quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O Deus do Povo e o Povo de Deus


 
 
 
 
 
 
 
 
O Deus do Povo e o Povo de Deus

 

“Quem habitará no recôndito do Altíssimo?” Pergunta o salmista.

Das entranhas misteriosas de Deus surge como que uma chuva cósmica de misericórdia que perpassa toda a criação, desde as galáxias nebulosas, aos abismos marinhos, desde o mais sábio dos seres até um minúsculo protozoário, todos bebem de sua misericórdia, todos se alimentam de sua compaixão, pois sem ela não haveria cosmo nem vida, nem um grão de areia sequer.

Como é que um Deus tão grandioso assim, infinito na sua doçura, se preocupa com que o pobre vai comer, com que o pobre vai vestir (Dt 24, 13)? Eis um grande mistério. Como um Deus assim, movido por compaixão, interveio na história dos homens e das mulheres, e do seu recôndito ouviu o clamor do seu povo, que gemia as dores da escravidão na terra do Egito, sob o jugo do faraó?

Um Deus que toma partido. Um Deus que não é omisso nem alheio ao sofrimento dos pequeninos. Jamais houve em toda história da humanidade um Deus que se colocasse ao lado dos empobrecidos, dos escravos, dos excluídos, dos marginalizados. Todos os outros, sem exceção, eram deuses que estavam a serviço de uma casta sacerdotal e esta ao serviço dos reis e governantes, eram deuses criados à imagem e semelhança do poder dominante, para lhes dar sustentação.

Veremos que para libertar o povo da escravidão do Egito, Deus se serve da mediação humana. É através da ação mediada por Moisés e Aarão que o confronto com o poder do faraó se dá, então observamos várias etapas de um embate de forças, com sinais (pragas) onde Deus claramente se coloca ao lado dos pobres e finalmente parte ao meio, na coluna dorsal do sistema, o maior poderio daquela época, o império do Nilo. De uma leva de escravos nasceu uma nação que perdura até nossos dias.

Um Deus político, no sentido puro da palavra. Cuida do bem estar do povo, suscita profetas que denunciam o abuso do poder por parte das autoridades, desestabiliza a ordem quando esta se torna opressora e exploradora (1Sm 16, 1-13), organiza o povo, protege o indigente, a viúva e o órfão, rejeita oferendas, cultos e rituais, e diz claramente que aprecia a justiça e a misericórdia.

Radicaliza quando, vendo os desvios que as sociedades tomaram, envia seu próprio filho para anunciar a boa novidade aos pobres, dar luz aos cegos, som aos surdos, saciar os famintos, libertar os cativos das prisões e anunciar que finalmente a sociedade justa (Reino de Deus) chegou para eles (Lc 4, 18-22).

Jesus faz sua, a opção do Pai. Anda com pecadores, prostitutas, pessoas desprovidas de bens como terra e moradia, invade plantação alheia e pega espigas de trigo em dia sagrado, come e bebe com eles. Escandaliza a religião, o culto e as autoridades constituídas. A todos tem uma palavra de consolo, uma cura, um sinal efetivo do Reino. Depois dele a história dos pobres jamais será a mesma.

Não contente com sua loucura de amor, o mesmo Jesus, vai se dar em um pedaço de pão e num pouco de vinho. É a radicalização extrema do amor em estado puro. A força matriz e motriz do universo, de onde tudo emana. A fonte primeira e última de onde tudo sai e retorna; onde a chuva cósmica de misericórdia é derramada.

Quem habitará o recôndito do Altíssimo? Pergunta o salmista. Com certeza o pobre, responde Jesus, e quem o sacia na sua fome e sede, e quem o veste na sua nudez, e quem o visita na sua prisão.
 
 

 

Assuero Gomes

 
 

 

sábado, 12 de outubro de 2013

Uma balada para Joxer


 

 
 
 
 
Uma balada para Joxer

 

Poderia ter se chamado Argos, como o de Ulisses. Clara deu-lhe esse nome quando o viu pela primeira vez há uns onze anos. Nunca pensei que estaria escrevendo uma memória sobre um pequeno cão. Um yorkshire dourado que passou por nossas vidas e levou consigo ao final, um bom pedaço das alegrias e lembranças da infância de meus filhos.



Aprendi com uma senhora, durante o breve enterro do cachorrinho, que os animais têm também uma alma, não uma alma personalíssima, mas uma alma vivente que faz parte do ânima, que habita todos os seres vivos do universo. Um sopro de vida. O sopro de Deus, Ruá, que mantêm a vida, e que perpassa a Criação.

Muitas vezes Joxer fez companhia, ora silenciosa, ora nem tanto. Dissipou a solidão como uma fumaça ante a um sopro. Dissipou tristezas banais e horas tardias. Alegrou, deu trabalho, irritou, latiu, quase falou, choramingou, pediu, reclamou, mas sempre, sempre mesmo, nos recebeu alegre.
 
 

Preencheu espaços do apartamento, sonorizou o lar, dirimiu saudades. Ensinou-nos a cuidar. Ensinou meus filhos a lição fundamental de que toda vida requer cuidado e que quem ama cuida.

Uma balada para Joxer. Comporia para ele uma balada quase infantil, com seus latidos e afagos, com os risos dos filhos, as reclamações e arengas também, e especialmente com a solidariedade da sua companhia sempre disposta. Seria uma balada suave, dessas de não esquecer. Uma balada para um pequeno cometazinho dourado que entrou por nossas vidas e ficou na lembrança do coração e agora partiu para habitar o mundo mágico das lembranças, onde somos sempre felizes, onde os filhos não crescem, onde os jardins cheiram sempre o perfume da primeira namorada, onde a noite não é escura, onde o ladrão não entra, porque há um cãozinho guardando sua paz...
 
 

Joxer se tornou agora, como sempre sonharam meus filhos, um Atreyu de uma História Sem Fim, em sua busca eterna para a cura dos males que assolam a princesa do reino encantado da fantasia. Para mim retornou à sua Odisseia sem Ulisses que agora só, aguarda em Ítaca, alguém para festejá-lo na sua espera.
 
 

Uma balada, mesmo de saudade, não deve ser obrigatoriamente triste. Num quintal, entre pequenas plantas verdes, algumas flores ermas, um pequeno arbusto, repousa o pequeno guerreiro. O vento, nas madrugadas, pode tocar os sinos dependurados no orvalho das plantas, soltar suas gotas de cristais, não de lágrimas, e emitir as notas musicais para essa balada, suave e lenta. O vento toca então, desde então, uma canção, uma balada para Joxer.

 

Assuero Gomes


Médico e escritor

 

domingo, 6 de outubro de 2013

sexta-feira, 4 de outubro de 2013