregadas de odor de muita gente e a vista das velhas colinas empanada por fios que falam. Onde ficará o emaranhado da mata? Terá acabado. Onde estará a águia? Irá acabar. Restará dar adeus à andorinha e à caça; será o fim da vida e o começo da luta para sobreviver.
Compreenderíamos, talvez, se conhecêssemos com que sonha o homem branco, se soubéssemos quais as esperanças que transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais as visões do futuro que oferece às suas mentes para que possam formar desejos para o dia de amanhã. Somos, porém, selvagens. Os sonhos do homem branco são para nós ocultos, e por serem ocultos, temos de escolher nosso próprio caminho. Se consentirmos, será para garantir as reservas que nos prometestes. Lá, talvez, possamos viver o nossos últimos dias conforme desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará vivendo nestas floresta e praias, porque nós a amamos como ama um recém-nascido o bater do coração de sua mãe.
Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Proteje-a como nós a protegíamos. "Nunca esqueças de como era esta terra quando dela tomaste posse": E com toda a tua força o teu poder e todo o teu coração - conserva-a para teus filhos e ama-a como Deus nos ama a todos. De uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus, esta terra é por ele amada. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum.


sexta-feira, 28 de outubro de 2011

De barro e de luz...

De barro e de luz


Somos feitos de barro. Argila misturada de impurezas e de finitude. Barro moldável com grãos de pedras duras, duras pedras no seu interior. Somos pó e água. Das cavernas às galáxias, somos pó, areia, terra. O que nos torna sermos, são as mãos do Oleiro. Misteriosas mãos, luminosas e infinitas mãos, que ao nos moldar, deixam pingos de luz no meio do barro... imperfeito barro, respingado de luz.
Não somos luz, apenas refletimos a luz do Oleiro, que a deixou em nós. Sua luz. E na nossa opacidade, a escuridão pode ser subvertida na medida em que iluminamos o mundo ao nosso redor, com a luz do Oleiro.
Somos sombra, frágil vasilhame de argila cozida nas intempéries da vida, na provação do cadinho misterioso que nos purifica, mesmo sem sabermos de onde vem o fogo que nos abrasa e nos queima. Vasilhame de luz, feito para iluminar a escuridão do mundo e decompor as trevas, para que todos vejam.
Corpos decompostos em miséria, são pedaços do mesmo vasilhame de que somos feitos. Irmãos de fragilidade e de luz. Vasos magros, macérrimos até, de fome e dor e descaso, à procura de luz entre os irmãos e luz não encontra, pois quem deveria alumiar está cego, perdido na escuridão do ter. Negando o ser, à procura do ter, seguem por entre escombros de cacos partidos.
Sofre o Oleiro, que dotou o barro de grãos de liberdade e livre arbítrio, e agora espera a recomposição da consistência. Sofre o Oleiro, que no seu amor louco, deixou grãos de poesia pura, para perfumar a terra da argila, e agora não escuta a canção do perdão. Sofre o Oleiro que do mesmo brilho dos astros retirou claridade para dar ao barro, banhando-o de misericórdia, e agora não colhe ternura, apenas discórdia e murmúrios.
De barro e de luz somos criados, de poesia e lamento, de movimento e contemplação. Somos uma oração em meio a blasfêmias, somos o espaço que separa a lâmina da pele e a pena do papel. De barro e de luz, de gozo e de dor, vagueamos como cegos no infinito, buscando a luz, quando a luz está bem dentro de nós. Acendemos tochas e candeias, incendiamos cidades e morros, explodimos nações e permanecemos nus, na escuridão, cada vez mais densa. Construímos imagens e as rasgamos sem mesmo vê-las. Montanhas escalamos a procura dEle e não vemos quem está caído ao nosso chão.
Vasos, frágeis vasos, peregrinos vasos, mergulhados na imensidão do mar como mensagens náufragas, à espera de que mãos radiantes de aurora, os recolham. Amados vasos, misteriosamente amados, na sua infinita fragilidade, que serão, um dia, recolhidos com carinho, pelo Oleiro, apesar de rotos, rompidos, desgastados, quebrados, apesar de estarem já opacos, ranhurados, fendidos, mutilados, apesar de serem de barro e por serem de barro, serão recolhidos, um a um.  
Restaurados, então, ganharão a cor da luz, como quem se veste para as núpcias. E não haverá mais noite, nem frio nem rompimentos; restará somente a doce transformação de ser luz, na sua original individualidade, permeando a própria Luz.

Assuero Gomes


quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A fera de cada um


Somente quando aprendermos a domesticar a fera que habita em cada um de nós poderemos chamar o outro de irmão. Muitas vezes essa fera nos permite sobreviver, mas com certeza é ela que nos faz morrer.

Assuero.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Quem prepara a mesa?







Quem prepara a mesa?

Quem prepara mesa do banquete real? Da festa do embaixador? Da presidenta e sua comitiva? Quem limpa o chão e o carpete? Quem espana os móveis e arruma as cadeiras? Quem lavou a toalha de fino linho e seus guardanapos? Quem polirá os metais nesta noite tão linda? Quem despertou ainda de noite e saiu para levar a galinha, o porco, os ovos para vender na feira para ser comprado pelo mercado e ser vendido aos compradores do palácio? Quem suou e rezou de sol a sol para que chovesse um pouco na hora certa para que o trigo brotasse e a alface não perecesse e a tomate lhe rendesse alguns centavos por quilos?
Quem ceifou o trigo na hora certa e colheu as uvas? Quem foi a Babette e o Vatel na hora palaciana enquanto seus próprios filhos choravam de fome e de abandono?
Tantas perguntas não feitas entre a degustação de vinhos finos harmonizados e entre queijos de deliciosos matizes que jamais serão experimentados por quem realmente os fez. Para que perguntas se a noite está tão galante e o cerimonial impecável?
Quem prepara a mesa do Cardeal e sua toalha carmim e seus punhos brocados? Quem poliu seus talheres de prata? Quem varreu o templo do pastor e limpou seu chão até sangrar os joelhos?
Quem iluminou o salão e abriu a porta principal com um gesto curvo? Quem ficará depois recolhendo o lixo do luxo até cair exausto, para pegar duas conduções até seu casebre? Talvez consiga burlar a vigilância feita por um igual seu e leve algum pedaço de bolo mordido para a filha.
Quem cuida de todas as refeições do mundo de maneira silenciosa e servil para que o alimento chegue à mesa do senhor e da senhora, mesmo que seja desperdiçado. Quem transforma o arado em garfo e em arado de novo e em garfo numa eterna e fatigante jornada invisível? Quem recolherá o desperdício de cada mesa, de cada transporte, de cada safra, de cada manada? Quem paga a conta de quem se alimenta de lixo na terra que mana leite e mel?
A noite continua dançante ao som de uma valsa vienense ou de uma banda de jazz dos anos 40, quem notou a vida do garçom ou da copeira? Senão apenas as notas da canção e a agilidade da bela moça de decote vermelho que pulsa roubando a atenção de quantos se veem cegos no salão como num perfume de mulher.
Quem prepara a mesa é o mesmo que paga a conta, sem ser convidado para o banquete, como um fantasma que ronda a Europa na festa do baile da ilha fiscal.
Lá fora, muito do lado de fora, longe mesmo, lá onde não se ouve a música nem os gemidos de prazer dos comensais da festa, um estranho de cabelos longos e barba crespa, olhos sofridos de esperar e pés empoeirados de caminhar, prepara a mesa de tábua de caixote e tamboretes de resto de feira, amassa o trigo que sobrou e prepara o pão; no mesmo movimento amassa a uva e fermenta o caldo, e prepara o vinho. Seu coração arde em compaixão e seu olhar cintila como se algumas estrelas na noite se derramassem na mesa, para iluminar a refeição partilhada, que ele vai comer com todos os que não puderam entrar no baile e aqueles que prepararam a mesa dos outros e não puderam se servir.


Assuero Gomes
Cristão católico leigo da Arquidiocese de Olinda e Recife

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Sound of Silence


Deus muitas vezes (quase sempre) sopra seu Espírito longe das igrejas. Raros são os profetas sacerdotes. O sopro de Deus com suas manifestações encontram-se na vida comum do dia a dia, onde menos esperamos. Ele sinaliza para nós o tempo todo, todo tempo, apenas não temos olhos para ver por dentro, nem ouvidos para escutar a voz do silêncio.

Ouçam com atenção essa música e atentem para sua letra. Respondam se é ou não é pura inspiração.

Natal

                  Preparemos nossos corações para celebrar o Natal do senhor do ano de 2011



PALAVRAS FRATERNAS
ABERTURA DA CAMPANHA “NATAL SEM FOME”
Recife – Parque Treze de Maio – Domingo 23 de outubro de 2011
Irmãs e Irmãos,
Paz e Alegria!

Natal...
Jesus nasce em Belém. Deus se faz gente. E nós somos convidados a nascer sempre mais, tentando ser gente como Jesus é gente.
Em um mundo em que todas e todos são gente como Jesus, não cabe uma campanha “Natal sem Fome”. Mas, aí que está. Com a maior facilidade dizemos que somos irmãs e irmãos, mas uma prova que não vivemos como tais é que a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida lança hoje, pela 19ª vez, o “Natal sem Fome”.  Dar de comer a quem tem fome é humano e cristão – não é simplesmente caridade, mas, sim, exigência de justiça.
A Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, através desta campanha que desejamos possa ter pleno êxito – tanto em termos de alimentos como quanto a livros e brinquedos – antes de nos convidar a partilhar um pouco do que é nosso com Pessoas mais sofredoras, há de gritar – bem alto – em nossos ouvidos e, mais ainda, em nossos corações que, infelizmente, ainda não somos gente como Jesus, o maior Irmão de todas e de todos.
Cristãs e cristãos e todas as mulheres e homens de boa vontade temos de pôr em prática o “Dai-lhes vós mesmos de comer”[1] que Ele recomenda a suas seguidoras e seus seguidores.
A caminho de uma distribuição mais justa dos bens da Terra entre todas as filhas e filhos do Criador, pratiquemos, nesta campanha, a generosidade maior e mais bela possível.

Recife – Dois Unidos, 23 de outubro de 2011
João Pubben


[1] Evangelho segundo Mateus 14, 16

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O Dom da Partilha


Mais que receber a justa paga do nosso honesto trabalho e, com essa paga fazer gerar a vida com seus familiares através dos bens adquiridos, como alimentos, vestuários, escola, transporte, lazer, mais feliz que isso, é ver o fruto do nosso trabalho também partilhado com pessoas humanas para as quais muitas vezes somos anônimos, até invisíveis.
Esse vídeo é uma lembrança, doce lembrança de instantes de felicidade.
Dedico-o a Pe. João Pubben, Irmã Vanda e Fernando Lindoso.

Assuero

domingo, 23 de outubro de 2011

Sobre os votos dos religiosos...

                                      Painel "S. Vicente e Sta. Luísa" na Igreja de Dois Unidos
                                                        acrílico sobre tela 2 X 2 m




    
Reflexão sobre os votos dos religiosos, a saber: pobreza, castidade e obediência, e mais um, o de estabilidade, para os lazaristas.

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A relação de Deus com a humanidade, em toda a Bíblia é revelada, através da linguagem profética, como um relacionamento amoroso de esposo e esposa. No Antigo Testamento, a humanidade está nitidamente representada pelo Povo de Deus.

O relacionamento matrimonial de Deus com a humanidade ora se apresenta idílico, ora conturbado, sempre passional. Creio que podemos refletir um pouco sobre os votos a partir deste prisma de visão: as grandes bodas do Criador com suas criaturas humanas, e também das bodas de seu Filho com a humanidade através da Igreja.

Javé é o único Deus da antiguidade, ou melhor de todos os tempos, que não é uma criação sacerdotal nem uma criação da casta real. Todas as outras divindades sempre estiveram a serviço do poder político, militar e sacerdotal. Mesmo o monoteísmo instituído por Amenófis IV era apenas uma forma de concentrar poder na mão do Faraó em detrimento das várias linhagens sacerdotais das muitas divindades egípcias.
Javé vai aparecer na história com um Deus que se preocupa com o sofrimento do povo escravizado. Esta é uma característica que ninguém nem nenhuma instituição por mais que queira poder apagar ou negar. Deus se manifesta na história por causa do sofrimento do pobre, portanto, o casamento de Deus com a humanidade se faz por causa dos pobres. Os pobres são a causa primeira e última de todas as manifestações de Deus, desde a sua presença no monte Sinai até a manifestação do Espírito em pentecostes.

Pensando assim, creio que os votos que, todo cristão e cristã possam ou devam fazer, teriam que passar obrigatoriamente por este crivo de consciência. A consciência do amor carnal (visceral) que Deus tem com a humanidade (leia-se com os pobres).

Casar-se com um pobre ou uma pobre, mesmo você sendo rico (aqui nós podemos pensar em todos os tipos de riquezas, material, intelectual, cultural, social, familiar, profissional), requer em primeiro lugar uma aceitação, sem entraves nem senões, da condição do outro.

Amar é tornar-se igual.

É imprescindível se tornar como o pobre para amar a Deus como Ele nos ama, se isso é possível.

Muitos padres diocesanos criticam de uma maneira velada e os leigos nem tão veladamente assim, o voto de pobreza de alguns religiosos(a). Dizem que estes fazem os votos, mas quem cumpre são eles na verdade, os diocesanos. É uma pequena ironia fraterna, mas que tem muito de verdade.
Há ordens religiosas, especialmente as de monastérios, nas quais os monges ou as monjas vivem com algumas horas de oração, alguma leitura, têm acesso irrestrito aos meios de comunicação, culturais e de lazer, e ainda comem tão bem, muito mais até de que qualquer empresário de multinacional. São servidos por “irmãos” ou “irmãs” serviçais com as mais finas iguarias, entre obras de arte e ouvindo canto gregoriano, ainda há o acinte dos superiores terem melhor comida que os outros. Não se preocupam com dinheiro para comida, gasto pessoal, roupa, medicamentos, transporte, não pagam impostos, não sustentam os filhos quando os têm escondido.

Não me parece um caminho seguro para se cumprir com o voto de pobreza. Lembro que Francisco e Vicente jamais quiseram tal modo de vida para si nem para seus seguidores, salvo engano meu. Tinham eles verdadeiro pavor quanto a possuir bens, posses, estatutos, prédios, etc...

O caminho mais seguro para se seguir com o voto de pobreza é em primeiro lugar pedir a misericórdia de Deus, que jamais falta, e amar os pobres. Radicalmente amar os pobres este é o voto de pobreza, então seu voto vai ser: não um fardo nem uma algema, mas uma fonte no deserto com água límpida e fresca, ou um bálsamo para os pés feridos da caminhada, um refrigério da alma e do corpo.

A castidade num casamento é o menos que se quer, tudo menos a castidade entre o homem e a mulher quando se casam. O prazer da relação sexual plena (aqui quando há uma plenitude de comunhão ao nível de ágape, filos e Eros) é semelhante a um encontro místico, ou a uma revelação divina. Os gregos e todas as religiões orientais místicas já sabiam disso há muito tempo, leia-se também O Cântico dos Cânticos). Historicamente a partir da restauração da Igreja no século X, através dos monges ascetas do Mosteiro de Cluny principalmente, que deram origem a toda a casta de poder na hierarquia da Igreja, transportaram e obrigaram todos os padres seculares, religiosos, religiosas, ordens leigas e tudo que quisesse se aproximar do “sagrado” a ter uma postura fóbica em relação ao prazer e especialmente ao prazer sexual.
Retornando à nossa análise do casamento de Deus com a humanidade vemos que toda a sagrada escritura que trata deste relacionamento descreve-o com o relacionamento marital de um homem que se apaixona perdidamente até às últimas conseqüências por uma mulher, cuja origem não é tão nobre (encontrei-te largada na estrada, em farrapos, maltratada, possuída por vários amantes...), que o trai, que retorna a ele e ele a perdoa, tantas e tantas vezes, desde que ela se arrependa. O marido é casto, mesmo a esposa sendo devassa, pois ele a ama e não procura outra. Deus é casto por sua fidelidade ao povo que ama. Penso que esta poderia ser uma forma cristã radical de se viver a castidade: ser fiel aos pobres, mesmo quando a instituição não o é, mesmo quando o mundo diz não, mesmo quando a fé diz não, mesmo até quando o pobre não percebe e renega. Ser casto é vencer as tentações do mundo, e se manter fiel.
Obediência no matrimônio, por mais que a tentação seja grande, por mais que Paulo tenha escrito algo semelhante, não é se ter um chefe no lar, nem um cabeça de casal, ao qual o outro está subordinado. Obediência é se escutar junto. Um e outro ouvirem a mesma Palavra e cada qual decidir em comum acordo o que é melhor para a família. A obediência jamais será cega, pois assim alimentará a tirania, e amolará a faca do sacrifício. Até Deus, sendo Deus, escuta os pedidos, as queixas e até os desaforos do seu povo. Suporta com paciência, educa e ama sem limites.
Creio que o voto de obediência é quando se escuta Palavra de Deus, junto com a comunidade, e como homens e mulheres adultos e livres, a discutem e de comum acordo a coloca a serviço dos mais pobres. Assim sendo seu voto será uma chave de libertação e servirá para a libertação dos seus irmãos e irmãs.
Acaso eu tivesse algum prestígio, por menor que fosse, junto a Vicente e a Luísa pediria para que mudassem o nome do voto de estabilidade para o de Perseverança. Esse voto, pediria também, que fosse o cimento e a argamassa que unisse a pobreza, a castidade e a obediência, de tal maneira que já não fossem quatro mas um apenas.
Um velho padre amigo meu, que já goza da harmonia de Deus há alguns anos, dizia-me que com o passar dos anos o que mais ele pedia a Deus era o dom da perseverança. Com o passar do tempo, começo a compreendê-lo melhor. Mais que um voto esse é um dom, primo-irmão da fé. Peço a Vicente e Luísa que lá de cima o derrame para seus seguidores e admiradores.
O matrimônio definitivo de Deus com a humanidade se consumou através de Jesus Cristo. Ouçamos e meditemos:



    
    
  1 No terceiro dia, houve uma festa de casamento em Caná da Galiléia, e a mãe de Jesus estava aí.
No terceiro dia, a carne da humanidade já decomposta como uma morta na sua tumba, não percebe ainda a grande novidade. Em vez de choro e velório, uma festa. A primeira mulher da nova criação está presente. Ela e seu filho, Jesus.




2 Jesus também tinha sido convidado para essa festa de casamento, junto com seus discípulos.
A festa vai se consumar agora. Ela está preparada desde o começo do mundo. Jesus e seus amigos são convidados. O mundo como que esperou esse momento.


 3 Faltou vinho e a mãe de Jesus lhe disse: "Eles não têm mais vinho!"  
A humanidade já estava morta. Não há mais vinho, não havia mais festa, nem alegria. Era o terceiro dia. Decepção. A noiva envelhecida jazia há três dias. Não havia mais alegria, nem festa nem vinho. A vida perdera o sabor.


4 Jesus respondeu: "Mulher, que existe entre nós? Minha hora ainda não chegou." 
Quem sabe faz a hora. A mulher está preocupada. A festa vai acabar. Há que se apressar Jesus, há que instigá-lo. O que existe entre Deus e a humanidade? Jesus. Sua hora é agora. Maria sabe disso. Jesus cede. É um Deus que atende.




 5 A mãe de Jesus disse aos que estavam servindo: "Façam o que ele mandar."
Jesus vai agir através dos pobres, aqueles que servem. Atende ao pedido de Maria, ela coloca os pobres em ação. A humanidade será redimida pela ação de Jesus através dos que servem, se eles fizerem o que Jesus mandar.

                                             
6 Havia aí seis potes de pedra de uns cem litros cada um, que serviam para os ritos de purificação dos judeus. 
A humanidade antiga, a festa antiga com seus ritos de purificação. Seis, a metade de doze. Vazios de nada. A festa e o tempo passado acabou. Maria movimenta a história com seu filho através do serviço dos pobres. Para nada serviria mais aquelas talhas de purificação.



7 Jesus disse aos que serviam: "Encham de água esses potes." Eles encheram os potes até a boca.
Os que servem obedecem (escutam) Jesus e agem. Da sua presteza vai surgir uma nova humanidade, alicerçada na escuta e no serviço. Do velho surgirá o novo. Da morte a vida.




8 Depois Jesus disse: "Agora tirem e levem ao mestre-sala." Então levaram ao mestre-sala.
Os pobres continuam trabalhando em obediência (escuta) à voz de Jesus. Seu trabalho agora vai ser mostrado a todos e a todas daquela festa. Ainda assim é um servo que atende a Jesus, o mestre de cerimônia.


 9 Este provou a água transformada em vinho, sem saber de onde vinha. Os que serviam estavam sabendo, pois foram eles que tiraram a água. Então o mestre-sala chamou o noivo
Os que servem são os primeiros a saber da boa nova, pois eles sabem donde vem a novidade, trabalharam para isso. É admirável o novo vertendo o velho mundo em esquecimento e criando a vida plena de felicidade e alegria.


10 e disse: Todos servem primeiro o vinho bom e, quando os convidados estão bêbados, servem o pior. Você, porém, guardou o vinho bom até agora."
 
A primeira manifestação pública de Jesus está muito longe de ter sido realizada confinada numa cela de algum monge de cilício, em penitência por obediência a um superior do mosteiro, por este ter tido algum pensamento de prazer carnal, fazendo voto de pobreza.

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Assuero Gomes
                               

O Templo de Deus


O templo de Deus é o ser humano. O verdadeiro e único culto deve ser exercido no coração do ser humano. Por uma vontade e concessão divina permite-se ao homem e à mulher adorá-lo em espírito e verdade, não em lugares ou templos específicos, mas onde houver o humano. Caberia toda na Terra ou mesmo em todo o cosmo uma fagulha sequer do próprio Deus? Acrescenta a Ele algo nossas orações e piedosas práticas devocionais?
O que alegra a Deus, sem sombra de dúvida, sem contestação teológica, sem medo de se errar, é o ser humano em todo seu apogeu e esplendor, livre, saciado, pleno, feliz. Se nosso culto não está indo nessa direção, é vão...

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Cristo Rei




FESTA de CRISTO REI  -                            21 de Novembro de 2004
Anuncio do Evangelho de N. S. Jesus Cristo que nos foi narrado por São Lucas
(Lucas 23, 35-43)


35 O povo permanecia aí, olhando. Os chefes, porém, zombavam de Jesus, dizendo: "A outros ele salvou. Que salve a si mesmo, se é de fato o Messias de Deus, o Escolhido!"

O povo numa atitude passiva olha Jesus. O que vê? Apenas um crucificado que vai salvar sua alma para além deste mundo. A atitude passiva não é digna de seguidores de um rei. De seus seguidores um rei de verdade espera indignação perante a injustiça, organização para melhorar a capacidade de luta por mudança, e ânimo para reparar a situação dos mais pobres.
Os chefes numa atitude de zombaria instigam ao rei. Eles têm uma postura de vitoriosos, pois o mundo aparentemente é deles. Eles exploram, oprimem, enriquecem com o suor e o sangue dos pobres. Desviam verbas, fazem acordos espúrios, confabulam nos porões, roubam no peso e na medida, colocam no ombro dos excluídos uma carga insuportável.
Os líderes que deveriam agir em nome do rei, em favor do povo, o exploram. As instituições políticas constroem palácios suntuosos, as instituições religiosas catedrais suntuosas, os juízes julgam pela aparência e pela propina, as forças de segurança são violentas com o próprio povo que deveria proteger.

- Nós acreditamos Senhor que tu és nosso rei e estamos dispostos a ti seguir. Lutando pela justiça, pela partilha e pelos pobres!

Os chefes zombam de Jesus. Ora, Jesus é o pobre e é a eucaristia. Os chefes continuam zombando dos pobres e fazendo pouco da eucaristia. Quem vai salvar o pobre Senhor? Senão tu mesmo, quando teus seguidores, organizados na justiça e na partilha fizerem concreto teu reino aqui na terra.

- Nós somos teus seguidores Senhor, e estamos dispostos a fazer teu reino acontecer na justiça e na partilha!

 36 Os soldados também caçoavam dele. Aproximavam-se, ofereciam-lhe vinagre,  37 e diziam: "Se tu és o rei dos judeus, salva a ti mesmo!"

A força militar também caçoa de Jesus. Ela explorava os pobres, violentava seu direito, oprimia, pedia suborno, ameaçava, não os defendia contra os poderosos. Eles foram formados e armados para defenderem o povo, fazer a justiça ser cumprida e fazer reinar a paz. Não deixar jamais o mais forte se apoderar do mais fraco. Defender a viúva e o órfão. Porém não reconhecem a autoridade de Jesus, que é rei de justiça e misericórdia, do perdão e da partilha.

-Senhor, fazei que reconheçamos teu reino, quando defendemos os direitos dos mais fracos, dos injustiçados e dos perseguidos!
Ofereceram vinagre ao rei! Logo a ele que oferecera vinho em abundância, e da melhor qualidade. Logo a ele que fizera da sua vida uma imensa Vida partilhada, como uma refeição onde todos são convidados e onde o vinho e o pão não acabam nunca.

- Fazei Senhor que jamais neguemos uma refeição a quem tem fome, nem que menosprezemos os famintos na sua dor!

38 Acima dele havia um letreiro: "Este é o Rei dos judeus."

A realeza de Jesus é diferente à realeza deste mundo. Jesus não explora, não humilha, não acumula, não guarda para si, não oprime, não se envaidece, não se ensoberbece, não domina, não trai, não difama, não persegue, não maltrata, não guarda rancor, não usurpa, não trama. É um rei pobre, vestido em farrapos, dependurado numa cruz, envolto em sangue e sofrimento.
Para que serve um rei assim?

- Senhor, fazei que reconheçamos tua realeza assim na cruz como na ressurreição. Que sigamos teus ensinamentos de tolerância, misericórdia e amor. Que não haja nenhum irmão nem irmã passando necessidade, pois são irmãos e irmãs de um rei!

Quem seguirá um rei assim, tão frágil e tão pobre? Onde está o teu poder? Onde está o teu exército? Tua Igreja? Teus amigos? Teu prestígio? Tua fortuna? Teus assessores? O mundo continua cravando cruzes e crucificados nas estradas e nas vilas das periferias. Hoje festejamos não o rei dos judeus, mas o Rei do Universo. Que seguidores somos nós de Ti? Que fizemos de nosso rei? Um enfeite, um letreiro para andar pendurado no pescoço? Um adorno de Igreja. Estás feliz com teus seguidores?
- Senhor, nos perdoa por não acreditarmos em ti como deveríamos. Aumenta nossa fé e abre nossos olhos e nossos corações para enxergamos além das aparências!

  39 Um dos criminosos crucificados o insultava, dizendo: "Não és tu o Messias? Salva a ti mesmo e a nós também!"


Até os criminosos não reconhecem a realeza de Jesus. Na verdade a proposta de reinado de Jesus não agradou nem aos chefes políticos, nem aos sábios, nem aos religiosos, nem aos militares, nem aos ricos, nem aos teólogos, nem mesmo à massa popular, nem aos criminosos, nem aos seus apóstolos. E a nós?

- Senhor, fazei com que o teu reino se instale em nosso coração para que possamos ser fiéis seguidores teus e possamos levar o teu reino aos irmãos e às irmãs!

Muitas vezes nos desespero e na aflição também dizemos como esse malfeitor disse: Senhor se tu és Deus, nos salva! Mas quando vemos um pobre mendigando, doente ou bêbado, lhes viramos o rosto. Então Tu nos pergunta no coração: se Eu Sou teu rei porque me viras o rosto?


40 Mas o outro o repreendeu, dizendo: "Nem você teme a Deus, sofrendo a mesma condenação?  41 Para nós é justo, porque estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal."

Um ladrãozinho de segunda categoria, desses que não usam black-tie, desses que não tem jatinho nem terno italiano, nos ensina uma profunda lição: reconhecer Deus na figura desfigurada de um maltratado e torturado. Banhado em sangue, pendente da cruz, pobre, magro, esfarrapado. Enquanto os sábios, os teólogos, os religiosos, as lideranças apenas escarneciam, ele, sem estudo, sem oportunidade na vida, sofrendo o mesmo suplício, reconhece a própria culpa e no mesmo movimento reconhece a inocência e a divindade de Jesus. Oh doce sabedoria que emana dos pobres!

- Senhor fazei com que te vejamos através dos olhos dos pobres, pois eles em qualquer situação te reconhecem como Senhor e Rei!

42 E acrescentou: "Jesus, lembra-te de mim, quando vieres em teu Reino."

Quanta intimidade com o Rei! Em toda escritura jamais alguém falou com Jesus chamando-o simplesmente pelo nome. Quem lhe concedeu tamanha honra e tamanha glória? Nem mesmo o papa, nem os reis e rainhas deste mundo, nem os presidentes, nem os discípulos. Afora Maria, que chamou Jesus pelo nome, sem outro título qualquer?
Um ladrão arrependido que enxergou o Rei onde todos só viam desprezo.

- Senhor, para sermos dignos de te chamar pelo nome, fazei com que te reconheçamos no pobre, no sofredor e  no excluído.


 43 Jesus respondeu: "Eu lhe garanto: hoje mesmo você estará comigo no Paraíso."
                                                                                                                                     
O primeiro cidadão do Reino! Um ladrão, marginal arrependido. Algo nos quer dizer Lucas. Algo nos quer ensinar o Senhor. O Senhor apressa a vinda do Reino para os sofredores, para os pobres. O Senhor garante a presença deles, mesmo sem religião, mesmo sem educação. O companheiro de Jesus na cruz e no sofrimento também é o companheiro no céu. Quantas surpresas teremos se conseguirmos entrar lá! Quantos doutores da lei e de outras artes terão que pedir licença aos marginalizados, quantos latifundiários pedirão aos bóias-frias, quantos bispos, padres, frades e freiras, pedindo licença aos leigos e leigas que foram perseguidos e proibidos pela instituição, quantos médicos e profissionais de saúde pedindo pelo amor de Deus um lugarzinho aos pacientes pobres que não atenderam....

- Senhor, Rei do Universo, que te preocupas  com que o pobre há de comer e de beber, com o que há de vestir, com o preso, o doente, faze  de nós teus seguidores fiéis, e nos conceda um lugar no teu Reino, por tua graça, somente por tua graça e misericórdia!

Amém !