domingo, 30 de dezembro de 2012

Ano Novo

Todo ano é novo quando o fazemos de novo. Um novo tempo a cada momento, em cada instante em cada esquina da vida, em cada tempo, pois há um tempo de arar, semear, e colher como nos ensina a Palavra.
Que esse novo tempo que se aproxima nos aproxime cada vez mais!
Paz e bem!

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Uma mensagem de Natal


Uma mensagem de Natal
 
 
Acreditar num Deus que se esvai em sangue e dor dependurado numa cruz, um Deus se apresenta menino recém-nascido numa noite estrelada entre os pobres, um Deus que se faz vinho e pão, é ter certeza que o impossível é a possibilidade de Deus e que não estamos sós mesmo nas noites mais escuras de nossas vidas e nos dias mais luminosos.

Paz e alegria para todos os irmãos e irmãs que conseguimos agregar na caminhada de nossas vidas rumo a Belém, a Casa do Pão.

 

Assuero

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

D. helder e o Tempo...


 
 
 
 
D. Helder e o tempo....

Como será que o Dom está enxergando o tempo lá da eternidade, onde não há tempo? Lá de onde tudo está realizado na perfeição da felicidade plena, profunda e luminosa, onde não há choro nem lágrimas, onde as paralelas se encontraram, onde as mágoas se diluíram, onde o cordeirinho brinca com o leão.

Caminha o Dom pisando delicado por sobre as estrelas do manto de Maria, nos trigais eternos com Francisco, na companhia de seu anjo José?

Enquanto a saudade campeia em nossos corações podemos saborear gotas do mel de sua presença, talvez salpicadas da eternidade e já escritas antes da partida. O poeta derrama seus versos sobre nós como uma chuva benfazeja, a mitigar a aridez da ausência.

Oferecemos a você meu irmão, minha irmã, um pouco da água dessa fonte, para regar nossos dias nesse ano que se inicia, sob as bênçãos de D. Helder Camara, o eterno Dom de Olinda e Recife.

 

Assuero Gomes.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A última viagem do Elefante Cego


A última viagem do Elefante Cego
 
 

 

O condutor do Elefante Cego, como um pastor, chegou antes nos verdes prados. No seu passo lento o paquiderme, ensaiava a Cegueira, quando lia o Evangelho segundo Jesus Cristo, nos jardins do Convento, transformado em memorial.

Foi no ano da Morte de Ricardo Reis, quando este, pensando em estar singrando os mares de Camões, numa Jangada de Pedra, para escapar do Cerco de Lisboa, procurou a Terra do Pecado, mas esta na verdade era a própria Caverna, esta terra, onde se refugiou. Na sua estrutura pesada e tendo a cegueira como guia, foi imprescindível que o condutor com toda sua lucidez, Levantando do Chão, guiasse o elefante na sua última jornada.
 

No seu caminho, muito à frente do animal, o condutor recebeu pedras, em vez de diamantes, do seu irmão Caim. Seu irmão, sangue do seu sangue verde vermelho, que rasgando o Ensaio sobre a Lucidez, preferiu As Intermitências da Morte, e quis condenar o condutor a uma grande e medieval fogueira inquisitorial.

Escapando, para jogar mais luz sobre o elefante, tentando restituir-lhe a visão, foi refugiar-se em terras de Cervantes, onde teve boa acolhida, entre primos da casa ibérica, talvez na ilha de Sancho Pança, talvez nas páginas do Conto da Ilha Desconhecida, entre a aridez da terra e dos homens.

O pastor-condutor finalmente alçou vôo e desvencilhado do peso do seu rebanho de um único e pesado quadrúpede, mergulhou na luz.

Banhado em luz, livre de toda presença obscura, viu plenamente.

Levava na sua pequena valise os óculos grossos, que já não mais necessitava, as anotações de Lanzarote e suas Pequenas Memórias, em Apontamentos. Embevecido de luz lembrou da sua pequena Bagagem de Viajante, viajante Deste Mundo e do Outro. Trazia na lapela, com orgulho, um pequeno martelo e uma foice, tão carcomidos e desgastados pelo tempo, que quase não se via mais.

“Dar luz aos cegos é prerrogativa de Deus” disse-lhe uma voz feminina, doce e suave “Mesmo para aqueles que não acreditam Nele?” perguntou o pastor de elefante “Especialmente para aqueles que não acreditam Nele” “E o meu elefante, como caminhará na sua escuridão?” “O elefante é pesado e teimoso. Pensa que tudo pode devido à sua força e à sua tromba, mas caminha para o Abismo” “É porque é cego e não vê” “Ele não vê porque é cego, no entanto não sabe que é cego e pensa que vê” “Se Deus existe, por que fez ele cego?” “Ele não é cego de nascença, ele é cego porque pensa que vê e não sabe que é cego”.
 

Silencioso ficou o pastor, extasiado que estava com tanta luz, como bálsamo para seus olhos, que se mantinham enxutos. A voz feminina falou então “Entra, vamos ver e assistir aos ensaios de algumas peças” “Quais?” “Podes escolher, A Noite, Don Giovanni, Que farei com este Livro? E A Segunda Vida de Francisco de Assis, que agora mesmo a está ensaiando com Clara” “Como permitem que ensaiem essas peças aqui?” “Gostamos de toda Criação” “Posso ficar aqui vendo tudo?” “Aqui é sua casa. Aliás, aqui é a casa de todos os povos” “Já estiveste na minha casa do outro lado do mar?” “Sim, numa Viagem a Portugal. Desde então e sempre, nenhum filho desta terra fica fora da minha proteção”.

Para os que ficamos cavalgando o Elefante, talvez um pouco mais cegos que de costume, na despedida do último cavaleiro lusófono, Saramago.

 

Assuero Gomes


Escritor e Médico

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

D. Helder e o Pacto das Catacumbas

 

D. Helder e o Pacto das Catacumbas







Documentário sobre os 50 anos do Vaticano II, Tânia Kert, nos enviou o link. O foco em Dom Helder foi "Como ele viveu o Pacto das Catacumbas em Olinda e Recife".




http://mediathek.daserste.de/sendungen_a-z/799280_reportage-dokumentation/12577546_der-katakombenpakt-das-geheime-vermaechtnis-des

domingo, 2 de dezembro de 2012

O homem que comeu as cinzas de Ângela, sua mulher.


O homem que comeu as cinzas de Ângela, sua mulher.

 

Era um cirurgião plástico de renome. Começara sua vida na batalha do dia a dia para se manter e cursar seus estudos. Vindo do interior, família bastante pobre. Lances de vida curtos como essas frases. Uma sobrevivência a cada dia. Uma refeição a cada corte no dia.

Tinha uma pulsão erótica quase mórbida, mas contida. Sublimava a cada nova colega. Focado nas metas. Trabalho, estudo, profissão. Lazer confinado no desejo impossível.

Conhecera Ângela no início da faculdade. Pálida suavidade de brancura aristocrática. Alta e esguia. Troca de olhares e fluidos virtuais, destes que os poetas exalam. Consumação plena em lances curtos, como essas frases.

Casamento, pai médico renomado, como nos contos fictícios. Ficção prenha de realidade. Situação estabilizada. Vida com respiração mais pausada, como numa frase cheia de vírgulas e reticências. Eros mais afoito, mais solto, mais imperial.   

Foram passando, como numa leitura rápida de texto curto, colegas de trabalho, enfermeiras, técnicas, depois pacientes e acompanhantes.

Era dourada a vida como borbulhas de champanhe. Na taça não via Eros de mãos dadas com seu irmão Tanatos, a brincar com o destino dos mortais. E as frase ficando mais longa, mais longa, mais longa.....quase sem parágrafos. Era como se Cronos olvidasse a brincadeira dos Titãs com os meros mortais.

Ângela apareceu com um nódulo na mama esquerda, aquela do coração. Como um minúsculo ponto, numa frase que parecia eterna. Tantas mamas ele já fizera com maestria de um escultor renascentista, tantas mamas passaram por suas mãos e lábios e olhos. O que seria um ponto, que jamais pensado final, talvez na base da exclamação e se muito da interrogação, mas jamais final. Quisesse Deus uma vírgula, até mesmo um ponto e vírgula...

Um ponto é um ponto. Infinito na sua definição.

Ângela definhou. Apesar de todas as técnicas terapêuticas. E havia tantas ângelas na sua vida, que se foram, que estão e que viriam. Tantas exclamações que ainda galgaria!

Um dia triste, como usam ser nessas histórias tristes, cremaram Ângela. Uma bela e hostil cerimônia sem sentido. Sentiu-se patético e sozinho junto a tantos convidados e a tantas palavras sem assento.

No carro, ao seu lado, muda e surda as cinzas de Ângela num hermético vasilhame de metal polido. Trajeto estranho esse na sua última viagem com Ângela.

Garagem automática. Carro bem seguro. Casa imensa. Casa. Frases cada vez mais curtas. Entre o dia e a noite cada vez mais cinza. Despejaria Ângela no jardim. Mas antes, bem logo antes que ultimasse o gesto, abriu o utensílio e comeu as cinzas de Ângela.

 

Assuero Gomes

sábado, 1 de dezembro de 2012

A estátua recusada por D.Pedro II


Colaboração de Fabiano Costa 


 

Quam bonum est et quam jucundum, habitare fratres in unum.

Virgo Flos Carmeli, ora pro nobis!

 

 

 

A estátua recusada por D.Pedro II


E DIZER QUE JÁ TIVEMOS UM GOVERNANTE ASSIM!!




D. Pedro II dispensou estátua em sua homenagem para priorizar a construção de escolas públicas.


A motivação parecia das mais nobres: Pela vitória na guerra do Paraguai, nosso Imperador fazia jus a uma estátua. Melhor ainda: uma estátua feita com o bronze dos canhões do inimigo derrotado. A campanha foi lançada através do jornal Diário do Rio de Janeiro anunciada de acordo com os seguintes termos no dia 19 de março de 1870:

 

"[...] uma reunião em que se deliberou erigir uma estátua eqüestre ao Sr. D. Pedro 11, como o primeiro cidadão, pela constância e tenacidade que mostrou sempre na sustentação da luta contra o tirano do Paraguai, devendo o monumento ser fundido no país com o bronze das peças tomadas ao inimigo. "

 

D. Pedro II não esperou o dia seguinte para comentá-la. Em carta pública, causou surpresa geral ao rechaçar a homenagem em grande estilo:

"Si querem perpetuar a lembrança do quanto confiei no patriotismo dos brasileiros para o desagravo completo da honra nacional e prestígio do nome brasileiro [...] O senhor e seus predecessores sabem como sempre tenho falado no sentido de cuidarmos da educação pública, e nada me agradaria tanto a ver a nova era de paz firmada sobre conceitos de dignidade dos brasileiros começar por um grande ato de iniciativa deles ao bem da educação pública."

No Parlamento, a rejeição ao projeto da estátua chegou a ser criticada. Em maio, o senador José de Alencar (1829-1877) tratou o tema como uma ingerência do Imperador no Poder Legislativo, uma vez que já havia sido aprovado o financiamento para a elevação da imagem urbana. Nas sessões seguintes, porém, os parlamentares acompanharam a decisão do Imperador. O ministro do Império Paulino José Soares de Souza, por sua vez, manifestou na imprensa o apoio a Sua Majestade. Seu discurso alinhado com o Chefe de Estado reforçava a relação entre paz e progresso, este entendido como avanço “intelectual e moral da nação”. 

Para enfatizar suas prioridades, o Imperador lançou, naquele mesmo ano, as pedras fundamentais das primeiras escolas municipais do Rio de Janeiro, então Corte Imperial. Inauguradas em 1872, eram elas a Escola São Sebastião (posteriormente chamada Benjamin Constant e demolida em 1938 para a abertura da Avenida Presidente Vargas), localizada na freguesia de Santana, e a Escola São Cristóvão (depois chamada Gonçalves Dias), localizada no bairro de mesmo nome. Durante as décadas de 1870 e 1880, seriam criadas outras seis escolas municipais na cidade. O que não quer dizer que o imperador estivesse esbanjando recursos públicos: somente uma de todas essas escolas consumiu verba do Estado em sua construção, sendo as outras sete viabilizadas por contribuições particulares ou por subscrição pública. E sempre envolvidas pela solenidade imperial: D. Pedro II fazia questão de estar presente e participar tanto dos rituais de lançamento da pedra fundamental quanto das inaugurações.

Não seria exagero dizer que a mais recorrente representação do Brasil monárquico é a imagem de D. Pedro II.  No entanto, há poucas esculturas públicas do longevo imperador. Uma das peças mais conhecida pode ser considerada escultura abaixo

 


 

inaugurada em 1911 e que representa o Imperador de modo civil, numa postura contemplativa e serena, lembrando os retratos do liberal intelectual.

Curioso é que a imagem foi produzida não no período imperial, mas na primeira metade do século XX, numa evidente manifestação de saudosismo que se confunde com a identidade construída em torno da cidade de Petrópolis. Em 1925, por ocasião do centenário do nascimento de D. Pedro II, inaugurou-se um busto na estação ferroviária que leva seu nome (mais conhecida como Central do Brasil) e uma estátua no parque da Quinta da Boa Vista, em frente ao antigo Palácio Imperial, já então transformado pela República no Museu Nacional.

 

A ESTÁTUA RECUSADA

Assim, a escultura, que havia sido moldada em gesso por Francisco Manoel Chaves Pinheiro, em 1866,   nunca chegou a ser fundida em bronze. Mas graças ao trabalho de Conservação e Restauração do Museu Histórico Nacional e ao apoio financeiro de  sua  Associação de Amigos,  foi concluída em 1999 sua a restauração da monumental.