segunda-feira, 30 de julho de 2012

Filmes que devemos assistir antes de morrer... A Partida (Okuribito)




Filmes que devemos assistir antes de morrer...


A Partida (Okuribito)



                              De Yojiro Takita

Salvando...

Sa
Sinopse e detalhes

Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki) tem o sonho de tocar violoncelo profissionalmente. Para tanto se endivida e compra um instrumento, conseguindo emprego em uma orquestra. O pequeno público que comparece às apresentações faz com que a orquestra seja dissolvida. Sem ter como pagar, ele devolve o instrumento e decide morar, com sua esposa Mika (Ryoko Yoshiyuki), em sua cidade natal. Em busca de emprego, ele se candidata a uma vaga bem remunerada sem saber qual será sua função. Após ser contratado, descobre que será assistente de um agente funerário, o que significa que terá que manipular pessoas mortas. De início Daigo tem nojo da situação, mas a aceita devido ao dinheiro. Apesar disto, esconde o novo trabalho da esposa. Aos poucos ele passa a compreender melhor a tarefa de preparar o corpo de uma pessoa morta para que tenha uma despedida digna.



O filme trata de maneira delicada e complexa a questão dos nossos sentimentos em relação à morte. Envolve todo um ritual antigo da civilização nipônica, a dignidade que se deve ter para com seus mortos,e ainda a relação do filho e do pai. Enfim, um filme que trata da vida e seus questionamentos mais profundos.




sexta-feira, 27 de julho de 2012

Dos médicos e dos loucos....





Dos médicos e dos loucos....



Lá onde ninguém ousa ir, de onde todos fogem e evitam até passar por perto, e os que estão, estão contra sua vontade...lá onde já não há consolo nem esperança, só sofrimento e dor, onde o humano se desfigura e o céu parece cair em pedaços de chumbo, e a garganta queima, os olhos ardem secos... lá no final, na véspera do luto, um ser humano se apresenta para estar junto.

Frágil como o outro que agoniza, limitado na sua própria existência, bebendo as suas lágrimas misturadas com as do outro.

Um ser humano se apresenta para o outro, que talvez vislumbre a presença de um representante de Deus, ou do juiz mais poderoso da terra, que proferirá uma sentença definitiva, ou ainda de um messias salvador, senhor da vida e da morte.

Há quem diga que só loucos procurariam viver junto a doentes e doenças, só loucos conviveriam com o sofrimento, entre chagas abertas, pústulas e delírios febris. Hospitais, clínicas e isolamentos. Atestado de nascimento e óbito, início e fim, berço e caixão.

Outros loucos, no entanto, estão ao nosso lado, no grande manicômio que às vezes é o nosso planeta. Um belo e azul manicômio galáctico, que não conseguiu se desmamar da Pancha Mama. Loucos que mudaram definitivamente para melhor a vida e a história dos habitantes sãos. Francisco, o louco de Assis, que falava com lobos e homens, o louco de Nazaré que venceu a morte, realizando o sonho de todos os filhos e filhas de Hipócrates, sem contar com os loucos poetas revolucionários, que fazem uma revolução amorosa em cada fim de noite, e tantos e tantos mais.

Um desses loucos maravilhosos foi Lucas. Patrono de todos os médicos e médicas. Dele pouco se sabe com certeza histórica. Era grego, escreveu dois importantes livros que vêm influenciando milhões e milhões de pessoas em todo o mundo há quase dois mil anos: o seu Evangelho e os Atos dos Apóstolos. Diz a tradição que ele também pintava e teria realizado o primeiro retrato de Maria. Foi com certeza historiador, no melhor estilo grego, pois pesquisou e ordenou rigorosamente as informações para escrever seus livros. Um detalhe, mais que tudo isso, me impressiona em Lucas, é a questão do estar junto.

Quando Paulo, já prisioneiro em Roma, após suas inesgotáveis viagens apostólicas, após prisões, açoites, fugas mirabolantes, naufrágios, perseguições, escrevendo suas cartas, em lágrimas, praticamente sozinho, fazendo um inventário de sua vida e já com a cabeça em vias de ser decapitado, ele comenta sua solidão e que apenas alguns raros amigos, entre eles o “querido médico Lucas”, está junto.

Mal sabem esses loucos que quando auscultam o coração das pessoas estão escutando e ouvindo o pulsar de toda humanidade, de bilhões e bilhões de anos, da própria terra no seu pulsar...mal sabem esses loucos que quando examinam uma pele, estão na verdade examinando a pele da própria vida, pois todo o universo, se renova na sua superfície, as pedras criam musgos, os musgos descamam, e a poeira dos séculos escrevem uma nova história a cada vento...mal sabem esses loucos que quando examinam as ondas elétricas dos cérebros, estão examinando as tempestades cósmicas de todas as eras que se organizaram no mais perfeito acidente geográfico que a mãe Terra conseguiu produzir e, como uma mãe ciumenta, vai recolher de volta...ah esses loucos maravilhosos não sabem que brincar de Deus é algo perigoso pois pode encantar, e fazer esquecer que um dia estarão do outro lado, na cama, fragilizados como crianças.

Diremos então, que nesse dia dedicado aos loucos amantes da vida, todos, os homens e as mulheres, todos sem exceção, de médicos e de loucos deveriam ter um pouco...

Assuero Gomes

Pediatra,

assuerogomes@terra.com.br









  




domingo, 22 de julho de 2012

Igreja e fé




Igreja e fé



Como os cristãos sentem a presença de Deus na Igreja?

Algumas pessoas vão à missa, não por obrigação, e sim por necessidade de se sentir menos fraco, ou ainda se fortalecer para enfrentar a vida, independente do padre ou do bispo que está pregando, como uma forma de estar mais próximo ao Cristo, e assim não perder o compromisso com o Reino. Isto é um problema psicológico a ser respondido pela ciência ou uma necessidade da criatura humana se relacionar com o Criador?

Você como uma pessoa de Fé consegue sentir isto na igreja (templo)?

A Igreja tem quatro dimensões. Uma dimensão escatológica, uma social, uma espiritual e uma física, se pudermos assim colocar para uma abordagem pedagógica. Da mesma maneira que nós temos quatro imagens/janelas: uma é a imagem que temos de nós mesmos e a refletimos para os outros, outra a imagem que os outros têm de nós e a conhecemos, outra ainda a que os outros têm de nós e não conhecemos e uma quarta imagem é a que temos de nós e nem mesmo nós a conhecemos (inconsciente).

Todas essas imagens e modelos não são estanques, ora se separam ora se confundem.

A Igreja propicia no seu ambiente físico uma aproximação física, emocional e intelectual entre pessoas, que ali procuram vivenciar sua fé, junto àqueles que lhe são semelhantes. Há um encontro de carências afetivas, econômicas, psicológicas, e espirituais. É como se por alguns momentos durante uma semana de águas atribuladas, encontrássemos uma barca (um dos símbolos da Igreja) e todos os semináufragos pudessem se tolerar uns aos outros com os seus defeitos e virtudes, limitações e aspirações (veja a questão das imagens de nós mesmos, refletidas), a fim de escaparem das turbulências.

A questão é que nessa barca há uma figura histórica, espiritual, física e psicológica, escatológica (transcendente), real, que se chama Jesus. E que faz uma refeição com todos. Que ama de maneira radical e sem limites a todos. Que acolhe a todos. Que escuta e atende a todos. Que não entende o ser humano estratificado ou hierarquizado em “psicológico”, “biológico”, “espiritual”. Todos são um e um é todos, individualmente, mas na completude um do outro, fazendo em si seu próprio Corpo. Esta é a dimensão escatológica da Igreja, na medida em que aponta para o futuro definitivo, um misterioso futuro que já iniciou agora, mas ainda não é pleno, onde se confunde em alguns momentos com o próprio Reino (que é bem mais amplo que ela).

Nessa barca o aleijado ajuda o cego que ajuda o surdo que alimenta o esfomeado que dá água ao sedento que liberta o preso que cuida do doente que acolhe o migrante que veste o nu, cada um ajudando ao outro nas suas deficiências, formando um só corpo saudável e pleno em estatura e desenvoltura, desenvolvido em todas as suas potencialidades. É nessa barca que praticamos (ou deveríamos praticar) o exercício da fraternidade, que nos torna mais e mais parecidos com Jesus e cada vez menos com nossas imagens distorcidas e anacrônicas.

A eterna busca dos amantes é parecer com o amado, é incorporar a imagem do outro, até se tornar um só. Por isso as crianças se desenvolvem mirando-se na imagem dos pais e tentando ser como eles. Os jovens procuram seus ídolos e se vestem e se portam como eles, introjetando suas imagens. As equipes esportivas com seus treinadores ou líderes, e assim por diante.

Creio que a Igreja é uma barca construída com fragmentos de várias madeiras, com remendos e imperfeições, que carrega no seu bojo, humanos imperfeitos com sua fé fragmentada e às vezes até atordoada, mas que resiste por causa do timoneiro, pois só Ele pode acalmar o mar e os ventos.



Assuero Gomes

Cristão católico leigo da Arquidiocese de Olinda e Recife

sábado, 21 de julho de 2012

Ainda, uma fonte numa praça para Berlim, com a alma de Gaudí,Dennoch, eine Quelle auf einem Platz in Berlin, mit der Seele von Gaudí

Berlin


Ainda, uma fonte numa praça para Berlim, com a alma de Gaudí


Dennoch, eine Quelle auf einem Platz in Berlin, mit der Seele von Gaudí













quarta-feira, 18 de julho de 2012

Uma fonte para Berlim! Eine Quelle in Berlin!

Uma fonte para Berlim!
Bela cidade, se eu pudesse plantaria uma fonte com o calor e as cores de Gaudí entre teus jardins.

Eine Quelle in Berlin!
Schöne Stadt, wenn ich könnte eine Quelle mit der Hitze und den Farben von Gaudí zwischen Ihrem Garten zu pflanzen.
(from Google tradutor)
















sábado, 14 de julho de 2012

Sobre a Felicidade



Sobre a Felicidade, ou simplesmente felicidade.



Tentar conceituar um sentimento é como pôr uma âncora num beija-flor e esperar que ele continue flutuando no ar. Muitas definições de “felicidade” já foram tentadas, escritas ou faladas, refletidas, ensinadas.

Para algumas religiões, a felicidade seria a ausência absoluta de desejo. Somente quando houvéssemos abstraído todo desejo e percebido a realidade na qual estamos inseridos como algo irreal ou transitório, assim estaríamos em felicidade plena. Superar as necessidades também seria um caminho, mortificando o corpo para libertar a alma. Só a alma, como algo perfeito, poderia realmente habitar o reino da felicidade.

Há correntes de pensamento que acreditam que nossa pulsão ao desejo, em todos os níveis, é uma busca constante da felicidade, que só é alcançada momentaneamente enquanto aquele objeto de desejo é possuído, mas logo em seguida, outro impulso é gerado e nossa busca segue indefinidamente, talvez numa tentativa de retorno ao estado fetal, onde inconscientemente nos acharíamos em perfeita harmonia conosco e com o ambiente: a saudade do útero materno.

Para alguns místicos a nossa inquietude e essa eterna busca pela felicidade seria um movimento de retorno ao coração de Deus, de onde teríamos saído.

Na verdade vi algumas pessoas felizes por alguns momentos de suas vidas. Breves momentos. É frustrante até certo ponto, pois idealizamos uma felicidade que fosse quase eterna enquanto durasse nossa permanência aqui na Terra. É monumental o esforço sobre-humano que fazemos para nos sentirmos felizes, às vezes um objetivo perseguido durante toda a existência e só alcançado por uns poucos, por algumas horas, talvez minutos.

Vi muitas pessoas ficarem felizes com um prato de comida e um pedaço de doce, ou um copo d’água, ou uma camisa velha, ou com um afago, um sorriso ou um aperto de mão, que lhe devolveu a humanidade por alguns instantes. Vi pessoas abnegadas, dedicadas ao extremo, na ajuda aos outros, e pareciam menos tristes, mais aliviadas em suas existências. Raramente, mas vi alguém esboçar uma face de felicidade no instante da própria morte, aliviada do sofrimento da enfermidade.

Nunca, no entanto, vi alguém totalmente feliz o tempo todo, mesmo que esse tempo todo fosse pouco mais de doze horas, que é a metade de um dia. Temo por pessoas de riso fácil, muito expansivas e pouco reflexivas, efusivas, todo tempo, por detrás ou dentro de si trazem oculta, talvez, uma grande melancolia.

Talvez a procura da felicidade total e perene seja um grande fardo, pesado demais para os humanos, que trazem consigo as máscaras gregas da comédia e da tragédia; como o palco é estreito, as luzes são fracas, a peça tem poucos atos, o espetáculo é curto e a plateia raramente aplaude, talvez e talvez, devêssemos nos contentar com os nossos efêmeros e radiantes momentos de felicidade, antes que as cortinas se fechem.



Assuero Gomes

Médico e escritor



quinta-feira, 12 de julho de 2012

A Cidade de Lynch revisitada









A Cidade de Lynch revisitada



Apesar de ter intenção de jamais voltar à cidade de Lynch, por estas circunstâncias do destino que fogem à nossa vontade, encontrei-me nela no 1º. de maio deste ano.

A saudade verteu em meu coração um pouco de nostalgia.

Dia do trabalhador, e não do trabalho, esperava eu, talvez inconscientemente, uma festa entre comícios e manifestações, crianças nas praças e ruas com suas famílias operárias; mas a manhã estava fria e sonolenta, de um cinzento pesado, quase morto.

Deparei-me de repente com uma visão desesperada e silenciosa, que gritava na sua imagem mais que mil gritos: como corpos cobertos em sacos de lixo, plantados na areia da praia, assim como se o mar os houvesse vomitado, mas o mar não aceitava estes corpos, pois náufragos foram de uma cidade violenta e nada tinham a ver com o mar; belo mar de uma orla que fora lúdica e gentil em tempos passados.

Não era pesadelo. Mais de mil e quinhentos mortos em quatro meses de ano. Mais que qualquer guerra atual em curso no planeta. Corpos jazem neste tecido social roto que amortalha a cidade.

Contradição de anseios cívicos, como cidadãos do medo que se tornaram, nesta Gotham City sombria, sem heróis, inquiri-os sobre seus sentimentos. Medo. Mais medo. Insegurança. Aprovam quando a polícia mata sem julgamento, porém na sua contradição, a maioria não confia nesta polícia.

Na melhor tradição do capitão William Lynch passaram a matar, eles mesmos, os assaltantes, com o beneplácito e a cumplicidade da população. Estranha cidade a qual esta se transformou. Não há mais quase ninguém à noite, a brisa do mar que o poeta cantava e seus lampiões, já não há. Mosquitos infectados rondam a miséria. Pululam crianças nos semáforos exibindo a degradação social, enquanto nas publicações e cartazes se alardeia a melhoria de vida da população.

Quem foste e o que és agora, oh triste cidade? Far-te-ia um poema com 30 copos de chope, mas não há chope, apenas copos vazios de lágrimas; domar-te-ia o rio, cão sem plumas, mas ele está morrendo e já não há o que domar, apenas limpar o canto da boca como num último suspiro.

Violência, que nasce da injustiça e que clama com lâminas e revólveres, entre fumaças e seringas, destruíste uma bela cidade. Embrutecida a população já não ouve serestas nem se dá conta de versos e rimas, mesmo as preciosas.

Ruas vazias de cidadãos vazios de esperança, como os sacos de lixo espalhados pela areia da praia. Cidadãos encarcerados nas suas ilhas de ferro farpado e eletrificado, oprimidos por impostos pesados, que se isolam e se isolam e se isolam...

A periferia que dormita, quase inerte, a catar restos de latinhas de alumínio e a vender suas drogas aos mais abastados, sangra uma cidade que carece de esperança. Sangra-lhe a garganta com cacos de vidro, em cada moto, um sobressalto, em cada saída o regresso duvidoso.

Melhor guardar de ti uma foto, um postal, onde mesmo imóvel possamos projetar nosso desejo de te ver bela, algo como uma mirada narcísea, onde se vê a si próprio no olhar da amada. Melhor guardar de ti o doce fruto da juventude, com o qual alimentavas o futuro.

Que fizeram de ti, bela cidade?



Assuero Gomes


Médico pediatra, escritor.


terça-feira, 10 de julho de 2012

A cidade de Lynch


from Youtube




A cidade de Lynch





Tornou-se uma cidade sombria. Outrora palco de grandes acontecimentos e banhada pelo mar morno e entrecortada de rios, era radiante.

Foi sendo subjugada por assaltantes e delinqüentes e os habitantes já não suportavam mais sair à noite. O dia tornou-se também um inferno de insegurança. Cercada de miséria e sem perspectiva, com os ricos morando em verdadeiras ilhas de luxo e na outra margem do rio os jovens miseráveis cobiçando tudo o que a mídia oferecia.

A classe média, cada vez mais comprimida e oprimida arcava com pesados impostos, e em cada esquina máquinas eletrônicas de sangrias semafóricas, aterrorizavam seus cidadãos, que num dilema sheakespeariano não sabiam se era melhor serem assaltados pelas máquinas ou pelos bandidos.

Apesar dos impostos a polícia era mal paga, mal aparelhada e para sobreviver fazia conivências com os marginais, numa promiscuidade anticívica. A cada noite notícias de assaltos seguidos de morte tornavam-se rotina. Finais de semana com mais homicídios que nas guerras declaradas entre nações. O limite de pavor estava ultrapassando todos os limites da racionalidade e da sobrevivência.

Foi quando apareceu um certo capitão chamado William Lynch.

Saturada de políticos, de ongs, de comissões de direitos humanos, de sociedades protetoras de animais, de advogados, de juízes, de lombadas eletrônicas, de contas exorbitantes de energia, de impostos e mais impostos, de juros altos, de falta de emprego, de falta de perspectiva, de tribunais, de pastorais de igrejas, a população da cidade aderiu aos princípios do capitão.

Em cada grupamento de ruas contrataram seguranças armados com ordem para atirar ao menor suspeito. Em cada esquina onde havia assaltos armaram uma milícia que de tocaia em tocaia ia abatendo os marginais. Os membros das comissões de direitos humanos foram perseguidos, alguns mortos, assim como o pessoal das igrejas que ainda ousavam visitar presos nas penitenciárias.

Pela doutrina do capitão, bandido bom é bandido morto e quem é amigo de bandido é bandido também, e quem defende bandido é bandido também. O próprio capitão com sua guarda especial de elite, visitava periodicamente, de surpresa, as favelas, arrastando suspeitos que era para dar exemplo. As favelas e as comunidades pobres foram cercadas com altos muros encimados por grades elétricas e seus habitantes para entrar e sair passavam por pequenas guaritas guarnecidas.

Julgamentos sumários, se é que se pode chamar de julgamento, eliminavam os assaltantes, traficantes e consumidores de drogas. Não se gastava mais dinheiro com júris, e depois que o capitão descobriu o custo de mais de mil dólares por mês por cada preso mantido nas prisões e que muitos deles tinham mordomias que a maioria da população trabalhadora não tinha acesso, ele resolveu acabar de vez com as penitenciárias e adotou o modelo chinês de que a própria família do condenado paga a bala que é usada na sua cabeça. Se era duro com bandidos à paisana, mais ainda o era com os de farda.

O capitão pregava também o não pagamento de impostos até que se saneasse a corrução, pois ele não via retorno nenhum neste dinheiro extorquido do cidadão, como também o pagamento de multas, o que ele resolveu, com seu grupo, quebrando todos as lombadas eletrônicas da cidade. Pregava também o boicote aos aumentos exorbitantes de preço nas tarifas de energia, água e telefone instigando seus moradores a fazerem desvios clandestinos e receberem à bala os cobradores. Acabou com cotas para negros, índios e minorias.

A cidade aderiu quase que por completo às suas idéias, e foi ao delírio quando ele eliminou, em praça pública, os políticos corruptos.

Não sei como ela está hoje, pois há algum tempo atrás resolvi mudar-me de lá com minha família, pois estava começando a me seduzir pelas idéias do capitão.



Assuero Gomes

domingo, 8 de julho de 2012

A cidade Lynch sangra








A cidade Lynch sangra



Cortada de rios, vejo Recife com suas artérias e veias abertas, sangrando. Já não são os Flamboyants nem as tardes que tingem de vermelho nossos olhos, apenas o sangue de pessoas, derramado nos bueiros entupidos.

A cidade sangra o sangue da violência, da juventude estuprada nos seus anseios e sonhos. Pesadelos emanados do crack e da maconha, vidas sem valor nenhum, nem as deles nem as dos nossos filhos.

Nos out-doors e nos out-bus mulheres louras seminuas cobram o consumo de pares de tênis, na televisão os jogadores de futebol mostram seus dentes e seus carros de luxo, nos jornais as páginas pingam sangue.

Os jovens da periferia olham para trás e não vêem família, olham para frente e nada vêem, olham o agora e sentem o gosto metálico de uma bala entre os dentes. Crêem no deus imediato do crédito adquirido com o revolver, sonham com o carro do boy da faculdade particular.

Pais e mães aflitos oram todas as noites para que os filhos e as filhas retornem. Insones vasculham as janelas do apartamento ou o som das ruas noturnas na ansiedade do retorno. A cidade trama, a cidade mata.

O olhar cartesiano dos gestores mecanicamente esconde os corpos e pensa em aumentar o efetivo policial. Alardeiam um por cento a menos de mortes que há dez anos, três por cento de menos sangue que no carnaval anterior, quatro balas a menos que no último natal.

A cidade sangra aflita. A droga permeia no seu rastro maldito. Os ricos enviam seus filhos para o Canadá ou para a Europa, os remediados sonham com isso, e veem que a única solução plausível é a porta derradeira do aeroporto internacional Gilberto Freire/Guararapes.

O abismo que há entre o menor e o maior salário ganho entre os brasileiros é bem mais profundo do que possa imaginar nossa voraz e insaciável máquina de arrecadação de impostos. O abismo nos sugará a todos, com ou sem CPF, aliás, já está sugando a cada dia, a cada noite; é um abismo terrível, no qual vamos depositando nossos jovens, nossa esperança, nossa civilidade.

A cidade sangra pelos olhos, suas lágrimas vermelhas, sangra pelos ouvidos com os gritos lancinantes de mães solitárias, sangra pelos poros de cada janela aberta nas noites dos apartamentos.

Quantos corpos teremos que contar, insepultos em nossas mentes e corações? Não há relógios nem cronômetros, nem mãos cansadas de coveiros que consiga parar esta dança de número malditos.

A cidade do Recife sangra, Pernambuco e Brasil sangram mergulhados na impunidade, e afogam o futuro perdido de tantos jovens, todos vítimas precoces, imoladas no altar do descaso e do egoísmo de uma nação, mãe que não dar educação nem saúde a seus filhos, no entanto engorda políticos.

Sonhar, no entanto é preciso, assim como é impreciso determinar um tempo de futuro melhor, para os sobreviventes. Pelo próprio ofício do cristão, devemos esperar contra toda desesperança e criar pequenas fraternidades nos caminhos alternativos. 



Assuero Gomes


Médico e Escritor

sábado, 7 de julho de 2012

Ainda sobre o parto vaginal e a cesareana





Ainda sobre o parto vaginal e a cesareana


É interessante observar esse texto científico sobre o assunto.

Os estudos sugerem que a asfixia intraparto e, em conseqüência, a morbimortalidade fetal e neonatal se devem a falhas em reconhecer o risco de sofrimento fetal e atuar de modo apropriado e em tempo hábil, o que exigiria adequada monitorização do batimento cardíaco fetal, avaliação do peso fetal e da idade gestacional, observação da quantidade e tipo de líquido amniótico, acompanhamento da duração e eficácia do trabalho de parto 25 30 61 62 63 64 65 66 67. Gemelaridade, crescimento intra-uterino retardado, apresentação fetal anômala, distorcia, segundo período do trabalho de parto prolongado, oligoâmnio, presença de mecônio no líquido amniótico, corioaminionite, amniorrexe prematura são algumas condições identificáveis no período intraparto que aumentam o risco de mau prognóstico neonatal3 67 68. Nessas condições, o parto deve ser realizado em unidade capaz de oferecer monitoramento intraparto com cardiotocografia e, pelo risco aumentado de asfixia intraparto, é preciso ser mais tolerante quanto à realização de cesárea 15 37 45 47 51 66 69.

Em uma recente revisão de literatura, Hankins e colaboradores[G1] , com o objetivo de determinar o impacto sobre a morbimortalidade neonatal se fosse permitido às mães optarem por realizar cesárea eletiva às 39 semanas de gestação, apresentou resultados estarrecedores, que comprometem a prática e a cultura obstétrica atual; por exemplo, estimou que a cesárea em mulheres nessa idade gestacional, antes de entrarem em trabalho de parto, reduziria em 80% as ocorrências de encefalopatia moderada ou grave, o que, apenas nos Estados Unidos, evitaria 9.462 novos casos por ano 70[G2] . Nesse sentido, Liston e colaboradores analisando 147.100 nascimentos no Canadá, revelaram que a cesárea em gestação a termo diminuiu em 66% os traumatismos fetais maiores (uma ou mais fraturas, paralisias, hemorragia intraventricular) e, em 20%, os menores, como os cefalohematomas71[G3] .

Em contrapartida, um dos mais significativos estudos de coorte prospectivo, realizado por Kola°s[G4]  e colaboradores, avaliando 18.653 partos na Noruega, revelou que a cesariana planejada resultou em risco duas vezes maior para internação em UTI neonatal, principalmente por problemas respiratórios neonatais, comparado ao parto vaginal planejado, mesmo quando ajustado para a diferença de idade gestacional e que tais problemas respiratórios neonatais são mais comuns quando a cesariana é realizada antes do início do trabalho de parto72[G5] . Tais achados sugerem que uma política arbitrária de cesárea eletiva poderia acarretar um risco maior de morbidade neonatal iatrogênica e aumento do custo hospitalar. Por outro lado, esse estudo não foi estatisticamente significativo para avaliar as repercussões neurológicas e revelou que, para bebês com idade gestacional ≥ 39 semanas, não houve, para os problemas respiratórios, diferenças nos resultados entre cesárea e parto normal; também conclui que em muitas situações o estresse do parto vaginal, para as crianças, é muito superior, o que imporia uma cesárea eletiva com mais presteza.

Do lado materno, conforme um grande estudo de base populacional realizado por Liu e colaboradores no Canadá, comparando a cesárea planejada com o parto normal, revelou taxas globais de morbidade materna grave de 27,3 e 9,0 por cada 1000 partos, respectivamente; com risco relativo maior, para as que fizeram cesarianas, de parada cardíaca materna, troboembolismo, histerectomia e infecção puerperal73[G6] . Contudo o risco absoluto para as morbidades graves foi baixo, por exemplo, para a parada cardíaca, o aumento com a cesárea planejada foi de 1,6 por 1000 partos. A diferença da taxa de morte hospitalar entre os dois grupos não foi significativa.

Levando em conta as taxas adequadas de cesárea em nível populacional, Lawn e colaboradores em um estudo que incluiu 193 países60[G7] , após classificá-los em 5 categorias por taxa de mortalidade neonatal, o grupo de mortalidade neonatal muito baixa (≤ 5) teve uma taxa média de cesárea de 17% e o grupo mortalidade com muito alta (>45) teve uma taxa média de apenas 3%. Contudo, o que se verifica na literatura é que, mesmo com taxas de cesárea maiores de 20%, nenhuma associação foi observada entre as taxas de cesáreas de países de alta renda e a mortalidade neonatal ou materna. No entanto, o mesmo não acontece com países pobres, pelo contrário, uma taxa maior de cesárea melhora os resultados maternos e neonatais, sendo os resultados piores quando a taxa se encontra abaixo de 10% 49[G8] . Evidentemente que o aumento de cesáreas tem um custo financeiro, por exemplo, um levantamento realizado em maternidades européias revela que, em média, os custos da cesárea são duas a três vezes maiores do que os do parto normal cefálico, o que, em situação de limitados recursos, obriga à utilização dos melhores critérios na sua eleição72[G9] .




 [G1]Gary D. V. Hankins, Shannon M. Clark, and Mary B. Munn. Cesarean section on request at 39 weeks: impact on shoulder dystocia, fetal trauma, neonatal encephalopathy, and intrauterine fetal demise. Semin Perinatol. 2006 Oct;30(5):276-87.
 [G2]Gary D. V. Hankins, Shannon M. Clark, and Mary B. Munn. Cesarean section on request at 39 weeks: impact on shoulder dystocia, fetal trauma, neonatal encephalopathy, and intrauterine fetal demise. Semin Perinatol. 2006 Oct;30(5):276-87.

 [G3]F A Liston, V M Allen, C M O’Connell and K A Jangaard. Neonatal outcomes with caesarean delivery at term. Arch Dis Child Fetal Neonatal Ed 2008;93:F176–F182.
  1.  
 [G4]Toril Kola°s, Ola D. Saugstad, Anne K. Daltveit, Stein T. Nilsen, Pa°l Øian. Planned cesarean versus planned vaginal delivery at term: Comparison of newborn infant outcomes. American Journal of Obstetrics and Gynecology (2006) 195, 1538–43.

 [G5]Toril Kola°s, Ola D. Saugstad, Anne K. Daltveit, Stein T. Nilsen, Pa°l Øian. Planned cesarean versus planned vaginal delivery at term: Comparison of newborn infant outcomes. American Journal of Obstetrics and Gynecology (2006) 195, 1538–43.

 [G6]Shiliang Liu, Robert M. Liston, K.S. Joseph, Maureen Heaman, Reg Sauve, Michael S. Kramer. Maternal mortality and severe morbidity associated with low-risk planned cesarean delivery versus planned vaginal delivery at term. CMAJ • February 13, 2007 • 176(4).
2.       [G7]Joy E. Lawn, Mary Kinney, Anne CC Lee, Mickey Chopra, France Donnay, Vinod K. Paul, Zulfiqar A. Bhutta, Massee Bateman, Gary L. Darmstadt. Reducing intrapartum-related deaths and disability: Can the health system deliver? International Journal of Gynecology and Obstetrics 107 (2009) S123–S142.

 [G8]Althabe F, Sosa C, Belizán JM, Gibbons L, Jacquerioz F, Bergel E. Cesarean Section Rates and Maternal and Neonatal Mortality in Low-, Medium-, and High-Income Countries: An Ecological Study. Birth. 2006 Dec;33(4):270-7

 [G9]RCOG. Clinical Guideline - Caesarean section. Royal College of Obstetricians and Gynaecologists, London, 2004.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Entre o parto normal e a cesariana





Entre o parto normal e a cesariana



“Uma inverdade dita e repetida muitas vezes acaba se tornando realidade”, alguém, de maldita memória, já disse isso e infelizmente estava certo. Sobre o parto muito se tem afirmado e se tem usado de meias verdades, se tem distorcido estatísticas e se tem emitido assertivas baseadas nestes dados, de tal maneira, que está disseminado um conceito, que toma ares de verdade absoluta e unanimidade radical.

Gostaria de tecer alguns comentários sobre o tema, para tentar jogar alguma luz na questão. Tenho uma boa experiência em assistência ao recém nascido na sala de parto, nestes trinta anos de profissão e já passando dos 9.000 nascimentos. Concordo plenamente que um parto normal (vaginal) quando evolui bem e com assistência contínua do obstetra, é o ideal, isso é inquestionável. Porém, e aqui um ‘porém’ incisivo, a indicação da cesariana em tempo hábil, antes que se manifeste algum sinal de sofrimento fetal, é imprescindível, e representará a diferença vital, entre toda uma vida saudável ou uma condenação perpétua ao sofrimento de uma sequela neurológica.

A lenda urbana que se criou é a seguinte: ‘no Brasil a quantidade de cesáreas é maior que em qualquer outro lugar do planeta’, mentira! A estatística é manipulada desta maneira: entre as pessoas que têm acesso à assistência por plano de saúde, neste universo, realmente a porcentagem de cesarianas é elevada, no entanto se a amostragem incluir todas as mulheres grávidas do Brasil (as que têm plano de saúde e as atendidas pelo SUS e as que nem ao SUS têm acesso) então a proporção é semelhante a de países como os USA, Canadá e  Comunidade Européia. Outra afirmativa da lenda: ‘as complicações para os recém-nascidos de cesariana são maiores e mais graves que os nascidos de parto vaginal’, mentira! Divulga-se estatística das complicações das cesarianas para os recém nascidos (RN), que na sua maioria são transitórias e não deixam maiores sequelas e omitem-se as complicações graves de partos vaginais mal conduzidos, que trarão consequências para toda a vida, especialmente as temíveis paralisias cerebrais decorrentes da falta de oxigenação no cérebro dos RN. Não se divulga também as complicações nas parturientes de partos vaginais feitos por curiosas nesse imenso interior do Brasil onde falta tudo.

Longe de mim fazer apologia à cesariana, porém posso testemunhar, que foram muito maiores as complicações, do ponto de vista do RN, em partos vaginais, mesmo em maternidades bem equipadas, que em cesarianas.

O que há por detrás de tudo isso? O governo nas três esferas: federal, estadual e municipal, tem obrigação constitucional de prover assistência médica de qualidade para seus cidadãos, para isso arrecada nossos olhos e nosso sangue em impostos. Porém, e aqui um ‘porém’ mais incisivo ainda, ele não cumpre sua obrigação. Assistência obstétrica de qualidade requer recursos, embora dentro da medicina, esta especialidade não seja das mais onerosas. Por outro lado, os planos de saúde no seu afã de lucrar, tentam baratear o custo da assistência. Ora, um parto normal é muito mais barato que uma intervenção cirúrgica. Governo e planos de saúde juntos com poder de mídia. Para completar o caldo da lenda, estimula-se o parto através de parteiras, de doulas, em casa, em casas de parto, chegando aos médicos os casos já complicados, quando é fatalmente tarde uma intervenção, engrossando as estatísticas das “complicações”.

É sempre bom lembrar que a assistência ao parto é um ato médico e compete a ele, em última instância, as decisões relativas a esse evento, pois a responsabilidade final recairá inevitavelmente sobre o médico.

Assuero Gomes


Médico e escritor

terça-feira, 3 de julho de 2012

O Parto de Bilac




O Parto de Bilac





                                            imagem do google





O Parto de Bilac



A mãe era uma jovem romântica, destas que a mais tenebrosa das tempestades só lhe parece beleza. Vê poesia em todos os momentos da vida, tem um coração puro e translúcido. Bebe da natureza e admira-se com o vôo das manhãs nas asas dos pássaros matinais.

Está grávida. Sonha com o filho quase todas as noites. Sonha com um parto normal. Pudesse seria no campo. Jamais em hospital com médicos, anestesias, drogas químicas, estresse. Jamais uma cesariana. O parto deve ser normal. O da sua avó foi em casa, com a parteira... daquela época em que se colocava o chapéu do marido na cabeça da parturiente para dar-lhe força.

O filho chamar-se-ia Bilac, em homenagem ao grande poeta que contava as estrelas.

Ela freqüentava um grupo de terapias alternativas. Não fez o acompanhamento pré-natal. Detestava hospital, laboratório, carne vermelha, antibióticos.

A gestação prosseguia tranqüila, como tranqüila deve ser a vida. Bilac mexia muito na barriga. Era um feto de uma vitalidade espantosa. Nem uma consulta médica, nem um exame sequer, nenhuma vacina. Sua avó, sua bisavó, nunca tiveram nada disso. Sempre deram à luz em casa, uma teve nove filhos e a outra dezesseis.

Realmente, com exercícios respiratórios, muita fruta e verduras frescas, sem preocupações maiores, a gestação seguia tranqüila.

Resolveu, a mãe, ter essa criança no interior, no sítio que foi de seus avós. Longe da cidade, perto das plantas e dos animais. Ar puro da manhã. A família foi contra, pois poderia haver necessidade de alguma assistência médica, se as coisas não corressem como o esperado. Ela se manteve intransigente. O  grupo iria com ela. Ela estaria bem. Assim foi feito.

As poucas semanas que restavam para que se completasse o tempo propício do parto, transcorreram em plena harmonia. Por precaução, embora o grupo de amigos e amigas que foi com ela para o sítio, se prontificasse em ajudar no parto, ela contatou uma parteira que prestava assistência naquela região rural.

Era madrugada e as dores começaram. Lentamente, espaçadamente. Uma mais próxima da outra, uma mais forte que a outra. Neste tempo já havia perdido o “sinal” como as parteiras chamam o tampão mucosanguinolento que é expelido no início do trabalho de parto. As contrações pioraram. O grupo se apavorou. Mas estava tudo bem. A bolsa não havia rompido. Foram chamar a parteira, com muito sacrifício, pois era escuro ainda e a aurora demorava, lenta, partejando o sol. Mais de duas horas se passaram até que a parteira chegou.

Estava tudo bem. As dores estavam bem piores. A mãe suportava bem. Respirava rápido e curto. Bilac era grande. A bolsa rompeu. O líquido não estava tão claro quanto a parteira esperava, era um pouco marrom. A mãe não viu, nem precisava saber. Estava tudo bem. As dores aumentavam. Bilac não saía. A parteira começou a empurrar a barriga da mãe para ajudar. Chamou duas das amigas do grupo para ajudarem. Bilac não saia. A vagina estava toda edemaciada. Força! Força! Paciência! Pediam à mãe, que começava a se desesperar. Seis horas depois da bolsa rota e Bilac não saia. Uma das vezes saiu o cordão umbilical. Bilac já não se mexia. As dores foram melhorando. A mãe estava um pouco inconsciente. Levemente inconsciente, exausta. A parteira começou a se preocupar.Algo não estava indo bem. Já fizera mais de duzentos partos, mas aquele estava complicado. Achava bom levar para o hospital. A mãe, não agüentando mais, concordou.

Entre colocar a mãe em uma condução e chegar ao hospital, o tempo consumiu quase duas horas. Mais um tempo para prepará-la para a cesariana.

Bilac finalmente veio ao mundo. Triste mundo para Bilac. Bilac tem hoje graves seqüelas. Não anda. Não come só. Preso ao leito e à cadeira de rodas. Bilac não pode expressar toda a poesia que traz dentro de si.



Assuero Gomes

Pediatra