segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O rosto de Deus em Maria, por Marcelo Barros





O rosto de Deus em Maria

A devoção mariana na teologia cristã
Marcelo Barros[1]

Em toda a América Latina, o povo católico se caracteriza pela devoção a Maria, venerada sob os mais diversos títulos. Muitas destas formas, como Nossa Senhora da Conceição, de Lourdes, de Fátima, vieram da Europa e outras nasceram neste continente. Sinais desta devoção são os inúmeros santuários, espalhados de norte a sul, como centros de peregrinação: Guadalupe no México, Copacabana na Bolívia, Aparecida no Brasil e tantas Igrejas dedicadas a Maria em todos os rincões de nossa pátria grande latino americana. 
 Tradicionais devoções a Maria encontram oposição em setores de Igrejas evangélicas[2] e resistência em alguns raros ministros e fiéis da Igreja Católica que sentem essas formas de piedade como desvios do verdadeiro cristianismo, compreendido como relação filial com Deus através de Jesus Cristo, único Salvador e mediador entre Deus e a humanidade. A devoção mariana popular seria pura superstição, sintoma de ignorância religiosa e idolatria. Vale a pena verificar o que há de verdade de um e outro lado e procurar compreender mais profundamente o caminho religioso do povo.

1.     Muitos afluentes do mesmo rio

Quem olha o conjunto de textos que falam de Maria em todo o Novo Testamento pode se surpreender com o fato de serem tão poucos. Fora os relatos agrupados nos capítulos 1 e 2 de Lucas e de Mateus, só se menciona Maria em breves passagens de João 2 e 19. Além disso, uma alusão na carta de Paulo aos gálatas (4, 4 ss) e nada mais. Hoje, muitos católicos acham que os evangélicos que não aceitam a devoção a Maria deixam, por isso, de ser cristãos ou estão simplesmente errados. Esquecem que cristãos da primeira geração como São Paulo, São Marcos e São João, com suas comunidades, não parecem ter conhecido a história da concepção de Jesus em Belém, por ação do Espírito Santo. Não conheceram nenhuma forma de devoção a Maria, nunca se referiram a ela como Virgem Mãe e isso não diminui em nada a profundidade de sua fé cristã.
A sobriedade dos textos bíblicos sobre Maria contrasta fortemente com a enorme quantidade de lendas, imagens, histórias de aparições e milagres que esses 20 séculos de cristianismo foi acumulando. Com o decorrer dos tempos, a Igreja foi aprofundando os diversos aspectos de sua fé, procurando relacioná-la com as culturas e sensibilidades dos povos aos quais os cristãos começavam a anunciar o Evangelho.
A devoção mariana é como um rio formado por diversos afluentes. O primeiro veio é a tradição bíblica e cristã da memória da mãe de Jesus com a qual a comunidade cristã se identifica. Conforme o Evangelho, a própria Maria cantou: “Todas as gerações me proclamarão bendita porque o Todo-poderoso fez em mim maravilhas”(Lc 1, 48- 49). (quando??).
As Igrejas cristãs começaram a cumprir essa profecia e bendizer a Deus pela graça dada a Maria. O próprio Martinho Lutero, reformador que deu origem ao protestantismo, era grande devoto de Maria e dedicou uma de suas obras ao cântico de Maria (Magnificat). O que as Igrejas evangélicas não podem aceitar é que certa piedade católica construa uma teologia sobre Maria que a coloca quase igual ao Cristo ou em alguns relatos populares até mais do que ele. Certas tradições católicas a chamam de “corredentora”. É preciso voltar à doutrina do Novo Testamento: “Há um só Deus e um único mediador entre Deus e a humanidade: Jesus Cristo” (1 Tm 2, 5). Os catecismos e pregações responderam à polêmica suscitada pelo culto mariano fazendo distinções entre “adoração a Deus” e “veneração a Maria e aos santos”. Depois do Concílio, a Igreja Católica procurou expressões mais sóbrias para a devoção a Maria e ligou-a de forma mais íntima à própria piedade ao Cristo. Entretanto, para muitas pessoas do povo, este discurso continua distante e incompreensível. Concretamente, no mundo inteiro e também no Brasil, há muito mais templos e santuários dedicados a Nossa Senhora do que ao próprio Jesus e menos ainda a Deus Pai. 
Essa situação tem raízes na história e a própria hierarquia católica tomou consciência de que, em certos períodos da história, falhou quando deixou a Bíblia e a Teologia só com o clero e ao povo restou apenas a devoção tradicional, muito misturada com crenças e costumes pré-cristãos. Este tipo de sincretismo não é novo. Acontece desde o mundo antigo.
No Oriente Médio, os mitos helênicos falavam do deus iraniano Mitra que nasceu de uma virgem em uma caverna, à meia noite de 25 de dezembro e foi adorado por magos[3]. Os cristãos polemizaram com os adoradores de Mitra, dizendo que quem viveu essa história foi Jesus. Quando o cristianismo entrou no norte da Europa, encontrou os cultos celtas a uma deusa chamada “Rainha do Céu”. Não demorou muito para que os celtas convertidos ao cristianismo dissessem que a verdadeira “Rainha do céu” é Maria, a Mãe de Jesus. Assim, cada vez que o cristianismo se inseriu em uma região, assumiu a cultura e procurou traduzir as crenças que lhe eram anteriores de uma forma compatível com a fé cristã. Na América Latina, os missionários católicos encontraram diversos cultos à Terra Mãe que, pouco a pouco, foram substituídos ou encampados pelo culto à Virgem Maria[4]. O mesmo se deu em outros lugares com o culto à deusa Lua. O culto azteca à Tonantzin foi incorporado na figura e no culto à Virgem de Guadalupe. Esse fenômeno é ambíguo porque, muitas vezes, se deu como uma forma de esvaziar o mito ou rito aborígene ou ancestral substituindo-o pela devoção católica dominadora. De outro lado, acabou em alguns casos, sendo expressão quase natural de inserção do cristianismo nas culturas. No caso de Guadalupe, a devoção a Maria pode ter sido pensada para substituir adequadamente o culto a Tonantzim. Com o tempo, os índios se apropriaram da devoção mariana e através dela conseguiram expressar sua cultura com seus valores próprios, de outro modo condenada pelos colonizadores.

2 – A Bíblia e a devoção a Maria

O Novo Testamento é uma releitura do Primeiro Testamento à luz da vida e das palavras de Jesus Cristo. Quando Lucas conta no primeiro capítulo do seu Evangelho, a anunciação do anjo a Maria e a visita de Maria a Isabel (Lc 1, 36 ss), ele tem, como pano de fundo, páginas de profetas. Se se compara o relato da anunciação em Lucas com o capítulo 3 do profeta Sofonias e o seu relato da visitação ao 2º Sam 6, chega-se a uma conclusão: Para o Evangelho, Maria é a nova figura da comunidade crente. É o símbolo do Israel pobre, fiel a Deus e, ao mesmo tempo, da humanidade nova. Maria sintetiza em sua pessoa a vocação do seu povo e dos crentes da nova aliança. Ela é em pessoa a realização plena do que os profetas antigos chamaram de “virgem, filha de Sião”, referindo-se a todo o povo fiel (por exemplo: 2 Rs 19, 21; Jr 31, 4 ss; Is 52; Sof 3, 12 ss).
Maria sintetiza a história do Israel fiel à aliança e é parábola da humanidade renovada e resgatada por Deus.
Na leitura da criação, narrada no Gênesis, podemos dizer que a mulher é a obra com a qual Deus culminou sua ação criadora. Em muitos textos bíblicos, a mulher é simplesmente figura da humanidade inteira em sua relação com Deus, como a esposa com o seu marido. O Apocalipse aproveita imagens de profetas e diz: “Apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida do sol, com a lua debaixo dos pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas” (Ap 12, 1). Por trás desta imagem, está o simbolismo de mitos antigos e apresenta uma vitória da comunidade cristã que enfrentava o martírio e as perseguições. A tradição da Igreja viu nesta figura da comunidade grávida do Messias a imagem de Maria sua mãe.
Mesmo quando a hierarquia católica proclamou dogmas cujo conteúdo não têm fundamento estrito na Bíblia, teve a preocupação de ligar com o princípio básico da fé bíblica. Quando, em 1854, o papa Pio IX, mesmo sem fundamento explícito na Bíblia, proclama como verdade de fé que Maria é a única criatura que foi concebida sem pecado, o ensinamento oficial e as orações da festa de 08 de dezembro, dizem claramente: “em previsão dos méritos de Jesus Cristo em sua cruz, Deus a preservou do pecado original”. Isso quer dizer que, com Maria, aconteceu antes, antecipou-se, a salvação que, pela cruz de Jesus, nós todos recebemos. Maria não é diferente de nós a não ser pelo fato de que ela foi salva por antecipação para ser figura desta humanidade santificada. Do mesmo modo, quando, em 1950, o papa Pio XII torna dogma a assunção de Maria ao céu com corpo e alma, está dizendo que já ocorreu com ela o destino de todos. Nós oramos no Credo: “Creio na ressurreição da carne”. É exatamente isso e não um privilégio próprio, dado pela santidade dela ou por algum mérito diverso. Maria, como mulher, é profecia do caminho de toda a humanidade salva por Deus através de Jesus Cristo, único salvador.  
    
3 – A fé bíblica e a devoção popular

O eixo mais fundamental da Bíblia é nos revelar que Deus tem um projeto para a humanidade: uma vida de comunhão com Ele. Esta comunhão que se chame aliança ou Reino de Deus supõe uma proximidade, uma relação de intimidade. É como um casamento. Ora, a imagem tradicional de Deus nas religiões - e infelizmente a Igreja Católica não soube superar esta cultura – é de um Deus todo-poderoso e distante das pessoas. Para se ter acesso a este tipo de Deus é sempre necessário um intermediário. É a mesma cultura que faz com que alguém do povo para ter acesso a um governador ou presidente, precise de uma espécie de advogado, ou o que na gíria política, se chama “pistolão”. Quando se entende Deus assim, é claro que se torna importantíssima à devoção a Maria e aos santos. Ariano Suassuna consegue traduzir muito bem isso na peça: “O Auto da Compadecida”: Os pobres pecadores morreram e estão sendo julgados pelo próprio Jesus. Vêem-se condenados por seus pecados. Diante desta realidade o diabo exulta e Jesus parece que nada pode fazer. Ao se verem mandados ao inferno, João Grilo, o mais esperto, apela para a Compadecida. E o demônio, que parecia enfrentar com força o Filho, não consegue resistir diante da Mãe. Essa é exatamente a teologia da devoção popular, estranha à teologia oficial cristã.
Exposta desta forma direta e rude, pode parecer uma heresia. Maria é vista como uma deusa e simplesmente toma o lugar do Cristo. São os resquícios dos cultos pré-cristãos à Pachamama ou à Deusa Terra que subsiste no inconsciente coletivo. Mas, esta mesma realidade pode também ser vista de forma mais ecumênica e compreensível. Exatamente, por ter sido educado olhando a Deus como transcendente e distante, o povo simples do nosso continente não é diferente do povo bíblico do primeiro testamento.
Para ouvir a palavra de Deus, o povo bíblico precisava do que a Bíblia chama de “Anjo do Senhor” que não era exatamente o mesmo que a cultura popular chama de anjo (O anjo Gabriel, Rafael, etc). O “Anjo do Senhor” no Êxodo 3 ou no livro dos Juízes se mistura com a própria pessoa de Deus. É como uma emanação mais visível do Deus transcendente. É uma imagem ou expressão da presença de Deus. Em outros lugares, os textos chamam de “Glória do Senhor” o sinal visível da presença de Deus. Como  no Êxodo, a nuvem que desce sobre o monte Sinai quando Deus fala (Ex 19) ou a tenda na qual o povo consulta o Senhor. Quando os israelitas acolhem e reverenciam a tenda, a arca, a nuvem ou o vento, sinais da presença divina, não é nenhum desses elementos em si que eles adoram e sim o Senhor presente através deles. Poderíamos dizer a mesma coisa a respeito da devoção mariana no catolicismo popular. Também Maria e outros santos da devoção popular são sinais desta presença de Deus mais próximo e fazendo aliança com o povo. É como se, já que Deus em si mesmo não parece parceiro de aliança, uma Nossa Senhora qualquer é a sua imagem e expressão. Quem relê a história da aparição da Virgem ao índio Juan Diego, em Guadalupe, pode comparar as palavras e sinais que a Virgem dá ao índio com a forma como Deus (ou como diz o texto bíblico: o Anjo do Senhor) fala e age quando aparece a Moisés na sarça ardente (Cf. Ex 3). Muito mais do que Maria, mãe de Jesus, as pessoas que veneram a Virgem estão vivendo a aliança com Deus, representado nesta imagem feminina e maternal.
Uma leitura da Bíblia fundamentalista e ao pé da letra chama isso simplesmente de idolatria e lembra que Deus ordenou: “Não façam imagens de mim”. Mas, a interpretação mais comum da teologia cristã católica e mesmo protestante é que Deus quis falar palavras humanas, e por isso históricas: situadas em um contexto determinado e que valem para tais situações e não para outras. No mesmo livro do Êxodo no qual ele dá o mandamento de não fabricar nenhuma imagem (Cf. Ex 20), ele manda Moisés fabricar dois querubins de ouro e pô-los sobre a arca da aliança (Cf. Ex 25, 18). Também no deserto, diz ao povo para que adore uma Serpente de Bronze, ídolo cananeu (Cf. Nm 21, 8). Sem dúvida, na Bíblia, aparece claro que a única imagem verdadeira e legítima de Deus é o próprio ser humano, feito à imagem de Deus e que, em sua vida, tem como vocação, não só ser imagem, mas tornar-se verdadeiramente semelhante ao seu criador (Cf. Gn 1, 26). Entretanto, como as pessoas, em sua cultura, necessitam de imagens e de mediações materiais, Deus concede aquelas que não o alienam e o afastam do verdadeiro projeto de Deus que é uma humanidade nova em um mundo justo e fraterno. ( Não ficou claro, concede o que?)Toda religião, mesmo a Igreja mais pura e cuidadosa em cumprir o Evangelho, quando ela se considera um fim em si mesmo no lugar de ser simples instrumento do Reino de Deus, se torna idólatra: no lugar de ajudar as pessoas a se aproximarem de Deus e do seu projeto, as distanciam.
Parece que há imagens que Deus rejeita porque alienam e afastam o povo do seu caminho de fé e libertação. É o caso do bezerro de ouro (Ex 32). E há outras que Ele aceita como expressão cultural. À medida que a devoção a Maria não for absolutizada e for cada vez mais referenciada ao Evangelho e a fé em Jesus Cristo, ela é válida como expressão da devoção ao rosto maternal do próprio Deus e como imagem de toda a humanidade resgatada pelo Senhor.




[1] - Marcelo Barros, monge beneditino, teólogo e escritor, é coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e assessor dos movimentos populares e comunidades eclesiais de base. É autor de 45 livros dos quais, "O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: irmarcelobarros@uol.com.br
[2] - Refiro-me às formas habituais de devoção popular a Maria. Nos últimos anos, uma Comissão Internacional Ecumênica, constituída de pastores/as e teólogos/as da Igreja Católica e de diversas Igrejas evangélicas e ortodoxas trabalharam um texto de acordo sobre Maria e o seu lugar na obra da salvação. Esse documento atesta que sobre o essencial da doutrina e da cultura cristã, católicos e evangélicos estão de pleno acordo sobre a teologia mariana. Cf. GRUPPO DI DOMBES, Maria nel disegno di Dio e nella comunione dei santi, in IL REGNO, documenti, n. 809 e 810, 15 febbraio e 1 marzo 1998, (ver segunda parte no número de 1 marzo pág 181).
[3] - Cf. G. SFAMENI GASPARRO, Mithra – Mithraïsme, in Dictionnaire Encyclopedique du Christianisme Ancien, Paris, Ed. du Cerf, 1983, tome 2, p. 1654- 1655.
[4] - Cf. VICTOR CODINA, Teologia Simbólica de la Tierra, La Paz, Ed. CPP, 1993 (ver especialmente o capítulo II).  

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O inferno


A Propósito | Marcelo Alcoforado

                                       

 

 

O inferno

 

O Maranhão estarrece o mundo. Pedrinhas apedreja a civilização ao se fazer palco de espetáculos dantescos em que pescoços são cortados na guilhotina do banditismo cada vez mais desenfreado. Na capital do estado, em uma das cenas mais horripilantes, uma menina na inocência dos seus seis anos, é queimada viva. De dentro da penitenciária, celulares à mão dos chefes, as ordens para as atrocidades cada vez mais chocantes. Como saldo brutal, mais de 60 mortos, muitos decapitados, infelizes protagonistas de em enredo que chocaria até se fosse ficção.

Em 2011, há dois anos, portanto, a média diária de homicídios no Brasil era de 137 pessoas. Repita-se: 137 pessoas assassinadas todos os dias, inclusive sábados, domingos e feriados. Sabe o que isso representa? É, o equivalente a um Carandiru por dia.

Um Carandiru todo dia!

Chama a atenção o fato de que, ressalvadas as exceções, poucos gritam. Seria bom se houvesse protestos com a mesma indignação dedicada aos militares que invadiram a famosa prisão paulistana.

Fatos como os acontecidos no Maranhão e nas favelas cariocas, só para ficar em dois exemplos, só acontecem em países periféricos. O Brasil é rico, é uma das maiores economias do planeta — você pode contrapor —, mas é um rico mal-educado, selvagem, desses que incomodam o vizinho, que cospem no chão, que guardam uísque no refrigerador...

Países civilizados guardam os seus presos. Trata-os com respeito, mas não toleram indisciplinas, muito menos assassinatos, essas coisas do gênero, tão corriqueiras por aqui. Mas há países em que ainda existe a pena de morte, você pode, mais uma vez, redarguir, então é o caso de perguntar: quem disse que no Brasil não há pena de morte? É só ver o caso do Maranhão. Um pequeno grupo ou talvez uma pessoa decidiu quem morreria naquele presídio, ao passo que a criança incinerada teve sua morte decidida por um menor, desses inimputáveis e, assim, impuníveis, que decidiu atear foto à única saída possível do ônibus.

A causa de tudo isso não deve ser dinheiro, supõe-se. Afinal, enquanto as cabeças rolam, o governo maranhense cuidava de adquirir lagosta, caviar, uísque escocês 12 anos e champanhe francês para os almoços e jantares palacianos que, aliás, serão servidos em pratos e taças de cristal e talheres de prata.

Maria Antonieta não faria melhor.

 

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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Vestida como uma noiva... Jerusalém


 

Vestida como uma noiva... Jerusalém

 

Como há muito tempo não se via, nem se ouvia, nevou muito sobre Jerusalém. Bela e rendilhada veste de noiva com seus adereços e fímbrias brancas; como à espera do noivo no dia de suas núpcias.
 
 

Um véu de neve, cobria-lhe as faces morenas com seus brincos dourados e lábios rubros, como uma virgem cobiçada desde tempos imemoriais. Posso ouvir por entre suas nuances os clamores de Isaías que anunciam essas bodas eternas, como também escuto o arauto que anuncia de Patmos, João, que és a noiva descida do céu para desposar teu Criador, e que em ti já não haverá choro, nem lágrima, nem sofrimento, nem trevas, pois teu esposo será a tua luz e será a tua paz.

A mais importante das cidades do mundo, para onde convergem os povos, as orações, as esperanças, para onde a fé nesse Deus único atrai o olhar e o coração da humanidade, está vestida de noiva. A cidade do Rei, a cidade de Davi. A cidade da nação judaica.

Jerusalém, Cidade da Paz, Sião, Lareira de Deus, Cidade de Justiça, Santa Cidade, Cidade do grande Rei, Cidade de Davi. Quantos nomes te são evocados, quão preciosa és!
 
 

Misteriosa noiva, a qual vive e habita nos corações de todos os teus filhos e filhas, que espalhados pelo mundo como grãos de areia nas praias longínquas, gemem de saudade de ti, esperando a cada ano, pelo menos uma vez, estar na tua casa. Filhos e filhas que mesmo distantes, te levam no coração e te habitam, sempre, em cada oração silenciosa, em cada celebração, em cada ensinamento.
 
 

Noiva de Deus, que está incrita definitivamente na sua mão direita, Ele que conta cada uma de tuas lágrimas e cada um de teus sorrisos, reveste-te pois de paz, e ensina ao mundo a convivência fraterna entre povos, especialmente àqueles que adoram o mesmo Deus de Abrahão, Isaac e Jacó, do profeta Maomé, de Maria e de José.
 
 

Yerushaláyim, em teus mais de 6.000 anos, tentaram te destruir duas vezes, sitiaram-te 23 vezes, atacaram-te 52 vezes, foste capturada e recapturada 44 vezes, e enquanto o tempo passa e fenecem as obras humanas, tu brilhas acima dos montes da Judeia e iluminas a fé dos povos.
 
 

Como uma noiva graciosa, recebe de braços abertos nas tuas muitas moradas, a todos que te admiram, teus visitantes para as festas das bodas eternas, recebe-os com carinho e alegria, a todos que oram por ti, na paz, na harmonia, na convivência humana fraterna.

Shalom!

 

Assuero Gomes

Médico e escritor