terça-feira, 23 de junho de 2015

O Encontro. (baseado em uma história real)


O Encontro
(baseado em uma história real)



Durante alguns anos de sua vida o padre vivenciou uma vida de fé, servindo numa paróquia de periferia em um dos morros do Rio de Janeiro. Muito jovem, ligado aos ideais das lutas sociais e religião, teve uma bonita e profunda formação teológica cristã engajada. Oriundo de família pobre do interior de Minas, conseguiu a muito custo se ordenar. A designação para trabalhar na comunidade do Morro foi o coroamento do sonho que sempre idealizara, desde os primórdios da vocação. Servir ao pobre e libertá-lo.
Um difícil sonho de ser sonhado e que muitas vezes tornou-se como um pesadelo, pois a violência, como a besta do Apocalipse, tentava devorar a tudo e a todos.
Ameaçado constantemente por traficantes, pelo descaso dos programas do governo, por falta de incentivo da própria comunidade amedrontada, esse padre tinha um grande consolo. Ao final de cada tarde, antes de celebrar, ele se punha de joelhos em frente ao sacrário improvisado na capelinha, e sentia a presença do Ressuscitado, quase que falando fisicamente com ele.
Passando o tempo, o padre foi se revoltando com a falta de ‘sucesso’ de sua pastoral. Desanimado, foi se sentindo impotente, abandonado, diante de seu ‘fracasso’, pois os jovens na sua maioria se entregaram às drogas e à prostituição.
Teve seu barraco e a capelinha incendiada, denunciou à polícia, sem êxito, pois a própria corporação policial evitava o confronto direto naquela localidade. Desesperou-se. Procurou reunir o pessoal do Morro, procurou falar com alguns políticos, sem nenhum sucesso. Enfim, numa tarde, talvez uma das últimas, ele conversou com Ele: “estou cansado, muito cansado. Não vejo nem Tu ajudar-me. Vou embora. Cuida desse rebanho que é Teu”. Nesse dia não sentiu nenhuma resposta.
Mudou-se, entregou a capelania, com o tempo foi ser ativista político e ensinar numa escola pública, casou. Os anos se passaram. Perdeu a fé.
Um novo padre, recém-ordenado, retomou o trabalho pastoral naquele local. Aos poucos obteve algum sucesso, uma meia dúzia de jovens e algumas senhoras idosas, passaram a frequentar assiduamente a capela, que foi restaurada. Muito sacrifício e dedicação da mesma forma que seu antecessor, muita resistência também.
Ultimamente um homem, de certa idade, cansado e melancólico sobe ao morro quase três vezes por semana e vai ficar perto do sacrário da capelinha restaurada. Fica olhando e olhando, fitando o infinito, com olhos vazios. Senta-se em frente, num tamborete de lá mesmo, e assim permanece por mais de meia hora.  
O padre atual, que não lhe conhecia, achou curioso e estranho que um homem viesse sempre ali e ficasse parado e mudo, olhando fixamente para onde se guardam as hóstias consagradas. Um dia perguntou ao estranho: - por que?
Ele lhe contou sua história em poucas palavras e disse, para espanto do novo padre “venho aqui pela saudade do Encontro”.

Assuero Gomes
Cristão católico leigo da
Arquidiocese de Olinda e Recife


quarta-feira, 3 de junho de 2015

A jabuticabeira e a videira





A jabuticabeira e a videira

Assuero Gomes
Médico e Escritor




Jabuticabas nascem diretamente do tronco e das raízes. Uvas nascem de ramos dos ramos. Ambas frutificam ao sol. São doces. Dão-se em vinhos e licores. Alegram o corpo e o espírito.
A jabuticabeira (Myrciaria cauliflora) e a videira (Vitis vinífera) são belas e distintas.
A jabuticaba quando arrancada da planta, logo se acidifica, devendo ser fruta para ser apreciada imediatamente à sua colheita, de preferência à sombra da sua árvore. A uva se mantém doce, mesmo tendo-se colhido há tempos.
A videira é universal, assim como a salvação, veio do oriente. A jabuticabeira nos foi dada pela Mata Atlântica brasileira, é universal também, no universo dos povos da mata do Brasil. Ambas alegraram e alegram a vida dos povos.

                                                               

                         
As pessoas são como frutos da Terra mãe, que recolherá suas sementes algum tempo após. As pessoas e seus povos frutificam ao sol. Algumas são doces e produzem vinhos e licores, e também mel.  Algumas pessoas são como as jabuticabas, vivem independentes ligadas sozinhas ao tronco ou às raízes. Outras são como as uvas, vivem em cachos, ligadas aos ramos dos ramos.
As sociedades podem ser como as jabuticabeiras ou como as videiras. Geram pessoas e suas entidades, como frutos isolados ou como cachos. Seus troncos podem ser únicos e centralizadores, ou podem se espraiar ao sol com mil folhas e gavinhas.
As pessoas das jabuticabeiras se tornam ácidas quando perdem o contato com o tronco. As da videira, mesmo longe e espezinhadas, trituradas e moídas no lagar da vida, estarão sempre unidas e darão um bom vinho e alegrarão a noite dos insones.
Entidades e religiões são como jabuticabeiras e videiras. As jabuticabas são ligadas a um único tronco e suas raízes. Procuram o sol e se penduram uma a uma numa escalada ao céu. Acreditam que há um só tronco e uma só salvação.
As uvas são ligadas entre si e aos ramos dos ramos e estes por sua vez aos ramos mais grossos e todos são a videira. Pesam uns para os outros, arriam, sustentam-nos a força da videira. Miram o céu, se banham de sol, mas estão perto da terra, sempre perto da terra, a um passo da terra e tão perto do céu.
As jabuticabeiras dão seus frutos como criações individuais e as videiras como criações coletivas. O sol e a primavera chega igualmente para ambas, o vento também, a noite desce com seus sinais luminosos para todas e a chuva, como uma bênção, espalha sua vitalidade como no jardim do Éden, na primeira manhã.