quarta-feira, 16 de agosto de 2017

45 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 45

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                                                   com D. Gílio na primeira Jornada Teológica

45 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 45




D. Cardoso era naquela época um homem de hábitos estranhos. 
Adorava café, porém só o bebia até meio-dia pois dizia que se tomasse após esse horário não teria sono. Mantinha um exemplar do meu livro "Réquiem para um Bispo" na estante da sua sala no Palácio dos Manguinhos, e aliás, havia também um exemplar no Colégio Pio Brasileiro em Roma.
Mais estranho ainda, o nosso bispo só tomava cerveja quente (ao natural). Uma vez voltando de carro de uma viagem longa do interior de Pernambuco, se não me engano de Afogados da Ingazeira, pararam no meio do caminho, num bar desses de beira de estrada, já de tarde, muito calor, com fome e sede, e ele se dirigiu ao garçom "me traga uma cerveja, só se estiver quente, a mais quente que o senhor tenha", o garçom ficou pensando tratar-se de alguma brincadeira, mas ele insistiu seriamente. Pois bem, trouxeram-lhe uma cerveja bem quente e ele tomou. A pessoa que estava com ele perguntou por que ele gostava de cerveja quente, a resposta foi a mais inusitada possível "eu aprendi com os animais. Quando eu era bispo de Paracatu, depois do almoço eu me sentava no terraço e via os bois vindo beber água nas poças da rua em frente de casa".
Seus bispos auxiliares D. Hilário Moser (salesiano) e D. João Terra (jesuíta)  não aguentaram muito tempo a companhia. O primeiro mudou-se logo para o seminário e vivia humildemente longe de D. Cardoso. Certa vez fui buscá-lo para um encontro de Igreja e fui abrir a porta do meu carro, ele me disse "meu filho, não precisa, eu sou simples, lavo meu próprio banheiro..." sofreu muito aqui. Depois foi ser bispo na diocese de Tubarão em Santa Catarina.
A irmã de D. Cardoso chamada Judite era quem administrava o Palácio e as más línguas diziam 'a Arquidiocese'.
O caso de D. João Terra é mais complexo e merece uma narrativa mais completa.

domingo, 13 de agosto de 2017

44 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 44



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Félix no lançamento







Edmílson, Patrícia e Débora



44 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 44



Réquiem para um Bispo, foi o título do livro que lancei em 1997. Meu segundo livro. Foi lançado na Bienal Internacional do Livro aqui em Pernambuco, no Centro de Convenções. Qual não foi a minha surpresa com o presente que Pe. João Pubben me deu: primeiro que qualquer um, antes mesmo de iniciar estava lá Pe. João e D. Helder para comprar o primeiro e segundo livro ! Muita emoção. Pena que não tenho nenhuma foto desse encontro. Muita honra e alegria.
Esse livro passei mais ou menos  uns dois anos para escrevê-lo. Inspirei-me em histórias reais de pessoas amigas e outras nem tanto e teci uma trama, contada em quatro níveis de entendimento.
Pode-se ler apenas como um romance novelesco, pode-se ler pulando os capítulos as histórias das personagens, pode-se ler ainda como uma discussão filosófica e ainda como um pequeno tratado de visões teológicas.
Padre Arnaldo disse que o padre Daniel Lima o leu o o considerou excelente (nunca o conheci pessoalmente). Essas personagens do livro são todas baseadas na realidade, como já disse, a maioria já está no aconchego do Pai. Lá estão inspirações de D. Helder, D. José Cardoso, D. Francisco Austregésilo, D. José Maria Pires, Luiz Antonio, frei Aluizio (que escreveu uma belíssima contra-capa), Edmilson Furtado, Fernandinho, Antonio e Helena, Ivone Gebara, Strieder, o pessoal do Igreja Nova, minha sogra, esposa, filhos, Reginaldo Veloso, Paulo Teles de Menezes, o pessoal do Morro da Conceição, D. Paulo Evaristo Arns, dos vigários de D. Cardoso, de Romeu, Edwaldo, Arnaldo, José Augusto, Cremildo o eterno monsenhor, D. Abade....
A história se inicia com o falecimento de minha sogra e termina com o nascimento da minha filha. Há um fio de narrativa que consiste na obsessão pastoral e administrativa de D. Acab (o arcebispo da história) querer construir na igreja de Olinda e Recife um grande cemitério... um padre pensou que era verdade e veio me perguntar se D. Cardoso estava querendo mesmo construir um cemitério exclusivo para católicos praticantes... ri muito.


sábado, 12 de agosto de 2017

43 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 43



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43 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 43



Continuando com a reflexão anterior, no dia 28 de agosto de 1999 cheguei pela manhã na Igreja das Fronteiras e havia muita gente já ao redor do esquife do Dom que estava perto do altar.
Vou postar minhas fotos pessoais:




Ao centro está Maninha (Nair Camara), à direita Irmã Catarina e à esquerda Zezita.

A igreja das Fronteiras já estava cheia desde essa hora:



Lá fora na rua Henrique Dias também começava a se aglomerar seus admiradores:



O cortejo fúnebre saiu à tarde, com o pessoal indo a pé na sua maioria, pela Rua D. Bosco, Av. Agamenon Magalhães, Olinda até a Sé.





Ao chegar na Catedral da Sé houve um pequeno contratempo pois nem todos puderam ver o sepultamento de perto devido a total falta de espaço. Apenas algumas pessoas. Notem que o caixão foi envolto com a bandeira do MST:



Posso identificar o padre Josenildo em primeiro plano e lá atrás Pe. Albérico, mas foi grande a quantidade de padres e religiosos, leigos, diáconos, mesmo aqueles que o perseguiram, D. Helder conseguiu unir a todos.

Estive no seu sepultamento (no chão da nave central em frente ao altar) e na sua exumação (26 de agosto de 2012) para o traslado de seus restos mortais para seu túmulo definitivo na mesma Sé de Olinda ao lado de D. Lamartine e do Pe. Henrique.

Registro minha eterna gratidão a D. Fernando Saburido, quando atendendo a um pedido, permitiu que a lápide que esteve tantos no primeiro sepulcro fosse levada para o jardim interno da Igreja das Fronteiras, um local que o Dom tanto apreciava e onde passou bons momentos de sua vida em oração e reflexão.





sexta-feira, 11 de agosto de 2017

42 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 42

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42 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 42



Participava tanto de encontros de grupos da teologia da Libertação quanto de Oficinas de Oração, Renovação Carismática, Encontro de Casais com Cristo. Boas amizades em uma caminhada constante. Cito Tarso e Zeza, Raimundo e Emília, Leonardo e Guilhé, Fred e Vilma, Bravo e Taciana, Oreste e Ana, Otávio e Virgínia, Mauro e Jaciara, Toni e Flávia, Newdão e Cândida, Zimone e Socorro.
Logo após a II Jornada D. Helder faleceu.
Quando cheguei às Fronteiras já estava muita gente na igreja com o velório ao centro. Há pouco tempo procurei averiguar com testemunhas presenciais os últimos momentos do Dom aqui na Terra, pois cada um conta uma história diferente e sempre diz estar presente nessa hora. Vou transcrever o artigo:
“Hoje é 27 de agosto de 1999. Pe.  Joãzinho  (João Pubben CM) acabou de sair para sua comunidade de Dois Unidos. Esteve aqui comigo, como sempre, quase o dia todo. Irmã Catarina (Catarina Damasceno FC) saiu para descansar. Pela manhã olhou para mim e eu olhei para ela, demoradamente. Estou sem falar. Não aceitei alimento algum. Alguma dor no abdômen que me incomoda. Ela disse a mim –Contou uma história não foi Dom? aí eu respondi ‘ FOI’. Essa foi a última palavra que disse, na minha última manhã. Agora é noite. Está tarde. Estou sereno. Minha cama foi colocada aqui na sala da minha casa na sacristia da Igreja das Fronteiras. É uma cama larga, de hospital. Quero dormir. Ao meu redor pessoas queridas, Zezita, minha cara secretária de tantos momentos (Maria José Duperron Cavalcanti), as irmãs de Caridade Maria José Dantas Coutinho, Leonete Custódio, Josefina Souza, Maria de Fátima Nascimento, Lucimar Pereira, Maria Emília de Barros, o enfermeiro e Gercino Rufino de França.
É noite e estou cansado. Irmã Josefina me pede para lembrar junto ao Pai, da Congregação das Filhas de Caridade, das irmãs, de todos. Como iria esquecer? Ah meus pobres, meu pobres. Catarina chega e está pedindo para levantar um pouco a cama. Rezam um Pai Nosso. Agora é noite. Já é 22h e 19m.”
Quando D. Helder abriu os olhos foi no Dia pleno.
Aqui, na nossa madrugada, Pe. João voltou correndo de Dois Unidos. Lucinha Moreira retornou apressadamente. Na Igreja da Sé em Olinda, Gilvan tocou o sino e avisou as pessoas que acorreram para ouvir a notícia ‘Dom Helder acaba de morrer’. Em seguida trouxe os paramentos que Paulo VI havia presenteado ao Dom para vesti-lo. Pe. Edwaldo Gomes chegou primeiro às Fronteiras, Pe. João Pubben em seguida e Pe. José Augusto Esteves. Mardônio Camara e Maninha (Nair Camara) que foi trazida às pressas do Rio, onde morava, haviam assinado um documento no qual expressavam formalmente o desejo de D. Helder de ser enterrado no mesmo dia e da maneira mais simples. Quando ela chegou pediu para ficar com o terço que estava na mão do Dom e que fora um presente de João Paulo II e entregou o seu próprio para por no lugar.
Quando cheguei, logo cedo, uma verdadeira multidão já estava na Igreja das Fronteiras e em toda a rua.
A missa foi celebrada por Jesus e presidida pelo Núncio.
Aqui a madrugada continua.


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

41 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 41


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41 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 41


Em 1999 realizamos a II Jornada Teológica, desta vez em diante chamada de D. Helder Camara.
Mais uma vez Frei Aluizio conseguiu o auditório da Fafire, na Conde da Boa Vista. Como da primeira vez foi um sucesso, tanto de público e principalmente de conteúdo. Ali a Igreja de Olinda e Recife reacendia sua luz. Foram em média mais de quinhentas pessoas por noite.
Eu havia começado a pensar nela um ano antes, desde o início da primeira. 
O nome de D. Helder abriu portas. Consegui patrocínio através do Frei, de João Pubben, Pe. Arnaldo, Pe. Renato do SCJ. 
D. Helder não pode comparecer por motivo de saúde já bem debilitado, mas Pe. João nos trouxe uma carta dele saudando a todos.
Muito trabalho para conseguir os palestrantes, pois a cada ano procurávamos superar o anterior. Minha ideia foi a de valorizar também a atração cultural pois uma coisa reforçava a outra, pensei em uma hora para cada e a palestra sem preguntas, mas fui vencido. Aos poucos o grupo foi diminuindo o tempo da apresentação e aumentando o das perguntas depois das palestras. Eu sempre temi a questão das perguntas após, pois na verdade as pessoas querem fazer outra palestra própria e aproveitar o holofote. Foi o que foi acontecendo e depois da palestra o auditório esvaziava e eu ficava constrangido de ter convidado pessoas ou grupos para apresentação cultural, que vinham com grande sacrifício, pois eram pessoas pobres na sua maioria e recebiam apenas um cachorro quente e um copo de refrigerante.
Leonardo Boff fez abertura falando sobre seu livro ícone Jesus Cristo Libertador, que muita gente pensava que dera início à teologia da Libertação, mas quem é o pai é Gustavo Gutierrez (ainda tentei trazê-lo por duas vezes, mas ele era cadeirante e com dificuldades de saúde, nunca veio).
A apresentação cultural foi da orquestra dos Meninos de São Caetano que vieram dessa cidade do interior com seus instrumentos, o maestro fundador e uma estudante de música (o maestro havia sofrido calúnias por represália política), lembro que teve alguém do nosso grupo que reclamou porque pagamos a gasolina do ônibus.
A segunda noite foi a vez de D. Gilio Felicio, um bispo negro, fundador do movimento dos agentes de pastorais dos negro e na época bispo auxiliar de Salvador na Bahia. Atualmente é bispo de Bagé. Um excelente pessoal, pastor de primeira ordem, o tema foi Teologia do Rosto Negro. e a apresentação foi um balé com a Missa Afro.
A terceira noite foi D. Waldyr Calheiros que atendeu um convite meu em nome de Pe. Arnaldo. Bispo de Volta Redonda, um cabra macho que enfrentou de peito aberto os militares daquela época em defesa dos trabalhadores. Dos bispos que conheci era o que falava de maneira mais aberta e numa linguagem bem simples.
A apresentação da noite que antecedeu a palestra foi o Quinteto de Cordas.
A quarta noite foi de Marcelo Barros com a palestra "Culturas em Comunhão Libertadora" e a atração cultural foi o Quinteto de Metais.
Para finalizar a II Jornada na sexta-feira, Frei Betto teve o tema "Fé, Política e Libertação" e a apresentação foi do Balé Perna de Pau. 
O espírito de D. Helder perpassou toda a Jornada, nas palestras, nas apresentações, no lançamento do livro Helder, o Dom, organizado por Zildo Rocha com artigos e reflexões de vários teólogos.
Ao final já estava pensando na próxima. Muito trabalho, muita inspiração e engajamento de todos. Foi a última com D. Helder entre nós... 








quarta-feira, 9 de agosto de 2017

40 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 40


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40 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 40


O grupo Igreja Nova tornou-se um grupo eclético. Havia pessoas mais dedicadas ao jornal, outras às jornadas e algumas ao curso de teologia para leigos que depois batizamos de 'D. Helder' e que constava de palestras semanais, como já relatei no início dessas postagens.
Havia um núcleo que trabalhava mais no sentido de se dedicar a todas essas vertentes. A ideia de se aproximar de D. Helder e de sua obra e do IDHEC foi muito feliz e rendeu muitos frutos. A luta contra os desmandos de D. Cardoso continuava porque ele também continuava, foram mais de vinte anos.
Os jovens foram ficando mais 'velhos' e com as novas condições de vida (família, trabalho, estudos) foram se afastando embora admirassem à distância o nosso trabalho. Permaneceu apenas Fernandinho. No grupo, como em qualquer grupo humano, inclusive entre os apóstolos (havia um núcleo mais próximo a Jesus, Pedro, Tiago e João, e que disputavam o poder) houve uma crescente tensão entre duas participantes e eram as duas que mais trabalhavam. Isso me preocupou muito e chegamos até a fazer um encontro com uma psicóloga para trabalharmos mais essa questão, porém foi infrutífero. Tensões sempre haverão, conflitos e disputas emocionais, isso faz parte da natureza humana, o problema é quando prejudica o coletivo.
O jornal ganhava credibilidade e tínhamos colunas, artigos, reportagens, notícias e 'centelhas' que mostravam o lado secreto das paróquias e da arquidiocese. Colaboradores de nome nacional e até internacional. A tiragem aumentava. A cada mês eu saía distribuindo nas bancas de revista da Av. Guararapes (Banca Globo), na Torre, em Olinda, nas editoras Vozes , Paulinas,Paulus, na Unicap, em algumas paróquias (Espinheiro, Torre, Madalena, Boa Viagem, Piedade, Pina, Brasília Teimosa, Morro da Conceição, Belém, Campo Grande, Várzea, Franciscanos da rua do Imperador), enviávamos para padres de outras dioceses Paraíba, Maceió, Natal, Rio de Janeiro, São Paulo, ainda para o Canadá, França, Alemanha.
Distribuía ainda em diversas congregações e ordens. Nas saídas das missas e nos encontros católicos.
Conseguimos criar uma identidade própria. Preocupado e pensando que iríamos mais longe ainda registrei a 'marca' Igreja Nova no Instituto de marcas e patentes, na época na Cidade Universitária, que me custou muito pouco.
Três coisas ainda me preocupavam como grupo cristão: não estava havendo adesão de mais ninguém (sinal de fechamento), a espiritualidade como grupo e a ação concreta em favor dos pobres. Em contrapartida tínhamos um sistema de organização anárquico (no sentido de governança) a princípio, e não tínhamos nenhuma ingerência político partidária, também a princípio.



terça-feira, 8 de agosto de 2017

39 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 39

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39 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 39 



Em agosto de 1995, estive, a convite do Pe. Luiz Antônio, em Juazeiro da Bahia, para a festa da sua padroeira N.Sra. das Grotas. Fomos de carro, eu Luiz, os seminaristas Hugo, Helio e Gilvan do seminário de João Pessoa. Muito chão, mas valeu a pena. Fomos além de festejar a padroeira, nos encontrar com D. Paulo Evaristo Cardeal Arns. Amigo pessoal e quem ordenou Luiz Antônio em São Paulo.
Uma viagem longa de carro, mas no caminho tivemos oportunidade de conversar bastante sobre nossas história de vida, o que rendeu ótimos capítulos do livro Réquiem para um Bispo.
Chegando na véspera, pude desfrutar da companhia de D. Paulo, na casa ´palácio´episcopal. Sentamos lá mesmo na cozinha e conversamos muito e ele mostrou alguns livros dele e eu mostrei o Jornal Igreja Nova. Fiz uma entrevista muito boa, que publicamos no número de setembro deste ano.
Na celebração estavam também o bispo de Juazeiro, é claro e D. Paulo Cardoso (irmão de D. Cardoso) bispo de Petrolina.
Vocês sabiam que o único lugar no mundo, que eu tenha conhecimento, onde existem duas dioceses tão juntas, separadas apenas por uma ponte e de onde uma avista a sede da outra é Petrolina e Juazeiro?
A entrevista constou de reflexão sobre a Nova Era (no auge desse movimento), sobre a esperança para a situação do país, sobre a questão de bispos nomeados descomprometidos com o povo, e uma mensagem para Olinda e Recife. Lembro de uma frase lapidar que ele disse 'creio sempre que o povo converte o bispo'.
Nesse tempo, é bom lembrar, havia esperança de um futuro melhor para o país, e acreditávamos piamente que o PT com a bandeira da ética e do compromisso com o direito, a justiça social e as reformas, traria uma luz para a nação...
Algum tempo depois, na casa de Antonio Carlos, tive oportunidade de conversar com Plínio de Arruda Sampaio e ele me dizia "Assuero, temos que tomar a direção desse partido das mãos daquele pessoal de São Paulo, estão se desviando, estão assaltando o Partido. Eu escrevi o estatuto de meu próprio punho e agora veja o que está acontecendo..."
Foi a última vez que vi pessoalmente tanto D. Paulo quanto  Plínio.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

38 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 38



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38 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 38



A vida de D. Helder é incrivelmente rica de detalhes, de histórias, de interações com a vida do outros. O que mais me impressiona nele (para mim ele continua vivo) é a coerência da sua pregação, da sua crença pessoal e da sua atitude de vida. Era o mesmo na intimidade como na vida pública. Extremamente pudico, praticava uma ascese toda própria ao submeter sua vida a uma rotina monacal.
Quando publiquei o livro Partindo de Emaús, certa vez sabendo que D. Helder estava na Matriz do Espinheiro com Pe. Arnaldo, peguei um exemplar e pedi para que o Dom escrevesse algo, uma espécie de dedicatória para mim mesmo para eu guardar. Ele olhou para mim, olhou para Pe. Arnaldo, olhou para o livro, olhou para cima, e depois de uns minutos escreveu apenas "+ Helder Camara".
Pe. Arnaldo depois comentou comigo 'estás pensando que o velho (o chamava assim de maneira carinhosa como a um pai) não está ligado nas coisas?' Como eu batia muito de frente com as atitudes de D. Cardoso...
Nesse dia (era de tarde) ele e padre Arnaldo ficaram esperando um casal que tinha combinado com o Dom para que batizasse o filho ali no Espinheiro. Pois bem, demoraram mais de três horas. Pe. Arnaldo já estava revoltado com a demora e o descaso do casal para com D. Helder, que nessa época já estava fragilizado. Queria suspender, mas o Dom não deixou, e com toda paciência recebeu a família e batizou a criança. Quem conhece Pe. Arnaldo sabe como era pontual. Nessa tarde ganhei um lenço que D. Helder deixou lá com Pe. Arnaldo.
Outro episódio interessante, acontecido bem antes, no qual o arcebispo argentino D. Jerónimo Podestá veio aqui ver e conversar e se aconselhar com o Dom. Veio acompanhado de Clelia, sua secretária. D. Helder chamou o Pe. Félix e pediu para que acompanhasse os dois enquanto aqui estivessem. 'Mostre a eles os mocambos e alagados, os morros. A periferia, mas mostre também o lado bonito da natureza, as praias'. Tudo bem. Félix foi com eles e assim fez. Não lembro agora qual foi a praia. Depois, quando voltaram, D. Helder perguntou ao padre se havia mostrado tudo, ao que ele respondeu que sim, mas que havia acontecido uma coisa estranha, pois no final o bispo entrou na praia com a secretária.... D. Helder não deixou ele continuar e disse, vamos rezar por eles.
Na verdade Podestá e Clelia vieram pedir conselhos ao Dom sobre o romance dos dois, ao que o Dom teria dito que iria rezar pelos três. 
Tempos depois assumiram publicamente, ele renunciou ao seu bispado na Argentina, conheci-os pessoalmente quando vieram uma segunda vez. Clelia veio outra vez e lançou um livro. 
Ele tornou-se um dos raríssimos casos de bispo casado, defendeu o movimento dos padres casados, mas além de tudo foi um grande nome na Igreja da América Latina. Morreu pobre e esquecido e o único membro da Igreja Católica que foi visitá-lo no hospital em Buenos Aires (2000) foi Jorge Mario Bergoglio. 


 





domingo, 6 de agosto de 2017

37 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 37



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37 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 37



Toda essa experiência de Igreja me proporcionou muita luta, muita preocupação, um pouco de sofrimento, mas muitas alegrias. Foram muitas as alegrias. Conheci pessoas maravilhosas, engajadas que embarcaram nessa aventura de viver igreja de uma maneira nova sem nunca perder o vínculo de batizados que somos.
Nessas andanças recebi convite para me filiar (é assim que se diz?) à Igreja Ortodoxa Síria pelo falecido Enéas Alvarez que me disse 'se é por tradição nós somos mais antigos ainda' de outra vez para a Igreja Anglicana, convites que muito me honraram, também lá em Brasília Teimosa para entrar na Assembleia de Deus (há mais de trinta anos). Algumas vezes ouvi 'vocês católicos tem uma questão de ficar ligado à Igreja Católica, tanta energia gasta nessa luta, poderia está na nossa, teria programa de rádio e jornal para escrever à vontade'. Eu sempre dizia, 'já tenho a minha, nasci nela pelo batismo e vou morrer nela. Problema por problema a minha já tem e eu os conheço'. 
Pela Igreja conheci e fiz muitos amigos e amigas, poderia me arriscar a citar inúmeros (não como na lista de 10 amigos de Oswaldo Montenegro) pedindo perdão antecipado pela memória. Fernando Brito (que tornou-se meu irmão), Paulo André, Lucinha, Josias, Alejandro, Sávio, Edênia, Fábio, todos do grupo jovem de Boa Viagem. Normândia, Waldemir, Romildo, Terezinha, Hercílio e Maria Helena, Marcelo, Dóris, Sérgio, Rejane, Antônio Carlos, Clarinda, Zezé, Rosilda, Pai, Inês, Gonzaga e Fátima, Waldemiro e Janete, Inácio Strieder, Edelomar, Elizabete, Elzi e Adérito, Concita, Aderson Luna, Adersinho, Tereza, Miriam, Ernani, Ilo,toda família Luna, Lúcia Meira Lins, Betânia, Lenira, Lourdes,Diniz, Risete, Luciano e Naira, Otávio e Virgínia, Lúcia e Enildo, Matilde, Jario e Núbia, Jorge e Ceça. Fernando Lindoso, Carminha e Harlan. O pessoal da teologia, João Luiz, Degislando, Zildo Rocha, Sebastião Armando, Gilbraz.Bosco e Tereza. Lucinha e Cristina.
Ivone Gebara, grande Ivone! 
Padres foram inúmeros que tive a alegria de conviver e outros de conhecer Osvaldo Machado, Arnaldo Cabral, João Pubben, Luiz Antônio, Aluizio Fragoso, Edwaldo Gomes, Romero, José Augusto, Caetano, Renato, Muniz, Reginaldo Veloso, Félix, Frei Geraldo, Ernani, Frei João, Carlos Mesters, Comblin, Eduardo Hoornaert, Geraldito, Marconi, Evilásio, Pe. Bosco, Jacques Trudel, Albérico, Josenildo, Fred, Luciano, Lino, Miguel (da Destilaria do Cabo), João Carlos, Baronto, Libânio. Leonardo, Clodovis e Frei Betto, Marcelo Barros.
Bispos também, D. Helder, D. Francisco Austregésilo, D. José Maria Pires, D. Marcelo Carvalheira, D. Paulo Evaristo Arns (que tive a alegria e a honra de passar uns dias com ele em Petrolina), D. Mauro Morelli, Jerónimo Podestá, Gaillot, Lamartine, Luciano Mendes, Lucas Moreira, Fernando Saburido. D. Pedro Casaldáliga.
Pessoas boas. Muitas delas vivenciamos de muito perto nossas vidas, como uma comunhão. Um socorreu o outro, um se alegrou com a alegria do outro.
Enquanto estamos sob a égide do tempo, vamos sofrendo, se consolando, se adaptando, moldando a saudade em feições de ternura.







sábado, 5 de agosto de 2017

36 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 36



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36 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 36



Certa vez alguns padres se reuniram e foram pedir a D. Helder para substituir Zezita como secretária. Havia vários fatores para esse pedido, no entanto o argumento utilizado foi o fato dela ser mulher e não ficava bem para um arcebispo ter uma como secretária quando essa função rotineiramente era exercida por padre ou no mínimo um seminarista.
A reunião prolongou-se por horas. Na verdade a secretária não gozava da simpatia de quase ninguém e mantinha afastada as pessoas do Dom para protegê-lo.
D. Helder ouviu a todos pacientemente, todos argumentaram. O Dom ficou calado e não disse nada, como se refletisse. Nunca a substituiu e nunca mais ninguém falou nisso.
Outra ocasião houve, numa reunião da Operação Esperança, no tempo dos militares, que ajudava os camponeses a ter sua própria terra, D. Helder parecia cochilar durante toda a reunião (muitas vezes assim parecia, mas ele ouvia e prestava atenção a tudo que se discutia). Falaram sobre a entrega de um documento que tinham esquecido, e alguém disse 'manda um moleque levar...' Ao final da reunião o Dom abriu os olhos e concordou com quase tudo o que havia sido discutido, mas disse naquela voz mansa 'não chamem o menino de moleque, ele tem nome'.
Outra vez quando ia viajar (todas as passagens e hospedagem eram dadas pelas pessoas ou grupos que o convidavam para palestras) no exterior. Zezita providenciava algum dinheiro para o check in no aeroporto. Dessa vez ela viu o Dom preocupado pondo a mão no bolso da batina, o direito e o esquerdo, como procurasse algo. Ela chegou perto e perguntou o que estava havendo. Era o dinheiro. "mas Dom eu deixei aí no seu bolso" ele acanhado respondeu 'é que havia uma senhora muito pobre e me pediu no caminho'...
Uma coisa que ele não gostava era das pessoas pegando nele, pedindo a bênção, abraçando, etc... creio que tinha um certo escrúpulo talvez para afastar qualquer sentimento de 'idolatria'.
Nunca matava nenhum animal (mesmo barata ou formiga). Não tinha nenhum partido político e tinha ojeriza por qualquer ditadura, de direita ou de esquerda. Nem time de futebol ele dizia por quem torcia. O filme predileto era Mary Poppins e a cantora Elizeth Cardoso.
O Grupo Igreja Nova ganhou muito com a aproximação com o Dom e o IDHEC, experimentando uma sobrevida considerável, muito devendo ao Pe. João Pubben.
 

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

35 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 35




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35 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 35


As histórias de D. Helder são verdadeiras 'florezinhas' que se não são da Perúgia são de Fortaleza, de Olinda e Recife, do Rio, enfim, do Brasil.
Essas histórias já estão entrando nas cápsulas das lendas, o que as protegem do desgaste natural do tempo. Vou contando por aqui, pedindo licença aos historiadores (Biu Vicente) e os rigoristas da exatidão cartesiana. Permito-me à licença poética, pois pessoas como o Dom são profetas-poetas e admiram o Cavalinho Azul.
Das mais antigas que conheço está aquela que, sendo ainda padre novo em Fortaleza, foram se queixar ao bispo que ele estava dando a comunhão a jovens e senhoras que usavam manga curta. Interrogado o Dom saiu-se com essa: 'excelência o senhor deve ter razão, mas não posso dizer com certeza, pois quando estou dando a comunhão só olho para Nosso Senhor'. De outra feita, também em Fortaleza foram se queixar que ele estava dando comunhão a pessoas em pé (na época só se comungava ajoelhado). O Dom teria respondido: 'o senhor tem razão, a primeira pessoa a ser punida deve ser eu mesmo, pois só comungo em pé'.
Aqui, reclamavam muito com ele que vivia dando dinheiro aos pobres e mendigos, pois isso viciava, deixava preguiçosos, etc... o importante era ensinar a pescar e não dar o peixe e essas coisas todas. D. Helder sempre achou que quem está com fome não pode esperar. Ele acordava bem cedinho, escuro ainda, e pegava moedas e dinheiro e espalhava ela calçada ao redor das Fronteiras, sem que ninguém visse. Outra vez ficou sem conseguir dormir porque tinha um pobre morador de rua dormindo ao relento e ele foi acudir.
Uma outra vez, salvo engano, estava com Pe. Arnaldo e um pedinte pediu uma esmola. o Dom botou a mão no bolso da batina e pegou algumas cédulas e moedas e deu ao pedinte. Este ficou brabo dizendo que aquilo era uma miséria e que era muito pouco e jogou no chão. O padre ficou chateado com razão pelo desaforo. D. Helder se abaixou, pegou o dinheiro no chão e procurou no outro bolso e deu mais ao pobre desaforado e ainda disse ao padre 'realmente ele tinha razão, era muito pouco'.
Uma senhora vivia pedindo um retrato dele e ele não tinha. estando com o passaporte na mão, retirou a página do retrato e a deu a senhora. Isso fazia com as medalhas e condecorações que recebia.
Quando ganhou um prêmio internacional (creio que foi da França) e recebeu uma boa quantia de dinheiro, juntou seu conselho (Bosco, irmão de Pe. Edwaldo, era o ecônomo da Arquidiocese). D. Helder resolveu comprar um terreno para dividir com os pobres (uma espécie de Reforma Agrária). Bosco sugeriu que ele loteasse e vendesse a preço baixo os lotes e aí multiplicasse o dinheiro para que pudesse fazer outros eventos. O Dom foi contra. Vamos dividir por famílias e dar assistência a elas, tudo de graça. Bosco tentando ainda convencer o Dom disse: vamos então divulgar na imprensa que a Arquidiocese está utilizando assim o prêmio que o senhor recebeu. D. Helder disse: Bosco, o que a mão direita faz, que a esquerda não saiba. O loteamento foi batizado de Tururu, em Paulista, lá pelo lado do Janga, e as famílias estão até hoje. Assim era o Dom.
De outra feita, numa inauguração em Paulista, Pe. Renato (SCJ) presente, uma multidão e D. Helder no meio, começou a chover forte. Ofereceram um guarda-chuva para ele, ao que recusou dizendo 'tem para todo mundo?' Não. Agradeceu e ficou ensopado.
A comida era sempre muito pouca. Pouca mesmo. Muitos padres não gostavam muito de sair para comer com ele num restaurante (o que era raro) pois o Dom não pedia nada, beliscava a comida do outro e o pessoal comendo e ele tranquilo lá parado na mesa. Sobre isso, na Holanda, durante almoço com a rainha Beatrix da Holanda (Pe, João me corrija) ao servir a entrada, ele comeu um pouco e só. O restante de todo o jantar ele ficou sem nada comer. Chamou a atenção. E lá na Holanda mesmo, tinha muitos amigos e admiradores, foi jantar (ou almoçar) numa dessas casas e ao final o casal (muito rico) quis lhe oferecer um presente. Ele perguntou 'posso fazer o que quiser com o presente?' Claro, responderam. Deram ao Dom uma doação em dinheiro. Ele chamou os empregados da casa e cumprimentando-os um a um, dividiu o presente entre eles. Aliá, D. Helder fazia questão de cumprimentar afetuosamente cada funcionário ou empregado em todo lugar que ele ia.




terça-feira, 1 de agosto de 2017

34 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 34


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34 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 34




A partir do acontecimento da Jornada Teológica o grupo Igreja Nova ficou mais conhecido e de certa forma ganhou respeito e admiração pois prestamos um bom serviço à Igreja. As notícias e colaborações de artigos aumentaram e se expandiram. Escritores, teólogos, professores ligados a um modelo de Igreja mais progressista começaram a olhar com bons olhos o movimento. As denúncias e pedidos de 'socorro' de comunidades e paróquias que tinha sido atingidas pela administração de D. Cardoso nos procuravam.
Eu comecei também a escrever meu segundo livro que chamar-se-ia Réquiem para um Bispo.
Com a aproximação do Pe. João Pubben e a quebra de resistência de Zezita pude me aproximar mais do Dom. Muitas tardes fui à sacristia da Igreja das Fronteiras a convite do Pe. João e celebramos sentados naquela mesa que ainda  está, juntamente com o Dom. Também aos domingos às 11h como ainda é hoje.
Agradeço a Deus essa graça especial.
Muitas vezes à tarde D. Helder ficava quase sempre sentado na sua cadeira de balanço no terraço (hoje chamado de espaço D. Lamartine) que ele mais gostava. Já foi um período que ele estava mais calado, introspectivo. Nunca se queixou de nada, nem da perseguição nem do silêncio imposto, nem do tratamento de suas varizes, muito dolorido, o qual às vezes emitia um curto gemido de dor. Sempre irmã Catarina junto a ele, bem como Zezita.
Saboreei muitas história do Dom, ouvidas de Pe. João, Pe. Arnaldo, Pe. Renato, Pe. Albérico que o imitava perfeitamente desde os tempos do seminário, Pe. José Augusto, Pe. Edwaldo, D. Marcelo Carvalheira (que queria escrever um livro com As fioretti de D. Helder, como há um de São Francisco, com suas histórias), D. Francisco Austregésilo e D. José Maria Pires, irmã Catarina. 
São tantas que passando o tempo vamos enfeitando, colorindo e dando mais beleza ainda.
Uma que eu gosto muito e veio de Pe. João: toda vez que um pobre, geralmente mendigos, batiam na porta ali do terraço, D. Helder se levantava e ia atendê-los pessoalmente. às vezes podia estar em reunião, mas fazia questão de se levantar e ir, pois dizia (e acreditava piamente) que era o próprio Cristo que estava batendo à porta. Pois bem, em um desses dia (à tarde) ele foi atender um que batia insistentemente, e estava bêbado e começou a insultar o Dom, ameaçando-o. Vendo o perigo, irmã Catarina (Filha de Caridade, da congregação fundada por S. Vicente) pegou um pedaço de pau e enxotou o bêbado para longe evitando assim que o Dom fosse machucado. Ao voltar da calçada, ela esperava que o Dom fosse agradecê-la pelo gesto. Quando entrou, ele estava ajoelhado na capela, aos pés de uma imagem de S. Vicente (que existia no lado direito e foi retirada na última reforma), rezando. Quando ele acabou, a irmã Catarina perguntou, o que ele estava fazendo, ele disse: 'estou rezando para que S. Vicente lhe perdoe da maneira que tratou aquele pobre....'
Assim era D. Helder.
Na verdade como disse Pe. Arnaldo, 'nós não estávamos preparados para D. Helder, nós não merecíamos ele'. 

segunda-feira, 31 de julho de 2017

33 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 33


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33 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 33



Durante todos esses anos que participo da Igreja, posso afirmar que a imensa maioria é de pessoas (padres, religiosos e religiosas, diáconos) boas e que com fé fazem seu serviço para o próximo, mesmo que indiretamente pela Igreja.
Minha jornada é longa e nunca me arrependi, faria tudo outra vez, de maneira melhor. Cresci com a Igreja e na Igreja. Mas ela é feita de homens e mulheres com todos os nossos defeitos e virtudes misturados no joio e no trigo, no veneno e no medicamento, na luz e na treva.
Continuo afirmando que o maior de todos os mistérios teológicos, não é outro, senão o amor que Jesus tem por ela e mantém inalterado desde Pentecostes. Quanto mais o pecado grassa, mais a graça é derramada.
Presenciei ou tive notícias (confirmadas por mais de duas fontes independentes) de alguns escândalos. Alguns denunciamos no jornal Igreja Nova ou mesmo através de documentos para o Vaticano ou para a Nunciatura em Brasília. Outros ainda registrei de maneira romanceada nos meus livros. Alguns me chocaram mais, outros eram bem leves, bem humanos. Serviram para solidificar minha fé e minha misericórdia, ao invés de me afastar da Igreja.
Vou registrar os que me lembro ainda, pedindo para declinar os nomes dos protagonistas, mesmo porque a maioria já está nos braços amorosos do Pai.
O pior, o seminarista Roberto que se suicidou ateando fogo no próprio corpo, o qual visitei, já nas últimas, no Hospital da Restauração, com mais de 70% da área corporal queimada. Teve esse gesto de desespero ao saber que não seria ordenado pois seu bispo, na última hora assim o decidiu, por ele não ter correspondido aos seus anseios homoafetivos.
O caso de D. Abade que se tornou público com direito a fotos e noticiário em jornais do Brasil e até no exterior, por suas aventuras amorosas com diretor de escola casado. Um triângulo digno dos filmes de Almodóvar.
Padre que não assumiu os filhos e estes já homens feitos indo visitá-lo no Lar Sacerdotal e conversando tranquilamente. Padre sofrendo por amar uma professora e não se decidir em levar o romance até o fim por amar também o serviço sacerdotal. Religioso se encontrando com mulher sem poder assumir. Padre também já de idade avançada com uma companheira se encontrando furtivamente até o final da vida. Bispo alterando testamento de professor para vender uma casa que seria destinada à paróquia pobre e ficando com dinheiro. Religioso assediando jovens masculinos em colégio tradicional. Bispo em casos de pedofilia recebendo até processo do MPF. Bispo caluniando padres e fazendo redigir e assinar documentos falsos. Escândalo em paróquia com relacionamento a três ao mesmo tempo. Bispo estrangeiro vindo cá com romance com a secretária. Seminaristas fazendo desfile vestidos de mulher. Reitor de seminário assistindo fitas pornô no próprio seminário. Assim vai...
A maioria dessas faltas estão relacionadas com a afetividade coibida e a sexualidade reprimida e deformada durante a formação nos seminários.
Nada do que é humano é estranho a Deus, e se o mal e os desvios estão na Criação, bem mais está o Bem e o Amor de Deus para com todos nós. Analisando e estudando dois mil anos da presença da Igreja na vida da humanidade, podemos ter certeza que estaríamos bem pior sem ela.







sábado, 29 de julho de 2017

32 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 32

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32 Minhas memórias da Igreja de Olinda e Recife 32



Os jovens oriundos do Grupo de Jovens de Boa Viagem (JUNA) tiveram uma atuação marcante desde o início da resistência contra as atitudes pastorais e administrativas de D. Cardoso, para eles iniciada com a expulsão do padre Luiz Antônio.
Uma parte assumiu o jornalzinho tanto na feitura, na edição, na distribuição, escrevendo artigos, ajudando no custeio. Cito com perdão se esquecer de alguns pela memória, Fernandinho, Sávio, Edênia, Josias, Alejandro, Paulinho (Paulo André), Lucinha. Confeccionaram camisetas com os dizeres "Igreja Sofre" com a lista de padres expulsos, que foi aumentando sempre.
Em 1991 o papa João Paulo II visitaria Natal.
Tivemos a ideia de denunciar os problemas da nossa Arquidiocese. Imaginamos e criamos uma faixa, que seri escrita em polonês (Strieder tinha um amigo polonês na UFPE) "Santo Padre, Olinda e Recife estão como ovelhas sem pastor! SOLIDARIEDADE", toda vermelha com 7 metros (salvo engano). O termo Solidariedade foi lembrado em referência ao sindicato polonês apoiado pelo papa que lutou contra o imperialismo russo.
Confeccionamos a faixa. Fomos para Natal no dia anterior (eu, Mírcia, Marcelo, Dóris, e Fernandinho e Lucinha). Nos postamos na avenida onde o carro com o Papa ia passar logo na chegada do aeroporto. Quando estava perto, abrimos a faixa. Um guarda perguntou de que se tratava (estava em polonês) aí eu disse: Santo Padre Olinda e recife saúdam seu pastor. Ele nos parabenizou. O papa passou com sua equipe saudando os que estavam na margem da estrada. Vimos quando ele e alguns assessores ficaram olhando a faixa.
De madrugada fomos chegando ao local onde seria a missa campal. Enrolamos a faixa. Estavam revistando o pessoal. Conosco não teve problema. Era umas cinco horas da manhã e pudemos nos posicionar estrategicamente.
Uma multidão foi se aglomerando, e conforme combinado, na hora das orações da comunidade abrimos a faixa. Lá do altar (muitos bispos inclusive D. Cardoso) vimos um soldado do exército com binóculos olhando para a faixa, em seguida veio ordem para abaixarmos. relutamos, mas obedecemos. Depois da comunhão a abrimos mais uma vez até o final. Foi noticiado na antiga TV Manchete para todo Brasil. Um padre que estava na multidão passou por nós, sorriu e disse, eu sou polonês e entendo o que está escrito...  Soubemos que o papa havia lido a faixa e que D. Cardoso comentou lá do altar "é coisa de D. Marcelo" (se referia a D. Marcelo Carvalheira).
Em 1995 D. Marcelo Carvalheira tomou posse com arcebispo da Paraíba. Pois bem, sabendo que o núncio estaria presente, bem como todos os bispos do Nordeste, fomos à sua posse no estádio Ronaldão de João Pessoa.Desta vez confeccionamos uma faixa branca, em português com os dizeres: "Santo Padre, Olinda e Recife continuam como ovelhas sem Pastor" SOLIDARIEDADE!
Abrimos a faixa eu e Marcelo , no último degrau da arquibancada. Antes de iniciar a cerimônia D. Cardoso, mesmo enxergando apenas com um olho só, olhou lá de baixo e disse "um é Assuero o outro não sei quem é". No serviço de som pediram para algum representante do grupo ir falar com Luiz Antônio (que já estava em João Pessoa) e ele pediu para não abrirmos a faixa pois era a posse de D. Marcelo Carvalheira e era constrangedor. Não atendemos o pedido e mantivemos a faixa aberta. depois foi um seminarista querer tomar à força de nossas mãos, o que reagimos e ele saiu.
Assim era a vida de 'militantes' pela Igreja.
O cristianismo sempre foi desde o início um movimento de jovens e no dia que a Igreja perder sua juventude, o que será da propagação da fé?