terça-feira, 3 de maio de 2016

O Inverso em desencanto (O fim de um breve partido)








O Inverso em desencanto


Um partido político, dito de esquerda, conseguiu em 13 anos o que a ditadura de Getúlio jamais sonhou nem tampouco os militares na época dos anos de chumbo, além disso conseguiu superar as expectativas dos magnatas banqueiros e das grandes construtoras com seus oligopólios.
Retraiu a Reforma Agrária e deixa um saldo de mais de 11 milhões de desempregados, uma inflação descontrolada e um déficit interno impagável. Consumiu empresas simbólicas da soberania nacional como a Petrobrás, Caixa Econômica, Correios, BNDES.

Corroeu a confiança de nações estrangeiras em nosso país. Um PIB negativo, uma saúde pública em estado de miséria. Os pobres que respiraram por alguns anos aliviados agora pagam o preço da corrução galopante e enraizada, enquanto os ricos estão mais ricos.

O que ele conseguiu e que nenhuma ditadura conseguiu até então, foi matar o ‘espírito’ da esquerda.
Seus líderes foram tragados pela volúpia do poder aparente que o dinheiro proporciona e a falsa impressão do absoluto, como um Luís XIV tupiniquim. O sistema corrompeu esses líderes e eles se deixaram corromper numa orgia perversa.

Muitos artistas, intelectuais, pobres, negros, índios, mestiços, minorias de gênero, teólogos, foram cooptados e se viram num alçapão que ao menor movimento de libertação sentem o peso do que é discordar do sistema que serve ao sistema maior.

Hoje militantes pagos passam em procissão como ovelhas à tosquia, com seus balidos sem eco.
Afogado na sua própria história não sabe o legado que deixará para a memória de um país em desencanto. Afogado, levou consigo outros partidos, abraçados nesse festim que eu chamo de a Festa de Pandora que atingiu seu auge em finais de 2014, para o fundo de uma piscina cheia de ratos, como diria o poeta.

A única vantagem, se é que há alguma, de se chegar a tal estado (ou seria Estado?), é saber que a libertação está próxima. O Brasil é muito grande e mal tratado, porém é imprescindível para um equilíbrio mundial. Abaixo do fundo dessa piscina, se não houver um sorvedouro maior e mais escondido, não há mais para onde descer.

Um mínimo de credibilidade e razoabilidade para se organizar o país em nível macro enquanto no dia a dia que as pessoas se organizassem em sistemas cooperativistas que respeitam as liberdades individuais e proporcionam ganhos justos a cada um conforme seu trabalho.

Pandora ao abrir sua caixa distribui benesses, bônus, carnavais, fogos de artifício, mas depois vai cobrar bem caro o valor dessa falsa festa.

O partido distanciou-se das bases seduzido pelo brilho do ouro, confiou naqueles que dizia repudiar, banqueteou-se com a comida envenenada da cobiça e bebeu do cálice da luxúria. Aliou-se com quem não podia e cego pelo brilho da opulência não viu sua ruína próxima. Levou consigo a utopia de milhões de pessoas trabalhadoras e hoje morre tristemente nesse maio, ‘sem retrato e sem bilhete, sem luar’ nem canção. Triste caricatura de quem foi um dia a personificação da esperança de um povo, de uma nação, como um último desejo.


Assuero Gomes
Médico e escritor