quinta-feira, 17 de julho de 2014

Um ninho vazio...








Um ninho vazio

É sempre bom lembrar que um ninho vazio está sempre cheio de ar como parecia no vinho da canção. Um ninho vazio nunca está vazio, está cheio de amor.
Feito de palhas de berços esquecidos, brinquedos amarelados, rasgos de fotos e de lembranças, mesmo vazio o ninho está cheio de saudade. Meio dor, meio alegria, sempre aberto o ninho se sustenta na árvore e sobrevoa no vento do tempo, olhando com a boca aberta para o infinito azul do céu. Meio esperança, meio desespero.
O ninho vazio é feito de bonecas, quebra-cabeças inconclusos, livros de tarefas inacabadas, e dessas fotos impressas no coração, de momentos e de eternidades.
O ninho contém em si a volta e a partida. Foi construído com pedaços de si, aos poucos, aos poucos, entre metade de sorrisos e febres noturnas, tosses e noites mal dormidas e manhãs bem-vindas. Em si, em si mesmo o ninho tornou-se eterno. Enquanto durar o casal, enquanto durar a árvore e o céu, e a lembrança viajante dos que ousaram voar com as asas próprias dos humanos. Nem mais anjos, nem mais animais, apenas humanos.
É sempre bom lembrar que no ninho vazio dormiremos nosso sono, e nossos sonhos. Nele veremos a derradeira visão, a derradeira manhã e a última noite; mas é sempre bom lembrar que antes disso, a cada ciclo de voo os ninhos se enchem de novo, mesmo fugazes, serão novamente alegres, novamente cheios, novamente felizes.
Mesmo vazios os ninhos nunca se desfazem. Contorcem-se, gemem silenciosos, choram orvalhos de madrugadas, cintilam brilhos de estrelas, oram. Jamais se desfazem. São a habitação do infinito, a morada do essencial, são a própria morada do humano. Ali a humanidade renasceu, se refez, se libertou e ganhou vida pela Terra.
É sempre bom lembrar que um ninho vazio está sempre cheio de amor, como no princípio.

Assuero Gomes

Médico e escritor.